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Com a implementação do Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) no município em agosto de 2023, este passou a ser o serviço de referência para pacientes com transtornos mentais. No entanto, essa transição não ocorreu de forma estruturada e gradual, resultando em uma desarticulação entre os serviços de atenção básica e secundária. Essa situação foi marcada por um modelo de atendimento que prioriza a abordagem individual, desconsiderando a classificação de risco e a continuidade do cuidado para pacientes em acompanhamento psicológico e psiquiátrico. Até a instalação do CAPS, a maioria dos atendimentos estava concentrada em serviços ambulatoriais, com a participação limitada das Estratégias de Saúde da Família. A descontinuidade e fragmentação do cuidado em saúde mental, aliadas à escassez de profissionais especializados, resultaram em longas filas de espera para atendimento ambulatorial, que chegaram a atingir até 8 meses. Essa realidade comprometeu a efetividade dos tratamentos, gerou um desconhecimento sobre o perfil da população atendida e seu nível de risco, além de provocar angústia entre os profissionais envolvidos no cuidado. Diante desse cenário, tornou-se imprescindível um aprofundamento no conhecimento sobre os equipamentos disponíveis no município e uma caracterização mais precisa dos pacientes atendidos. Somente assim será possível integrar o trabalho do CAPS com os demais serviços da rede de saúde, promovendo uma abordagem mais coesa e eficaz no atendimento à saúde.
– Identificar e descrever os equipamentos que oferecem serviços de saúde mental na rede; – Analisar as características da população atendida; – Avaliar e classificar os níveis de risco em saúde mental; – Estabelecer um fluxo de atendimento em saúde mental; – Fomentar um maior diálogo e integração entre o Centro de Atenção Psicossocial, o ambulatório municipal especializado (Centro de Especialidades) e as Estratégias de Saúde da Família; – Capacitar a rede de atenção básica e os profissionais que não atuam na área de saúde mental para o cuidado adequado desses pacientes.
O município implementou uma estratégia colaborativa com a universidade local (UNOESTE) e estagiários para melhorar a caracterização dos equipamentos e da população. O trabalho foi dividido em três frentes principais: entender o estado atual do cuidado e das equipes, estratificar o risco e promover o diálogo entre os serviços. Iniciando pelo ambulatório especializado, foram realizadas entrevistas semiestruturadas com as equipes de Saúde da Família (ESFs) para avaliar a abordagem ao paciente de saúde mental e a interação com o CAPS. Em seguida, um questionário de classificação de risco foi desenvolvido para ser aplicado na atenção básica. Por fim, reuniões de rede foram organizadas com a coordenação da atenção básica, o serviço de psicologia e membros do CAPS, visando estabelecer um fluxo de saúde mental e cronogramas de reuniões. Essa abordagem integrada busca aprimorar o cuidado e a colaboração entre os serviços de saúde mental no município, com cronogramas e planejamento bem definidos.
As entrevistas com as equipes da Estratégia de Saúde da Família (ESF) revelaram uma alta demanda por cuidados em saúde mental e a preocupação dos profissionais em atender a essa necessidade, mesmo sem recursos adequados. Em resposta a essa realidade, discutida em reuniões com a gestão, foram contratados dois novos profissionais, garantindo que todas as ESFs contassem com um especialista em saúde mental, com funções claramente definidas. A introdução de um questionário de estratificação foi bem aceita pela equipe, permitindo uma melhor organização das demandas e a classificação dos pacientes em três níveis de risco. Pacientes de baixo risco receberiam acompanhamento, predominantemente em grupos e de forma comunitária, na ESF de referência; aqueles com risco médio teriam atendimento individual e ambulatorial no Centro de Especialidades; e os pacientes com condições crônicas e graves seriam acompanhados pelo Centro de Atenção Psicossocial (CAPS). Reuniões semanais e mensais foram agendadas para discutir casos e facilitar a transição dos pacientes entre os serviços, assegurando um cuidado integral e contínuo. Como resultado, o tempo de espera na fila ambulatorial foi reduzido para cerca de quatro meses. Para 2025, estão programados grupos terapêuticos e atendimentos individuais nas ESFs, além da capacitação dos médicos das ESFs em colaboração com psiquiatras do município, visando aprimorar a qualidade do atendimento em saúde mental.
Durante a realização deste trabalho, ainda em andamento, evidenciou-se a importância do diálogo contínuo entre as equipes de diferentes equipamentos de saúde e a gestão, com foco em estratégias que atendam às necessidades dos usuários e considerem a realidade local. O espaço para o compartilhamento das angústias das equipes revelou-se um potente instrumento de transformação, promovendo a implicação de todos os componentes da rede de saúde e da gestão em todos os níveis, essencial para a implementação do novo fluxo de atendimento e da estratificação de risco. Além disso, observou-se uma mudança significativa no discurso da população em relação aos serviços de saúde mental do município, refletindo uma diminuição do estigma associado ao cuidado nessa área. Essa transformação é crucial para favorecer a busca por atendimento e a adesão ao tratamento. A capacitação das equipes também se mostrou essencial, uma vez que os profissionais demonstraram interesse e questionamentos sobre o serviço de saúde mental durante a elaboração dos Planos Terapêuticos Singulares. Isso sinaliza a necessidade de formação contínua sobre saúde mental, fundamental para garantir um atendimento de qualidade e promover a integralidade do cuidado.
Saúde mental, ESF, dialogo intersetorial, gestão
FERNANDO ALCANTUD SOUZA