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A leptospirose é uma doença infecciosa causada pela bactéria Leptospira, variando de formas leves a graves. Com alta incidência em determinadas regiões, é uma zoonose de grande impacto social e econômico, devido ao alto custo hospitalar, perda de dias de trabalho e letalidade que pode chegar a 40% nos casos mais graves (Sinan, 2018). A precariedade do saneamento, a alta infestação de roedores e inundações favorecem a disseminação da doença, facilitando surtos (Brasil, 2023). Considerada uma das zoonoses mais incidentes globalmente, o Ministério da Saúde registrou 48.670 casos confirmados e 4.287 óbitos no Brasil entre 2007 e 2019, com maior incidência no Sul e Sudeste. Estima-se que ocorrem anualmente 1,03 milhão de casos e 58.900 mortes no mundo (Ramos et al., 2021). Segundo Rodrigues (2017), mudanças climáticas, como desmatamento e aumento de chuvas, influenciam a incidência da leptospirose em áreas tropicais. Assim, surge a questão: como variações climáticas e saneamento impactaram a leptospirose no Guarujá (2014-2023) e qual o papel do enfermeiro na prevenção?
Investigar a relação entre mudanças climáticas e a incidência de leptospirose no município do Guarujá, além de avaliar a atuação do enfermeiro na prevenção da doença.
Optou-se por um estudo ecológico de série temporal com dados secundários. As notificações de casos confirmados e escolaridade foram extraídas do SINAN, enquanto a taxa de pluviosidade foi obtida no DAEE, com levantamento em agosto de 2024. Dados populacionais foram coletados do IBGE, indicando 287.634 habitantes (Censo 2022), e informações sobre saneamento vieram do SNIS (Censo 2022). A incidência de leptospirose entre 2014-2023 foi analisada em relação à taxa de pluviosidade no Guarujá, município escolhido pela familiaridade e alta incidência da doença. Foram realizadas buscas entre junho e novembro de 2024 nas bases BVS, SCIELO, MEDLINE/PUBMED e ARCA, utilizando os descritores: Leptospirose, Clima, Doenças transmitidas por vetores, Doenças infecciosas, Incidência, Saneamento Básico, Óbito, Diagnóstico Laboratorial e Saúde Pública, combinados com o operador booleano AND. Aplicaram-se filtros para textos completos, em português e inglês, nos últimos 10 anos. Os critérios de inclusão abrangeram artigos e bibliografias relevantes ao tema, disponíveis na íntegra e no recorte temporal de 10 anos. Foram excluídos artigos duplicados. Após a triagem, dos 527 iidentificados, oito foram selecionados conforme os objetivos do estudo.
No Guarujá, de acordo com o DAEE, entre os anos de 2014-2023 a pluviosidade média mensal se mostrou maior nos meses de janeiro, fevereiro e março. Esperado índice pluviométrico maior nesses meses devido ao clima da região. Foi observado um aumento no número de casos de leptospirose nos meses de janeiro, fevereiro e março, indicando a influência do clima na incidência da doença, sendo que em abril continua aumentado os casos coincidindo com o período de incubação da doença que pode variar de um a 30 dias. O município do Guarujá tem como um dos principais indicadores alarmantes a questão do saneamento, cerca de 80.214 habitantes carecem de acesso a serviços de esgoto, enquanto 34.000 indivíduos não têm disponibilidade de água. Além disso, 42.054 domicílios estão em áreas suscetíveis a inundações. Nos anos de 2018 a 2022 foram registradas 28 alagamentos. O Guarujá possui suas áreas de risco de inundação mapeadas, e possui sistemas de alerta de riscos hidrológicos. Em relação a coleta de lixo, o lixo de 99,77% da população é coletado. No entanto, 112 habitantes ainda queimam seus resíduos e 184 indivíduos utilizam métodos alternativos de descarte, que incluem despejo em locais inadequados resultando em riscos a população.
A análise das variáveis climáticas e socioambientais no contexto da leptospirose evidencia a relação entre mudanças climáticas e saúde pública. O estudo aponta que a precipitação e a temperatura influenciam a incidência da doença, afetando vetores, comportamento humano e dinâmica dos patógenos. Os dados mostram uma correlação entre períodos chuvosos e aumento de casos, destacando a importância do período de incubação na interpretação dos surtos. Fatores socioeconômicos, como urbanização desordenada e saneamento precário, são determinantes na propagação da leptospirose, especialmente no Guarujá, onde a infraestrutura deficiente aumenta a vulnerabilidade da população. A atuação dos profissionais de saúde, sobretudo enfermeiros, na educação e orientação da comunidade é essencial para mitigar os riscos associados às inundações e outros fatores ambientais. O enfrentamento da leptospirose exige uma abordagem multidisciplinar, envolvendo vigilância sanitária, educação e investimentos em infraestrutura. O fortalecimento da gestão pública, aliado à pesquisa e ao monitoramento de populações vulneráveis, é essencial para reduzir a incidência da doença, proteger as comunidades e romper o ciclo de subdiagnóstico e negligência da doença.
Leptospirose, Clima, Saúde Pública
BEATRIZ VICTORIA CANDIDO DA SILVA CAMARGO