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Infelizmente as pessoas trans sofrem diversos preconceitos, estigmas e formas de discriminação, e estão mais expostas à situações de exclusão social e afastamento dos serviços de saúde, seja pelo não acesso, bem como pelo não acolhimento qualificado profissional, que respeite e sobretudo, valide as suas identidades e demandas. É fundamental a discussão e reflexão sobre a saúde dos indivíduos que estão envelhecendo, o cuidado e identificação precoce a fatores e ações individuais e coletivas para o enfrentamento das doenças crônicas não-transmissíveis, visto serem o grupo que mais demandará cuidados integrais de prevenção e de promoção à saúde, sobretudo, considerando que o envelhecimento humano é um direito personalíssimo e sua proteção um direito social a todos previsto no Estatuto do Idoso (2003), e vivenciado de forma heterogênea enquanto fenômeno biopsicossocial que engloba aspectos biológicos, sociais, psíquicos, culturais, econômicos e familiares. Ademais, estudos em nosso país apontam que a população trans e travesti morre sem alcançar o direito à velhice digna. Dessa forma, objetivamos criar um ambulatório de promoção à saúde integral das pessoas trans a partir de 40 anos, para proporcionar o cuidado coordenado e longitudinal enquanto Atenção Primária à Saúde, que possa abranger as especificidades e atenção ao processo de envelhecimento de forma contínua.
• Ter uma visão integral e interdisciplinar para as necessidades em saúde das pessoas trans 40+; • Garantir um espaço seguro e acolhedor para que pessoas trans possam acessar e promover a saúde; • Realizar ações de promoção e prevenção da saúde; • Integrar a Rede de Atenção à Saúde Integral de Pessoas Travestis e Transexuais – Rede SAMPA Trans no município de São Paulo; • Atuar de forma intersetorial com a participação de reuniões em rede, fóruns e eventos que fortaleçam acesso da população trans e travestis as demais políticas públicas para o cuidado integral; • Ser um polo de formação profissional qualificada para atendimento à população trans e travestis que envelhece enquanto um Centro de Saúde Escola. • Buscar lacunas do conhecimento nas diversas áreas do saber para a realização de pesquisas científicas sobre o tema do envelhecimento e saúde de pessoas trans;
A estratégia partiu de reuniões multidisciplinares envolvendo medicina, serviço social, nutrição, psicologia, fonoaudiologia, além da gestão da unidade, para que as pessoas trans recebessem um olhar integral em sua saúde. A partir da implantação do serviço foram oferecidas consultas humanizadas, além da criação de dois novos grupos na unidade, um de acolhimento para discussão de vivências e experiências das pessoas trans e outro sobre sexualidade e envelhecimento, para troca de relatos e quebra de tabus e paradigmas relacionados a esses temas, sendo ambos grupos mensais. O local de realização das atividades foram consultórios do Centro de Saúde Escola Geraldo de Paula Souza, além de salas e o próprio jardim da Faculdade de Saúde Pública da USP para alguns grupos e rodas de conversas. As pessoas atendidas por nós chegaram por demanda espontânea, após ampla divulgação no território e em redes sociais, além de encaminhamentos realizados por serviços como o Centro de Cidadania LGBT+ da Lapa ou o Centro de Referência em atendimento a pessoas trans (Janaína Lima). Em especial, para as consultas médicas com geriatra foi confeccionado um modelo de prontuário humanizado, objetivando a realização de perguntas adequadas e que respeitassem a identidade do usuário. Por fim, ao longo de toda a implantação do projeto foram realizadas reuniões de capacitação da toda a equipe da unidade de saúde, para que nenhuma pessoa fosse discriminada nos ambientes internos do centro de saúde.
Entre março e dezembro de 2023 tivemos experiências que mostraram a importância de nosso trabalho. De maneira quantitativa foram 48 atendimentos pela equipe da medicina, 31 pelo serviço social, 15 pela fonoaudiologia, 2 pela nutrição, além da participação desses novos usuários aos grupos existentes de práticas integrativas e às consultas de enfermagem da unidade. Também tivemos uma participação mensal dos novos usuários e de outras pessoas que já frequentavam o Centro de Saúde Escola e a URSI na roda de conversa sobre sexualidade e envelhecimento e no grupo de acolhimento de pessoas trans. Além disso, no dia 28/06/23 realizamos uma ação em parceria com o Centro de Cidadania Cláudia Wonder e UBS Vila Ipojuca para educação sobre velhices trans e conscientização sobre estratégias de promoção à saúde e envelhecimento ativo. Tivemos exemplos ilustrativos da falta de acesso ao longo da vida, com casos de diagnóstico de doenças crônicas não transmissíveis como hipertensão arterial e diabetes mellitus, as quais tiveram pronto reconhecimento e abordagem biopsicossocial pela equipe multiprofissional. Além disso, a questão da saúde mental foi um aspecto relevante em nossa atuação, com usuáries relatando condições como depressão, ansiedade, entre outras queixas. Ademais, infelizmente houve um caso de suicídio de uma mulher trans que estava sendo acompanhada por nós, o que mobilizou nossa equipe para continuar nessa frente de trabalho por busca de cidadania e pertencimento.
O fato de ainda não estarmos inseridos na Rede Sampa trans trouxe alguns desafios, visto que isso trouxe impactos de acesso para usuáries que desejaram iniciar hormonização, necessidade de deslocamento para outras unidades para receber medicações, duplicidade de acompanhamento, fatos que somados culminaram com a necessidade enfrentada por algumas usuáries de compra das referidas medicações. No contexto do Centro de Saúde Escola Geraldo de Paula Souza, por se caracterizar como uma Unidade-escola que recebe estágios de diferentes universidades, graduações e residências de medicina e multiprofissionais, observamos diversos ganhos. Estagiários, residentes e alunos de instituições diversas puderam acompanhar nossas atividades. Tais fatos reforçam nosso papel de ensino dentro do SUS, para que modelos de atendimento como o nosso sejam replicados em outras unidades. E por fim, a perspectiva de pesquisa científica também tem sido elaborada dentro de nosso escopo, com pessoas de diferentes cursos nos procurando para produção de conhecimento científico sobre o processo de envelhecimento de pessoas trans.
pessoas trans, envelhecimento, sexualidade
Milton Roberto Furst Crenitte, Caroline Conceição Borges da Silva, Gustavo Miranda Feitosa, Sandra Simões, Cirley Novais Valente Júnior, Flávia Horta Hungria, Ana Lucia Lumazini de Moraes, Sônia Volpi Guimarães Brolio