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O vírus linfotrópico de células T humanas (HTLV) é um retrovírus negligenciado, com alta prevalência no Brasil e sérias implicações clínicas. Apesar de sua importância epidemiológica, a infecção ainda é pouco conhecida pela população e profissionais de saúde. Recentemente, a Portaria GM/MS n° 3.148/2024 tornou a infecção em adultos, gestantes/puérperas e recém-nascidos expostos ao HTLV como agravo de notificação compulsória nacional. Somado ao Decreto 11.908 (Programa Brasil Saudável), o país estabeleceu a meta de eliminar a transmissão vertical (TV) do vírus até 2030. Diante desse novo cenário, o Núcleo de Vigilância Epidemiológica em IST (NVIST) do Município de São Paulo (MSP), em colaboração com a Divisões Regionais de Saúde (DRVS), desenvolveu uma ferramenta digital para viabilizar o monitoramento qualificado pela rede, investigação dos casos e planejamento de ações. Diferentemente de outras infecções de transmissão vertical que já contam com sistemas de investigação epidemiológica, o Brasil ainda carece de um instrumento que agregue o monitoramento casos de HTLV em gestantes e a conclusão das investigações de transmissão vertical (TV) do agravo, o que torna esta ferramenta de grande utilidade para assistência e vigilância do MSP.
Descrever a implantação da vigilância epidemiológica da TV do HTLV no MSP. Analisar os casos de gestantes com infecção confirmada por HTLV até o desfecho gestacional, bem como as medidas adotadas para a prevenção da transmissão vertical nos recém-nascidos. Avaliar as características sociodemográficas das gestantes com diagnóstico confirmado de HTLV. Identificar os recém-nascidos expostos, avaliando e monitorando as medidas de prevenção adotadas no parto e no pós-parto, incluindo o uso de fórmula láctea desde o nascimento, sua duração e a realização de exames de seguimento.
Com base na ficha de notificação/conclusão preconizada pelo Ministério da Saúde (e-SUS Sinan) para os casos de HTLV, foram coletadas as informações originalmente previstas no instrumento, acrescidas de outros campos considerados essenciais pelas DRVS para o acompanhamento dos casos. Diante das dificuldades identificadas no processo de monitoramento, foi desenvolvida uma ferramenta digital composta por 68 itens. A ferramenta contempla dados como região de residência do caso, informações sobre o serviço de pré-natal e de acompanhamento, número da notificação, datas e resultados de exames, sinais e sintomas, dados epidemiológicos (ocupação, raça/cor, orientação sexual, entre outros), informações sobre o desfecho gestacional, realização da inibição da lactação, uso de fórmula láctea pela criança e sua duração, além dos exames da criança. A coleta das informações ocorre por meio da inserção dos casos provenientes da atenção básica na ferramenta pelas Unidades de Vigilância em Saúde (UVIS). Estes dados são evolutivos, podem ser vistos por outras vigilâncias do município, permite anexar documentos quando necessários, além de mensagens por e-mail entre os serviços. O NVIST da Coordenadoria de Vigilância em Saúde (COVISA), realiza atualizações periódicas com posterior consolidação dos dados em dashboards, possibilitando também visualização dos dados e análise das informações pelas diferentes regiões.
Até o momento, há 214 casos de gestantes com triagem positiva em acompanhamento, dos quais 76 (36%) aguardam o teste confirmatório, 63 (29%) foram não reagentes para o Western Blot (WB), 49 (23%) gestantes apresentaram confirmação de infecção pelo WB, e 26 (12%) devido ao WB indeterminado necessitaram do exame de DNA proviral, onde 13 resultaram em não reagente e 13 aguardam o exame. Em relação às gestantes com teste confirmatório positivo, 76% estão digitadas no e-SUS Sinan. Quanto à escolaridade das gestantes confirmadas, 49% concluíram o ensino médio. Em relação à raça/cor, 53% se autodeclararam pardas e pretas. As DRVS estão distribuídas em ordem decrescente de casos confirmados em gestantes: Leste com 31%, Sul 29%, Sudeste 20%, Norte 16% e Oeste 4%. As UVIS com maior número de casos de gestantes em acompanhamento são Campo Limpo, Guaianases e Pirituba (12%). Foram inseridos 28 nascidos vivos expostos ao HTLV, 46% estão notificados no e-SUS Sinan. Das crianças expostas, 96% encontram-se em acompanhamento na rede pública de saúde, todas em uso de fórmula láctea de termo, duas crianças realizaram o exame de DNA proviral aos 3 meses de vida, ambos negativos.
A vigilância epidemiológica investigativa representa um avanço estratégico para as gestões local e central, ao viabilizar a identificação e o monitoramento de gestantes, familiares e crianças expostas — um público historicamente negligenciado. Por ser uma linha de cuidado recente e em fase de implementação na Atenção Básica, essa abordagem permite diagnosticar e enfrentar vulnerabilidades regionais específicas, demandando capacitação contínua da rede para efetivar a eliminação da transmissão vertical do HTLV no Município de São Paulo. Além de sistematizar a coleta e análise de dados integrados ao território, o modelo promove uma gestão participativa. A devolutiva estruturada dos indicadores aos profissionais da assistência e vigilância subsidia discussões críticas e fundamenta mudanças consistentes na rede de cuidados.
HTLV, Transmissão Vertical, Vigilância em saúde
HELENA MIEKO PANDOLFI, GISELLE GARCIA ORIGO OKADA, DAIANE LOPES GRISANTE, LEIDE IRISLAYNE MACENA ARAUJO, MATHEUS SCHMIDT GOMES DE OLIVEIRA