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A superlotação dos serviços de urgência e emergência constitui um dos principais desafios do Sistema Único de Saúde (SUS), impactando diretamente a segurança do paciente, a qualidade assistencial e as condições de trabalho das equipes de saúde. Nesse contexto, a gestão eficiente do fluxo assistencial torna-se estratégica para garantir acesso oportuno e cuidado resolutivo. A experiência relatada foi desenvolvida no Pronto-Socorro Adulto do Hospital Municipal de Americana, localizado no município de Americana, estado de São Paulo, unidade que realiza, em média, 7.400 atendimentos/mês. Em novembro de 2024, o hospital iniciou sua participação no Projeto Lean nas Emergências, uma iniciativa do Ministério da Saúde no âmbito do PROADI-SUS, com o objetivo de qualificar os processos assistenciais e administrativos. Como uma das ações estruturantes do projeto, foi implantado o modelo de Fast Track em abril de 2025, permanecendo em funcionamento até os dias atuais. A iniciativa teve como foco principal a redução do tempo porta-médico, a diminuição do tempo de permanência do paciente no pronto-socorro e o enfrentamento da superlotação, promovendo maior fluidez no atendimento e melhor experiência para usuários e profissionais. Participaram da experiência a Secretaria Municipal de Saúde, os serviços de Enfermagem, Corpo Clínico, Atendimento, Tecnologia da Informação, Qualidade e Diretoria da unidade. E beneficiou uma população estimada em mais de 246.655 munícipes.
Implantar o modelo de Fast Track no Pronto-Socorro Adulto com a finalidade de reduzir o tempo de atendimento dos pacientes, especialmente o tempo porta-médico, garantindo maior agilidade no fluxo assistencial sem prejuízo da qualidade e da segurança do cuidado. Adicionalmente, buscou-se melhorar a experiência do paciente ao longo de sua jornada no serviço de urgência, elevar os níveis de satisfação de usuários, acompanhantes e colaboradores, aprimorar a ambiência para os profissionais de saúde, revisar e padronizar fluxos assistenciais e fortalecer a cultura de melhoria contínua dos processos.
A experiência foi desenvolvida no contexto do Projeto Lean nas Emergências, conduzido por consultores do Hospital Sírio-Libanês, no âmbito do PROADI-SUS. Inicialmente, realizou-se o mapeamento detalhado do fluxo do Pronto-Socorro Adulto por meio da ferramenta denominada “diagrama de espaguete”, possibilitando a visualização dos trajetos percorridos pelos pacientes conforme sua classificação de risco. A partir da análise do fluxo e da identificação de gargalos e desperdícios, foi proposta a revisão do layout físico e dos processos de atendimento, culminando na implantação do Fast Track, modelo destinado ao atendimento de pacientes de baixa complexidade. O Fast Track foi estruturado com consultório específico, médico responsável dedicado, definição clara dos fluxos e das áreas destinadas a espera conforme a classificação de risco. Foram realizadas adequações no layout do pronto-socorro com a definição de uma sala e equipe dedicada para medicação rápida próxima ao consultório do Fast Track, demarcação de área para espera de realização de exames e outra área para espera de seus resultados, ajuste da escala médica com maior concentração de profissionais nos horários de pico, contratação de fluxistas para apoio à orientação dos pacientes, aprimoramento do sistema informatizado para monitoramento dos tempos assistenciais e capacitação contínua da equipe médica e multiprofissional.
Após a implantação do Fast Track, observou-se redução significativa nos principais indicadores assistenciais. O tempo porta-médico apresentou redução de 47%, passando de 99 minutos, em março de 2025 (período pré-implantação), para 52 minutos em dezembro de 2025, oito meses após a implantação. O tempo total de permanência dos pacientes com alta do pronto-socorro, que não necessitaram de internação, foi reduzido em 14%, passando de 289 minutos em março de 2025 para 249 minutos em dezembro de 2025. Em relação à satisfação dos usuários, houve aumento expressivo de 47% no percentual de pacientes que indicariam o Pronto-Socorro Adulto, elevando-se de 59% em março de 2025 para 87% em novembro de 2025. De forma qualitativa, observou-se melhora significativa na organização visual da sala de espera, maior clareza nos fluxos para os pacientes, redução das manifestações registradas na ouvidoria, além de melhoria na ambiência e nas condições de trabalho para os profissionais de saúde.
A implantação do Fast Track, associada aos princípios da metodologia Lean, promoveu melhorias relevantes nos processos assistenciais e administrativos, contribuindo para o enfrentamento da superlotação e para a qualificação do cuidado no Pronto-Socorro Adulto. Os resultados alcançados evidenciam que o redesenho dos fluxos, aliado ao envolvimento das equipes e à eliminação de desperdícios, possibilitou a redução dos tempos de espera, a otimização do uso dos recursos e a oferta de um atendimento mais ágil, seguro e humanizado. Mais do que mudanças operacionais, o projeto favoreceu uma transformação cultural, fortalecendo o trabalho em equipe e a mentalidade de melhoria contínua. Como perspectiva futura, espera-se a consolidação do modelo e sua ampliação para outros fluxos assistenciais, contribuindo de forma sustentável para a excelência do cuidado.
Fast Track, Gestão de Fluxo, Pronto-Socorro, Lean
CAIO SEABRA VIEIRA, DANILO CARVALHO OLIVEIRA, ELOISA CARVALHO DUZZI, FÁBIO CORREIA BARTOLOMEU JONER, JULIANA TOSO CHAGAS CANTELLI, LILIAN FRANCO DE GODOI DOS SANTOS, LUANA COSTA SOARES GUEZI, MARCELLA POZETTI, MARCELO AMARO CÉSAR, RUY VICENTE DOS SANTOS, SARAH ALVES GUIMARÃES, VICENTE DE PAIVA NETO