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As doenças que afetam o sistema musculoesquelético representam um desafio significativo para a saúde global, resultando em anos perdidos devido à dor e incapacidade dos pacientes. Entre essas condições, a Hérnia de Disco se destaca como uma das principais causadoras de afastamento do trabalho, conforme dados do Ministério da Previdência Social, liderando o ranking em 2023 com 51.453 benefícios por incapacidade temporária. O aumento alarmante de quase 70% no número de trabalhadores diagnosticados com Hérnia de Disco em comparação com 2022 revela uma tendência preocupante. Além disso, dados obtidos através da Lei de Acesso à Informação revelam que até outubro de 2023, mais de 214 mil pessoas aguardam na fila para cirurgias em São Paulo – SP, sendo mais de 30 mil especificamente para procedimentos na coluna. A literatura científica destaca que a Hérnia de Disco possui uma taxa considerável de reabsorção espontânea (66%), e mais de 80% dos casos respondem positivamente ao tratamento conservador. Diante desse cenário, o Hospital Dia São Miguel, de maneira inovadora, implementou o primeiro Programa de requalificação da fila de cirurgia de Hérnia de Disco do país, contribuindo para a otimização do sistema único de saúde (SUS), com o desenvolvimento de estratégias mais efetivas no enfrentamento da Hérnia de Disco, propiciando redução de fila de espera para cirurgia e impactando diretamente na redução de custos ao município.
Aprimorar a gestão da fila de espera para cirurgia de Hérnia de Disco no SUS em São Paulo. Buscamos reduzir o tempo de espera dos pacientes, implementando estratégias de triagem eficazes e otimizando a eficiência do sistema. Além disso, visamos a diminuição de custos para o município, identificando oportunidades de eficiência operacional e controle de gastos. Ao priorizar a satisfação do paciente e promover a transparência, aspiramos a construir um sistema de saúde mais ágil, sustentável e centrado no bem-estar da comunidade.
Foram considerados elegíveis 504 pacientes com diagnóstico de Hérnia de Disco (CID M51), que estavam pendentes na regulação central do Hospital Dia São Miguel desde 2015. Após a fase de triagem, 238 pacientes foram avaliados individualmente e submetidos a exame físico abrangente, posteriormente subgrupados de acordo com sistema de classificação do Método McKenzie (MDT – Mechanical Diagnosis and Therapy), realizado por um fisioterapeuta certificado. Os subgrupos identificados foram submetidos a tratamento fisioterapêutico de acordo com as diretrizes do Método McKenzie com duração de até 5 semanas, com exceção ao subgrupo de pacientes que apresentavam sinais de Red Flags ou sinais radiculares com perda neurológica progressiva. O desfecho para a retirada da fila de cirurgia, foi avaliado considerando diversos critérios associados. Primeiramente, levou-se em conta o desejo expresso pelo paciente de não realizar a cirurgia. Além disso, utilizou-se o Escore Visual Analógico (EVA), considerando uma pontuação inferior a 6 como critério de melhora sintomática. Houve também avaliação da melhora na capacidade funcional, verificação da estabilidade ou melhora dos sintomas, localização dos sintomas acima dos joelhos, e consideração da ausência de sintomas radiculares, associada à inexistência de perda neurológica progressiva ou presença de Red Flags indicativas de condições graves.
Os resultados finais revelaram insights valiosos sobre a gestão da fila cirúrgica e o impacto direto na experiência do paciente. Primeiramente, observamos que 31% dos pacientes (um total de 154) foram inativados após três tentativas de contato telefônico sem sucesso. Durante o contato telefônico, 7% dos pacientes (36 no total) solicitaram a retirada de seus nomes da fila. As razões para essa decisão foram diversas, incluindo melhoras espontâneas e a busca por outros tratamentos. Essa interação direta revelou uma abordagem proativa dos pacientes em relação à sua saúde. Um grupo significativo de 25% (128 pacientes) foi mantido na fila devido a condições graves, perda neurológica progressiva ou não finalização do protocolo de tratamento. Essa categorização destacou a importância de priorizar casos mais complexos e urgentes, garantindo um atendimento adequado às necessidades clínicas. Por fim, 37% dos pacientes (um total de 186) foram retirados da fila com base em critérios pré-estabelecidos, incluindo o desejo do paciente após acompanhamento por até 5 semanas. Esse critério específico ressalta a abordagem centrada no paciente, buscando garantir que as decisões sobre a continuidade na fila reflitam verdadeiramente a vontade do paciente.
O programa de requalificação da fila de cirurgia de Hérnia de Disco resultou em uma notável redução de custos estimada em mais de 18 milhões de reais para o município. Diante da longa fila de espera enfrentadas pelos pacientes do SUS a aplicação do Método McKenzie se revelou eficaz. Esse método, seguro e de baixo custo, subgrupa e trata pacientes com bom prognóstico ao tratamento conservador, reduzindo o tempo de espera. A baixa confiabilidade dos exames de imagens como critério de elegibilidade e a escassez de evidências científicas favoráveis ao tratamento cirúrgico justificam essa abordagem. O sucesso do Hospital Dia São Miguel, sugere que essa prática pode ser replicada em outros municípios, proporcionando eficiência, segurança e redução de custos. A implementação não apenas atende às demandas presentes, mas também oferece uma perspectiva promissora para a gestão das filas de cirurgias de Hérnia de Disco no âmbito do SUS, contribuindo para a sustentabilidade do sistema de saúde municipal. A contínua avaliação e ajustes desse programa são cruciais para garantir uma gestão de filas cirúrgicas eficaz e alinhada com as necessidades em constante evolução de nossos pacientes.
Hérnia Disco, Requalificação Cirúrgica.
Luiz Carlos dos Santos da Silva