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No Brasil, a taxa de hospitalização de crianças e adolescentes com condições crônicas complexas é de 331 por 100 mil habitantes, resultando em cerca de 240 mil internações anuais, sendo 13,5% de alta complexidade. Esses pacientes demandam cuidados prolongados, uso contínuo de serviços de saúde e, muitas vezes, passam grande parte da infância em hospitais (Novais, et al, 2021). No Hospital Municipal Dr. José de Carvalho Florence, em São José dos Campos-SP, essa realidade refletia-se na superlotação, com leitos ocupados por pacientes crônicos e, em períodos críticos, crianças internadas em corredores. Em 2017, surgiu a necessidade de desospitalizar esses pacientes para garantir o giro de leitos, assegurando segurança, qualidade de vida no domicílio e acompanhamento pela rede de saúde. Entre os principais desafios identificados pela equipe multidisciplinar, estavam alta taxa de ocupação e permanência hospitalar, dependência de ventilação mecânica, insegurança para alta médica, limitações socioeconômicas das famílias, alto custo de medicamentos e inadequação dos domicílios. O projeto, iniciado em maio de 2017 e mantido até hoje, ampliou a disponibilidade de leitos, melhorou o conforto hospitalar, fortaleceu o vínculo familiar e elevou a qualidade de vida de pacientes crônicos, além de estender-se às crianças com longa permanência para uso de antibióticos e controle dos níveis glicêmicos (no caso de primodescompensação de diabetes).
O objetivo deste projeto foi desenvolver e implementar estratégias para uma desospitalização segura e eficaz de pacientes pediátricos com longa permanência hospitalar. A iniciativa teve início em maio de 2017, período em que a média de permanência era de 6,3 dias, superior à meta contratual estabelecida com o município, fixada em 5 dias. Diante desse cenário, buscou-se aplicar essa experiência também a pacientes de longa permanência não crônicos, porém dependentes de medicamentos e tratamentos específicos por períodos prolongados, assegurando que o processo de alta não comprometesse a qualidade de vida das crianças e de seus familiares. O projeto também teve como objetivo capacitar a equipe multiprofissional para preparar as famílias de forma adequada para a alta hospitalar, garantindo que estivessem aptas a realizar os cuidados necessários no domicílio com segurança e autonomia.
Trata-se de um estudo qualiquantitativo, prospectivo, com delineamento de relato de experiência, desenvolvido a partir da implantação de um projeto de desospitalização de crianças com condições crônicas complexas. Inicialmente, identificaram-se os principais desafios para viabilizar altas hospitalares seguras, entre eles necessidade de sensibilizar a alta gestão quanto à viabilidade clínica e institucional do projeto; inexistência de serviço estruturado de atenção domiciliar no município; indisponibilidade de ventiladores mecânicos para uso domiciliar; alto custo de medicamentos; necessidade de oxigenioterapia contínua e reabilitação domiciliar, especialmente fisioterapia; além da inadequação estrutural de muitos domicílios, exigindo adaptações físicas. Destacaram-se ainda a necessidade de garantir fornecimento contínuo de energia elétrica, mediante articulação com a concessionária local, e o preparo técnico, emocional e social das famílias para assumir o cuidado no domicílio. Como estratégias, promoveram-se reuniões entre direção técnica, diretoria hospitalar e famílias, com o objetivo de apresentar a proposta, compreender as dificuldades familiares e sensibilizar a gestão quanto à necessidade de liberação de leitos. Após aprovação institucional, elaborou-se um manual educativo para orientação do cuidado domiciliar e estruturou-se uma atuação interdisciplinar envolvendo engenharia clínica, manutenção, reabilitação, serviço social, além das equipes médica e de enfermagem.
A média de permanência hospitalar foi reduzida de 6,3 dias, registrada como média anual em 2017, para 2,3 dias, mantendo-se estável até o período atual. Durante os períodos de sazonalidade, nos quais as doenças respiratórias ocupam parcela significativa dos leitos hospitalares, a equipe de Programa de Hospitalização Domiciliar (PHD) foi acionada para apoiar a desospitalização de crianças com longos períodos de internação, dependentes de medicações e cuidados especializados. Observou-se aumento das internações acompanhadas pelo programa, passando de 118 em 2018 para 494 em 2023 e 346 em 2025. Essas ações resultaram em maior disponibilidade de leitos, melhoria da comodidade à população, redução do risco de infecções associadas ao tempo de exposição hospitalar, diminuição das taxas de reinternação e menor tempo de hospitalização de pacientes crônicos. Destaca-se ainda a implementação de altas programadas e precoces, realizadas de forma segura e com garantia da continuidade da assistência. Após a identificação dos principais desafios, foram adotadas as seguintes ações: autorização institucional para locação de dispositivos de ventilação não invasiva; disponibilização de assistência técnica especializada 24 horas; solicitação de medicamentos de alto custo para uso domiciliar; avaliação domiciliar pela engenharia clínica, manutenção e serviço social para adequação do ambiente; e articulação com a unidade básica de saúde de referência para fornecimento dos insumos necessários.
Diante dos resultados apresentados, conclui-se que o projeto de desospitalização, iniciado em 2017 e mantido até a atualidade, mostrou-se eficaz no alcance de seus objetivos. Mesmo em contextos adversos, como o período pandêmico, marcado pela redução da capacidade instalada da unidade pediátrica, a atuação integrada das equipes multiprofissionais, articulada ao Programa de Hospitalização Domiciliar, possibilitou a desospitalização segura de crianças e adolescentes, contribuindo para a otimização do giro de leitos e redução da taxa de ocupação hospitalar. O projeto consolidou-se como estratégia contínua de qualificação da assistência, incorporando à rotina institucional a capacitação sistematizada das famílias, o planejamento precoce da alta e a avaliação criteriosa das condições para desospitalização. Essas ações, discutidas em rounds multiprofissionais, favoreceram o planejamento e monitoramento do cuidado. Como impactos assistenciais e organizacionais, destacam-se a redução da permanência em áreas inadequadas e a ampliação das cirurgias eletivas, minimizando cancelamentos sem prejuízo à qualidade e segurança do cuidado.
Hospitalização, Alta Hospitalar
DAVID PINTO RIBEIRO, CAROLINA DOS SANTOS SCARPA DE TOLEDO, ANDREA DE FÁTIMA CORNÉLIO, LETICIA FERNANDES CALIXTO DOS SANTOS, RENATA MANTOVANI, GEORGE LUCAS ZENHA DE TOLEDO