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O envelhecimento populacional brasileiro, decorrente da redução da fecundidade e do aumento da expectativa de vida [1,2,3], tem modificado o perfil epidemiológico, com maior prevalência de doenças crônicas e dependência funcional [1]. Em Paulínia, município de crescimento acelerado, esse processo ocorre de forma intensa, ampliando a demanda por reabilitação e cuidado continuado [1,4]. Considerando que o envelhecimento é atravessado por desigualdades de classe, raça e gênero [5], torna-se fundamental fortalecer respostas públicas que assegurem integralidade e equidade no cuidado [6]. No âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), embora haja avanços na organização das Redes de Atenção à Saúde (RAS), persistem fragilidades no pós-alta hospitalar de pessoas com condições crônicas e dependência funcional, muitas vezes restritas à Atenção Básica ou Domiciliar, sem dispositivos intermediários que garantam a continuidade do cuidado e previnam reinternações evitáveis [1,4]. Diante dessa lacuna, foi implantado, em julho de 2025, o Hospital de Cuidados Crônicos Integrados de Paulínia (HCCIP), hospital de transição localizado no primeiro andar do Departamento de Geriatria, na região central do município. A iniciativa envolve equipe multiprofissional da rede municipal e beneficia adultos e idosos em cuidados paliativos ou clinicamente estáveis, mas com necessidade de reabilitação funcional.
Atuar como dispositivo intermediário da RAS, destinado ao atendimento de adultos e idosos clinicamente estáveis, com dependência funcional e necessidade de reabilitação, qualificando a desospitalização por meio de uma etapa assistencial anterior à alta para o domicílio. Garantir a continuidade do cuidado, a recuperação funcional, a adaptação às sequelas decorrentes de processos clínicos, cirúrgicos ou traumatológicos e o suporte à família no processo de readaptação. Assegurar manejo adequado de sintomas aos pacientes em cuidados paliativos no processo de finitude (Portaria nº 3.681/2024), contemplando dimensões físicas, psicossociais e espirituais, além de suporte familiar. Acolher usuários acompanhados pela Atenção Domiciliar que apresentem agravamento do quadro clínico, prevenindo reinternações evitáveis e a ocupação inadequada de leitos destinados às condições agudas. Com isso, ampliam-se a rotatividade dos leitos hospitalares de maior complexidade e reduzem-se os gastos públicos.
O HCCIP é uma unidade da Rede Municipal de Saúde, estruturada como dispositivo da RAS. Dispõe de 18 quartos e duas retaguardas, com capacidade instalada de 50 leitos, sendo 40 operacionais, além de ambientes de convivência voltados à promoção da autonomia. A assistência é prestada por equipe multiprofissional composta por médicos, equipe de enfermagem, fisioterapeutas, terapeuta ocupacional, fonoaudiólogo, nutricionista, assistente social, psicólogo e equipes de apoio. O acesso ocorre principalmente por encaminhamentos do Hospital Municipal de Paulínia, após estabilização clínica, visando qualificar a desospitalização. Também são admitidos usuários referenciados pela Atenção Básica ou Domiciliar, identificados com piora funcional progressiva e risco de internação evitável. Todos os pacientes passam por avaliação clínica e funcional integral e elaboração do Plano Terapêutico Singular. As ações incluem atendimentos multiprofissionais, reabilitação funcional intensiva, com permanência de até 90 dias, preparo familiar para o cuidado domiciliar em casos de sequelas irreversíveis e acolhimento em cuidados paliativos, com manejo de sintomas. O HCCIP conta ainda com um Grupo de Pele, responsável pela avaliação sistemática da integridade cutânea e pela aplicação de protocolos de prevenção e tratamento de feridas, e com um Grupo de Cuidados Paliativos, voltado ao acolhimento de pacientes e familiares e à promoção de uma finitude digna.
Entre julho de 2025 e janeiro de 2026, foram admitidos 48 pacientes no HCCIP, sendo 30 do sexo masculino e 18 do sexo feminino, com predomínio de idosos, especialmente na faixa etária de 70 a 79 anos (15 pacientes). Desse total, 23 foram encaminhados para reabilitação funcional e 25 para cuidados paliativos. Os usuários apresentavam multimorbidades e histórico recente de eventos agudos, como acidente vascular cerebral, traumatismo cranioencefálico, politraumatismos, polineuromiopatias, doenças respiratórias crônicas e fraturas de membros inferiores, demandando acompanhamento contínuo. No grupo admitido para reabilitação funcional, a maioria apresentava dependência total para as atividades básicas da vida diária na admissão, segundo a Escala Modificada de Barthel, evoluindo, na alta, para predomínio de dependência moderada ou leve. A média de permanência foi de 32 dias, excluindo-se os pacientes ainda internados no período analisado. Em relação aos desfechos assistenciais, dos 23 pacientes em reabilitação funcional, 13 receberam alta para o domicílio, 3 para instituições de longa permanência para idosos, 4 retornaram ao Hospital Municipal de Paulínia, 1 evadiu e 2 permaneciam em acompanhamento no HCCIP. Entre os 25 pacientes em cuidados paliativos, 8 tiveram alta para o domicílio, 3 retornaram ao hospital municipal, 8 evoluíram para óbito e 6 permaneceram internados no serviço.
A experiência do HCCIP demonstrou impacto positivo na organização da RAS ao qualificar a desospitalização e assegurar a continuidade do cuidado. Durante seu funcionamento, usuários com histórico de internações frequentes em hospital de condições agudas não apresentaram novas reinternações após a alta, evidenciando potencial para a redução de hospitalizações evitáveis. Pessoas em cuidados paliativos, anteriormente recorrentes ao pronto atendimento para controle de sintomas, passaram a receber acompanhamento contínuo e humanizado, com garantia de finitude digna, diminuição do desgaste familiar e liberação de leitos voltados à atenção aguda. Pacientes com perda de autonomia decorrente de cirurgias, complicações clínicas ou longos períodos de internação foram submetidos à reabilitação funcional intensiva, possibilitando alta domiciliar mais segura. Nos casos de comprometimentos físicos e intelectuais irreversíveis, o serviço viabilizou o preparo e a readequação das famílias para o cuidado no domicílio, fortalecendo a integralidade da atenção e reafirmando o HCCIP como estratégia resolutiva do Sistema Único de Saúde municipal frente ao envelhecimento populacional.
Envelhecimento, Desospitalização
ADRIANA BREVES DOS SANTOS, ELTON JUNIOR NUNES DE ARAÚJO ALVES, MARCELA ADRIANE DE DEUS, ROGÉRIO DA CRUZ PEREIRA, RITA DE CÁSSIA FERREIRA