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A organização do cuidado em saúde mental infantojuvenil no SUS exige integração entre Atenção Básica, especialidades médicas e Rede de Atenção Psicossocial (RAPS). No município de Diadema, observava-se aumento de encaminhamentos ao CAPS IJ para avaliação de transtornos do neurodesenvolvimento e quadros comportamentais complexos, muitos sem discussão prévia na rede, gerando sobrecarga, fragmentação do cuidado e insegurança clínica. Diante desse cenário, em fevereiro de 2025 foi estruturado matriciamento online semanal entre CAPS IJ e neuropediatria. Participam psiquiatra, equipe multiprofissional do CAPS IJ e neuropediatra, em espaço horizontal de discussão clínica. A estratégia reorganiza fluxos, qualifica hipóteses diagnósticas e fortalece a resolutividade territorial. A experiência beneficia crianças e adolescentes acompanhados no CAPS IJ e na Atenção Básica, além de fortalecer tecnicamente as equipes da rede municipal, consolidando o SUS como sistema integrado e coordenado.
Descrever a implantação do matriciamento semanal entre CAPS IJ e neuropediatria e seus impactos organizacionais e clínicos; fortalecer o cuidado compartilhado e interdisciplinar; qualificar hipóteses diagnósticas em saúde mental infantojuvenil; reduzir encaminhamentos desnecessários e medicalização precoce; evidenciar o papel do CAPS IJ na coordenação do cuidado e na articulação ágil da rede assistencial diante de casos complexos.
A experiência consiste em reuniões online semanais, com duração média de uma hora, estruturadas em apresentação sintética do caso, discussão interdisciplinar, alinhamento de hipóteses diagnósticas, definição de condutas e pactuação de responsabilidades. O espaço funciona como apoio matricial e formação em serviço, abordando manejo clínico, transtornos do neurodesenvolvimento, sofrimento psíquico e critérios de encaminhamento. Como resultado dessa estratégia, um caso de adolescente de 13 anos, acompanhado no CAPS IJ por mudança abrupta de comportamento e refratariedade ao manejo inicial, foi discutido no matriciamento. Durante a análise compartilhada, levantou-se hipótese de encefalite autoimune. A partir dessa ampliação diagnóstica, o CAPS IJ articulou imediatamente a rede de urgência, encaminhando o usuário à UPA com qualificação técnica da suspeita. O caso foi inserido no CROSS e transferido para hospital de referência para investigação especializada.
A implantação do matriciamento produziu impactos organizacionais e clínicos. Observou-se qualificação dos encaminhamentos, maior clareza nos critérios de referência e contrarreferência e alinhamento de condutas entre saúde mental e neuropediatria. O caso relatado evidencia impacto clínico direto da estratégia: a ampliação da hipótese diagnóstica permitiu encaminhamento ágil à rede de urgência, reduzindo risco de atraso diagnóstico e possíveis desfechos graves. O matriciamento mostrou-se dispositivo pedagógico-clínico permanente, fortalecendo o raciocínio interdisciplinar, evitando medicalização inadequada e organizando de forma mais racional a fila do serviço especializado.
A experiência demonstra que o matriciamento estruturado entre CAPS IJ e neuropediatria é ferramenta estratégica para reorganização da rede municipal de saúde mental infantojuvenil. A integração neuropsicossocial ampliou a leitura clínica, reduziu fragmentações e fortaleceu o papel do CAPS IJ como coordenador do cuidado. O caso apresentado evidencia que o matriciamento pode ser decisivo na identificação de condições clínicas graves em contexto de saúde mental. A iniciativa consolida-se como espaço permanente de formação em serviço, qualificação diagnóstica e gestão do cuidado, com potencial de expansão para outros pontos da rede e monitoramento futuro de indicadores assistenciais.
RAPS, CAPS IJ, Matriciamento, Neuropsicossocial.
CLAUDIA BOER ANNES DA SILVA, TALITA CARVALHO GOMES, KELLY GOMES SANTANA, SILVANA MENEZES DOS REIS