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A inclusão produtiva tem sido cada vez mais reconhecida como uma estratégia eficaz para promover a reabilitação psicossocial, especialmente para pessoas em situação de vulnerabilidade. Quando falamos sobre o público LGBTQIAP+, a inclusão social pela via do trabalho mostra-se capaz de reduzir os impactos negativos da exclusão social e melhorar a qualidade de vida de indivíduos que enfrentam dificuldades para se inserir no mercado de trabalho. No caso de pessoas trans, essa inclusão é ainda mais desafiadora, uma vez que a discriminação, o estigma e a falta de oportunidades de trabalho formal aumentam as barreiras para a reinserção social. O presente trabalho apresenta uma experiência realizada na Oficina de Silk (serigrafia), parte da Rede Colmeia de Jundiaí, com o objetivo de explorar como a geração de renda pode impactar positivamente a saúde mental e o processo de cuidado de indivíduos em contexto de vulnerabilidade social, de modo a contribuir para a redução dos impactos da desigualdade socioeconômica e para a promoção de novos lugares sociais. A partir de um relato de experiência de uma profissional atuante na Unidade de Acolhimento Adulto (UAA) e na Oficina de Silk, será discutido o impacto de atividades produtivas na vida de uma moradora trans, bem como os benefícios que essa abordagem trouxe para sua autoestima, para o seu processo de reinserção social e para o seu estado emocional.
Este trabalho tem como objetivo analisar o impacto da inclusão produtiva, por meio da geração de renda, na saúde mental e no processo de reabilitação psicossocial de indivíduos em situação de vulnerabilidade, com ênfase no público LGBTQIAP+. Através de uma experiência vivida em uma oficina de silk, será explorado como o trabalho, aliado ao cuidado humanizado e à promoção da autonomia, podem contribuir para o fortalecimento da autoestima, a reinserção social e a superação de dificuldades emocionais e sociais, promovendo uma mudança significativa na vida do sujeito.
Baseia-se em um relato de experiência de uma profissional atuante na UAA sobre a inserção de uma mulher trans na Oficina de Silk, da qual também faz parte. Essa iniciativa inscreve-se como uma oficina de geração de renda de serigrafia, integrando a Rede Colmeia (Rede Intersetorial de iniciativas de geração de renda) de Jundiaí. Teve seu funcionamento iniciado em 2023 e segue acontecendo semanalmente. Tem como objetivo, além de gerar renda para os participantes, ressignificar a relação com o trabalho, entendendo que o trabalho é parte importante para a reabilitação psicossocial. Além disso, a oficina visa ampliar o repertório profissional dos oficineiros, dando lugar ao protagonismo deles na criação e produção das estampas. Também tem como objetivo colocar em prática habilidades de negociação e contratualidade dos participantes. A experiência relatada foi acompanhada de perto, com ênfase nas etapas de desenvolvimento da atividade, observação dos comportamentos e coleta de relatos da própria moradora ao longo do processo. O acompanhamento incluiu a análise de seu desempenho na oficina, sua interação com os demais participantes, a avaliação de aspectos concretos (como a organização da rotina, a assiduidade na oficina, apropriação de diversas etapas do processo de produção e venda de produtos) e subjetivos (como aumento da autoestima, impacto no cuidado da saúde mental, fortalecimento da relação familiar e criação de novas perspectivas para o projeto de vida).
No momento de sua chegada à UAA, a moradora referia constantes ideações suicidas e autolesões, histórico de recorrentes agravos clínicos devido ao uso de opióides, rede de apoio fragilizada e relatos de que na sua experiência, não havia espaço para um corpo trans na sociedade. A partir disso, foram realizados diversos momentos de escuta, acompanhamento terapêutico em espaços de interesse e promovidas estratégias de autocuidado. Nesse processo, ela restabeleceu vínculos com seu pai e com a família paterna, concluiu um curso em Redução de Danos, passou a ocupar novos espaços no território e, principalmente, a se olhar com mais afeto. Criou vínculos importantes com os moradores e equipe, experimentou mudanças significativas em seu processo de convivência, colocando sobre seus limites na relação com o outro e a lutar por seu espaço de fala. No entanto, persistia uma grande dificuldade em relação à inserção no mercado de trabalho, agravada pelo estigma de ser mulher trans. Ela também enfrentava dificuldades em lidar com a ansiedade e em buscar formas de prazer que não envolvessem o uso de drogas. Com base em seu talento para customização, pensamos em sua inserção na Oficina de Silk, onde permanece há três meses. Desde então, ela tem participado ativamente da atividade, com diminuição significativa das ideações suicidas, além de, atualmente, também comercializar seus doces caseiros. Esse novo projeto ajudou-a a se desenvolver na apresentação pessoal e venda de forma mais autônoma.
A geração de renda e o cuidado humanizado se mostram intrínsecas ao projeto de vida de qualquer indivíduo, impactando na saúde mental e no processo de reabilitação psicossocial de indivíduos em situação de vulnerabilidade, especialmente para pessoas trans. A Oficina de Silk proporcionou um ambiente de acolhimento, aprendizado e desenvolvimento pessoal que, além de gerar uma fonte de renda, possibilitou a melhoria da autoestima e a reinserção social da usuária. A oficina proporcionou à moradora um novo espaço relacional, no qual pôde utilizar sua criatividade, expandir seus conhecimentos, assumir um compromisso com o trabalho e, a partir do desenvolvimento da atividade, receber uma remuneração justa, de produção coletiva e solidária. É fundamental que políticas públicas e Serviços de saúde mental continuem a fortalecer a inclusão produtiva dentre suas estratégias de reabilitação psicossocial, visando a transformação das condições sociais e atenuando as desigualdades socioeconômicas que influenciam diretamente no cuidado em saúde mental.
Saúde mental, reabilitação, economia solidária
SARAH CHRISTIANE BRAVO, THAIS DAINEZ SOUZA, ADRIANA CARVALHO PINTO