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Este relato é sobre a experiência da equipe multiprofissional do Hospital Municipal Vila Santa Catarina frente ao atendimento de um paciente com condições desafiadoras e sobre os aprendizados que foram gerados a partir dessa experiência. Durante a internação o paciente que tinha como comorbidade doença cardíaca associada a hipertensão pulmonar e obesidade mórbida com limitação funcional prévia, apresentou complicações graves, incluindo a necessidade de monitorização invasiva, uso de óxido nítrico devido hipertensão pulmonar e de ventilação mecânica invasiva prolongada com necessidade de traqueostomia. Foram iniciados protocolos institucionais de reabilitação baseados em evidência, entretanto, o mesmo apresentou resposta parcial aos tratamentos ofertados. Foi então que houve a necessidade de se discutir o caso com mais regularidade, direcionando as medidas de forma mais proporcional levando em consideração o que era mais importante e que fazia mais sentido na sua trajetória de vida. O paciente apresentava rede de suporte fragilizada, e com o intuito de respeitar sua autonomia pois encontrava-se preservado das suas faculdades mentais, foram definidas junto a ele suas diretivas antecipadas de vontade, ocasião em que o paciente elaborou entre seus principais valores no processo de fim de vida a comunicação verbal, a alimentação, a conexão com a sua religiosidade e a aproximação de pessoas importantes, (entre elas, os profissionais de saúde do HMVSC).
Proporcionar a melhor jornada possível para todos os envolvidos no cuidado: paciente, família e profissionais. Gerar aprendizados a serem utilizados e aprimorados de forma recorrente com consequente melhoria contínua na prática clínica e bem estar de pacientes, familiares e profissionais de saúde.
Foram iniciados protocolos institucionais de reabilitação baseados em evidência, entretanto por ser multimorbido apresentou resposta parcial aos tratamentos ofertados. Assim houve a necessidade de se discutir o caso com mais regularidade, a fim de proporcionar ao paciente um olhar mais direcionado ao que era mais importante e que fazia mais sentido na sua trajetória de vida. O paciente apresentava rede de suporte fragilizada, anteriormente a internação morava sozinho e já apresentava limitação funcional importante. Com o intuito de respeitar a autonomia do paciente pois o mesmo encontrava-se preservado das suas faculdades mentais, foram definidas junto a ele suas diretivas antecipadas de vontade. Dada a refratariedade do tratamento proposto, reuniões recorrentes foram realizadas para revisar o plano de cuidados no fim de vida, levando em consideração os desejos do paciente. Realizadas teleconferências com os filhos do paciente e a equipe médica ao longo da internação. Houve também uma teleconferência envolvendo médico, equipe multidisciplinar, (fisioterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional, psicologia e serviço social), enfermagem e os filhos alinhando programação com foco na segurança e necessidades do paciente e de sua família.
Realizadas visitas multidisciplinares para revisar o plano terapêutico com critérios de segurança e cuidados proporcionais a fase de vida do paciente, envolvendo terapias compartilhadas com a equipe multiprofissional. Essas terapias abrangeram adaptação da fala e comunicação, alimentação adequada, planejamento para possível transferência segura para um hospital de retaguarda (preferencialmente próxima à sua comunidade religiosa-cuidado de sua espiritualidade) e mobilizações para fora da UTI como uma rotina importante de contato com a área externa ao hospital. Além disso, foram realizadas sessões de psicoterapia com válvula fonatória para trabalhar o controle da ansiedade. Compartilhadas informações médicas com o filho, permitindo sua chegada antecipada e rituais de despedida, contribuindo positivamente com a construção do processo de luto. Após o óbito, realizamos sessões de debriefing, lideradas pelo médico da UTI e pela psicologia. A equipe também foi informada sobre o convite da família para o velório do paciente, o que ajudou na elaboração do processo de luto da equipe vinculada ao paciente. A revisão sistemática e personalizada do plano de cuidados, baseada nas necessidades do paciente e de sua família, melhorou o bem-estar e a autonomia do paciente. Além disso, essas ações impulsionaram o aprendizado da equipe, reforçaram os princípios do cuidado centrado no paciente e motivaram a equipe a fornecer cuidados de alta qualidade, mesmo em situações desafiadoras.
Diante de situações com internações prolongadas de pacientes multimorbidos e com fragilidades sociais existem demandas de ordem social, psíquica, espiritual e física. O papel do profissional de saúde não deve se limitar ao de oferecer a melhor prática baseada em evidências, mas sim ampliarmos nosso olhar para o cuidado holístico que deve ser customizado conforme as preferências e necessidades dos pacientes e suas famílias, de acordo com as condições físicas, dos recursos financeiros e humanos do local onde os pacientes estão internados. Importante observar não apenas o que deve ser feito e o como fazê-lo, mas também como gerenciar isso tudo de forma equilibrada e flexível uma vez que cada pessoa tem sua própria trajetória de vida, de adoecimento e de morte. A vivência dessa experiência proporcionou aumento do nível de satisfação do paciente, família e equipe pois participaram ativamente da construção do plano terapêutico propiciando maior aderência ao tratamento proposto, menores riscos, colaborando também com a educação continuada e manutenção de uma equipe aquecida, engajada e energizada para os desafios enfrentados na sua rotina diária, gerando aprendizados serão replicados em outras oportunidades e de forma individualizada.
multimorbidade, multiprofissionalidade
MONIQUE BUTTIGNOL SHIBATA, Ana Paula Pires Bolsoni Okuda