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A Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) emerge como um pilar fundamental para a reestruturação do cuidado em saúde mental no Brasil, promovendo a transição de um modelo centrado na internação para uma abordagem integral e comunitária. Em Barretos, a necessidade de uma rede articulada tornou-se evidente. A história local do cuidado em saúde mental remonta à década de 1980, com a criação do Ambulatório de Saúde Mental (ainda sob o antigo INAMPS), que ofertava atendimentos de psiquiatria e psicologia. Com a implantação do SUS e a subsequente regionalização da saúde, o Ambulatório consolidou-se e ampliou sua capacidade. Em 2004, o município inaugurou o CAPS I, expandido para CAPS III em 2008, optando por manter ambos os serviços até o presente. Contudo, apesar da instituição da RAPS pela Portaria 3.088/2011, o trabalho em rede efetivo era incipiente no cenário local. A situação crítica foi agravada pela pandemia de COVID-19 em 2020 e 2021, que provocou um aumento exponencial nos encaminhamentos para as especialidades de psicologia e psiquiatria. Em junho de 2021, o Ambulatório de Saúde Mental contabilizava 2.436 encaminhamentos oriundos da atenção primária (referente ao período de janeiro de 2019 a junho de 2021). Esse volume, somado à dificuldade de identificar a complexidade dos casos e direcioná-los ao equipamento mais adequado, expôs a fragilidade da articulação existente. Diante desse cenário, a equipe responsável pela saúde mental iniciou um processo de implementação da RAPS.
Este trabalho tem como objetivo apresentar e analisar criticamente as estratégias implementadas para integrar e qualificar os diferentes pontos de atenção da RAPS, com foco na otimização dos fluxos assistenciais, na ampliação do acesso equitativo e na garantia da continuidade do cuidado. Busca-se evidenciar os processos de articulação intersetorial e de fortalecimento da rede, destacando os desafios enfrentados, os avanços consolidados e as principais dificuldades ainda presentes. Por fim, serão discutidas as perspectivas futuras para o aprimoramento do cuidado psicossocial no município, reafirmando o compromisso com uma rede integrada, resolutiva e sensível às necessidades da população
A metodologia fundamenta-se na organização dos fluxos de trabalho da RAPS a partir da articulação entre os diferentes pontos de atenção. Na Atenção Primária à Saúde (APS), as equipes realizam acolhimento, escuta qualificada, estratificação de risco e manejo inicial dos casos leves e moderados, com construção de Projeto Terapêutico Singular (PTS) quando necessário. Casos que demandem maior complexidade são encaminhados, por fluxo pactuado, ao Ambulatório de Saúde Mental ou ao CAPS III, garantindo referência e contrarreferência sistemática. O matriciamento em saúde mental estrutura-se por meio de reuniões periódicas entre APS, ambulatório e CAPS III, promovendo discussão de casos, educação permanente e corresponsabilização pelo cuidado, além de consultas compatilhadas com os médicos da APS. Dois psiquiatras do Ambulatório de Saúde Mental realizam 48 consultas compartilhadas por mês. Na Rede de Urgência e Emergência, define-se protocolo para manejo de crises, com articulação entre UPA, SAMU, hospital geral (Santa Casa de Barretos) e CAPS III, priorizando acolhimento humanizado e evitando internações. O monitoramento contínuo dos fluxos ocorre por meio de indicadores assistenciais e reuniões de avaliação, assegurando integração, continuidade do cuidado e acesso oportuno.
Os resultados demonstram a efetividade das estratégias de integração e qualificação da RAPS, otimizando fluxos assistenciais e garantindo a continuidade do cuidado. Registrou-se 4.183 encaminhamentos totais na RAPS (APS e especializada), refletindo a ampliação do acesso equitativo e a capilaridade da rede: 2.823 para RAPS Adulto/Idoso (67,5%), 920 para RAPS Infantil (22,0%) e 431 para RAPS Álcool e Drogas (10,5%). Esses números confirmam uma resposta abrangente às necessidades populacionais. Para o fortalecimento da atenção primária e a qualificação do cuidado, 867 matriciamentos em psiquiatria e 37 multidisciplinares foram cruciais. Adicionalmente, 6.517 atendimentos de psicólogo clínico na modalidade interconsulta na APS sublinham o engajamento e a capacidade da atenção primária em acolher e manejar casos de saúde mental, reduzindo encaminhamentos desnecessários. Esses dados atestam a articulação intersetorial e a consolidação de avanços na saúde mental, refletindo o sucesso das ações do grupo gestor, matriciamento e educação permanente. Um desafio enfrentado na APS em relação ao matriciamento, apesar do reconhecimento de sua importância, diz respeito à sobrecarga de trabalho e as múltiplas demandas diárias que em alguns momentos dificultaram a liberação regular e engajada dos profissionais. A superação dessas dificuldades é uma perspectiva futura para aprimorar ainda mais o cuidado psicossocial no município.
As análises conduzidas confirmam a robustez das estratégias implementadas para integrar e qualificar a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS). Houve notável otimização dos fluxos assistenciais e garantia da continuidade do cuidado, validando os objetivos propostos. A ampliação do acesso equitativo é inegável, evidenciada pelos mais de 4.180 encaminhamentos na RAPS, demonstrando sua capilaridade e abrangência (RAPS Adulto/Idoso, Infantil, Álcool e Drogas). O fortalecimento da Atenção Primária à Saúde (APS) foi um pilar, os dados são prova da articulação intersetorial e dos avanços na resposta às necessidades de saúde mental, resultado do esforço conjunto do grupo gestor, matriciamento e educação permanente. Contudo, a jornada não foi isenta de obstáculos. A descontinuidade na participação dos profissionais da APS nas atividades de matriciamento, decorrente da sobrecarga de trabalho e da dificuldade em assegurar tempo protegido, emergiu como um desafio persistente. Assim, embora o trabalho celebre conquistas significativas na construção de uma RAPS mais coesa e responsiva, reconhece que a superação de tais dificuldades é crucial para consolidar e expandir um cuidado psicossocial cada vez mais integrado e eficaz no município.
matriciamento, RAPS
CAMILA FERREIRA DE AVILA, MARINA SOUZA FRANCISCO NOGUEIRA, GREICE DANIELE RIBEIRO, FLAVIO MARTINS SHIMOMURA