Siga a gente
Av. Angélica, 2466 - 17º Andar
Consolação - São Paulo / SP
CEP 01228-200
55 11 3083-7225
cosemssp@cosemssp.org.br
No início de 2025, a Atenção Primária à Saúde de Santo Expedito vivia uma situação que, já comprometia a qualidade do cuidado ofertado à população. Contávamos com apenas uma equipe de Estratégia Saúde da Família (ESF) responsável por 3.160 pessoas cadastradas, número que ultrapassava os parâmetros recomendados pelo Ministério da Saúde e gerava sobrecarga constante para a equipe mínima e para os oito agentes comunitários. A rotina era marcada por agendas tomadas por demanda espontânea. O acompanhamento de pacientes crônicos, o cuidado dos idosos e as ações preventivas acabavam ficando em segundo plano. Com a publicação da Portaria GM/MS nº 3.493/2024, que redefiniu parâmetros de adscrição e financiamento das equipes de Atenção Primária, tornou-se evidente que não se tratava apenas de uma percepção interna e que estávamos estruturalmente desalinhados às diretrizes federais. Diante desse cenário, em março de 2025 iniciamos um planejamento técnico com um objetivo claro de reorganizar o território e devolver à APS sua função de ordenadora do cuidado. A alternativa mais viável foi a implantação de uma EAP de 20h, utilizando profissionais já vinculados à rede e formalizando a solicitação por meio do e-Gestor AB. Mesmo antes da homologação oficial, optamos por iniciar o funcionamento da nova equipe em julho de 2025. A decisão foi pautada na necessidade concreta da população e não poderíamos aguardar trâmites burocráticos enquanto a sobrecarga assistencial persistia.
Objetivos O objetivo central desta iniciativa foi implantar a EAP como ferramenta de gestão para adequar o município aos novos parâmetros federais, reduzindo o desgaste das equipes e qualificando a assistência prestada, sempre em conformidade com a PNAB. Objetivos específicos: •Adequar a população adscrita aos parâmetros da Portaria GM/MS nº 3.493/2024; •Implantar estratificação de risco para idosos, conforme orientações da Caderneta da Pessoa Idosa; •Fortalecer o acompanhamento dos pacientes crônicos; •Ampliar visitas domiciliares; •Melhorar os indicadores assistenciais; •Garantir sustentabilidade organizacional e financeira da APS.
Metodologia O percurso metodológico começou com um diagnóstico minucioso da cobertura populacional em março de 2025. Após a análise da normativa federal, o município organizou o fluxo administrativo para a solicitação da EAP no sistema e-Gestor AB. Um ponto decisivo foi a decisão da gestão em colocar a equipe para funcionar já em julho de 2025, mesmo antes da homologação final, priorizando a necessidade assistencial da população. A redistribuição do território foi o primeiro passo prático e assim a ESF original passou a cuidar de 2.083 pessoas, enquanto a nova EAP assumiu 1.081 usuários. Essa divisão permitiu um olhar muito mais atento para cada microárea. Em novembro de 2025, com a habilitação oficial, o município passou a receber um incremento mensal de R$ 14.400,00, recurso fundamental para a manutenção dos serviços. Com as agendas reorganizadas, as equipes focaram na população e nos indicadores do Brasil 360. Foi adotada a avaliação multidimensional baseada no Índice de Vulnerabilidade Clínico-Funcional (IVCF-20). Essa metodologia permitiu que os profissionais parassem de atender por ordem de chegada e passassem a atender por critério de risco, priorizando os idosos frágeis. Além disso, a plataforma municipal de cuidado foi alimentada diariamente para monitorar o desempenho dos indicadores.
A implantação da EAP promoveu mudanças estruturais na organização da Atenção Primária, com impacto assistencial, produtivo e organizacional. No campo assistencial, observou-se crescimento aproximado de 50% nas linhas de cuidado dos pacientes crônicos e no acompanhamento da população idosa. Em 2025, 51% da população idosa foi avaliada por IVCF-20, permitindo classificação por níveis de risco e priorização dos casos mais vulneráveis, alinhando o cuidado às diretrizes para a pessoa idosa. A ampliação da atuação territorial foi evidenciada pelo aumento das visitas domiciliares: no primeiro semestre de 2025 foram realizadas 58 visitas, enquanto no segundo semestre, após a implantação da EAP, o total passou para 189 visitas, representando crescimento de 225%. A intensificação das visitas consolidou acompanhamento mais próximo de idosos frágeis, pacientes acamados e crônicos de maior risco. No campo produtivo, observou-se aumento global da produção assistencial. No primeiro semestre de 2025 foram realizadas 5.453 ações de cuidado individuais. No segundo semestre, o total passou para 6.066, representando crescimento de 11,2%, mesmo com redistribuição da população adscrita entre as equipes. No campo organizacional, houve reequilíbrio da carga assistencial entre ESF e EAP, redução da sobrecarga da equipe original, maior previsibilidade da agenda e fortalecimento da resolutividade da Atenção Primária, em consonância com os princípios da Política Nacional de Atenção Básica.
A implantação da EAP evidenciou que a gestão estratégica da Atenção Primária, quando fundamentada na normativa federal e na análise da realidade local, pode produzir mudanças estruturais. A adequação da população adscrita aos parâmetros ministeriais, associada à estratificação de risco e à ampliação das visitas domiciliares, reorganizou o modelo assistencial e fortaleceu a atuação preventiva. A experiência demonstrou que a reorganização do processo de trabalho não apenas amplia a oferta de serviços, mas qualifica o cuidado, melhora a coordenação das ações e equilibra a carga assistencial entre as equipes. Os resultados alcançados reforçam o papel da Atenção Primária como ordenadora da rede e como espaço privilegiado para intervenções estruturantes. Além do impacto assistencial, a habilitação da EAP ampliou a sustentabilidade financeira do município, demonstrando que decisões técnicas bem planejadas podem alinhar responsabilidade fiscal e qualificação do cuidado. Trata-se de uma iniciativa de gestão que ultrapassa a criação de uma nova equipe, consolidando uma mudança organizacional capaz de gerar resolutividade, continuidade do cuidado e fortalecimento do SUS local.
Reorganização, qualificação, continuidade, cuidado
MICHEL CRISTIAN KUFFEL DA SILVA