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Os crescentes ataques sofridos nas escolas brasileiras no início de 2023 reacenderam o alerta para questões importantes. O que está acontecendo com os nossos jovens? Qual a melhor estratégia a se adotar para garantir a segurança escolar? Como compreender o que está acontecendo? Como prevenir ou identificar a iminência de outros ataques? Os ataques ocorridos nas escolas é uma questão sociocultural ou de saúde mental? Qual é o papel da Saúde Pública neste cenário?Somente na última semana de março/2023 foram registradas 279 ameaças de ataques no Estado de São Paulo, convocando assim, profissionais, em especial das áreas da saúde e educação para uma atuação engajada e sistêmica. Diante desta realidade preocupante, e para além da comoção momentânea, este trabalho propõe uma reflexão sobre os múltiplos aspectos que permeiam a violência nas escolas, suas motivações que levam jovens a cometer atos de violência contra si e contra seus pares. Em Guarulhos, as UBSs Cavadas e Ponte Grande foram ao encontro das escolas estaduais de seu território (respectivamente EE João Crispiniano Soares e EE Dom Paulo Rolim Loureiro) disponibilizando assistência psicológica/psicanalítica na qual através de uma escuta ativa/ampliada está sendo possível compreender as singularidades, frustrações, fantasias e potencialidades que permeiam a realidade dos sujeitos ali implicados, buscando não apenas desvendar, mas também apontar caminhos para a prevenção e enfrentamento da violência escolar.
Promover, através da parceria entre Unidade Básica de Saúde e Unidade Escolar, o cuidado no território preconizado pela Política Nacional da Atenção Básica; Oferecer atendimento psicológico pautado na escuta qualificada e humanizada no âmbito escolar considerando três pilares essenciais neste contexto: aluno – família – professores; Identificar os sintomas de sofrimentos psíquico e suas possíveis relações com a violência escolar.
O presente trabalho se caracteriza por uma abordagem qualitativa, descritiva e exploratória. A escolha por essa metodologia se justifica pela busca por uma compreensão profunda e contextualizada do fenômeno da violência escolar considerando as diferentes perspectivas dos envolvidos. Entendemos que a violência é resultado de um sinergismo multifatorial e o seu enfrentamento deve ser estratégico e articulado para ser efetivo. Logo, é necessário compreender este fenômeno em seus muitos aspectos para assim intervir. A busca desta compreensão será realizada à luz do método psicanalítico desenvolvido pelo neurologista Sigmund Freud que será referencial teórico e prático para todas as ações desenvolvidas. A metodologia empregada pautou-se no tripé aluno – família – professor, uma vez que, embora estes sujeitos desempenhem funções distintas, estas estão interligadas consciente e inconscientemente. No tocante aos alunos, foram realizadas palestras com temáticas sugeridas pelos mesmos, assim como, atendimento psicológico individual mediante demanda espontânea (atendimento solicitado pelo aluno espontaneamente) e mediante solicitação dos professores. Aos professores foram realizadas palestras temáticas, assim como rodas de conversa sobre questões que permeiam o dia a dia na sala de aula. A abordagem familiar constituiu-se em atendimentos focais e rodas de conversas.
A abordagem pautada nos três pilares, aluno – família – professor, mostrou-se necessária, pois tanto a família quanto a escola são instituições socializadoras que colaboram na formação da identidade da criança/adolescente. As palestras ministradas aos alunos alcançaram mais de 300 jovens até o momento, sendo abordados temas relacionados à adolescência, bullying e outros. Também foram realizados cerca de 50 atendimentos individuais, em sua maioria, por alunos encaminhados pelos professores que identificaram questões emocionais de difícil manejo. Aqui destaca-se de forma muito significativa que cerca de 99% dos alunos atendidos apresentavam dinâmicas familiares conflitivas e vínculos familiares frágeis ou inexistentes. Na escuta realizada aos pais foi observado um cenário comum em que os mesmos demonstraram uma limitada consciência em relação aos acontecimentos, sentimentos e desafios vivenciados pelos seus filhos. Quanto à atuação junto aos docentes e direção escolar foram abordadas temáticas relacionadas à compreensão de dinâmicas emocionais que permeiam a adolescência e o manejo para mediação de conflitos. Fatores como bullying, sofrimento psíquico, fragilidade dos vínculos familiares, acesso irrestrito a armas e a influência das mídias sociais configuram um cenário multifacetado que exige uma resposta abrangente e intersetorial. Contudo, a escuta ativa e acolhedora é fundamental para identificar os sinais de alerta, prevenindo e mitigando a ocorrência de atos violentos.
Não nos cabe fazer aqui julgamentos de qualquer ordem ou assumir um discurso pautado na culpabilidade. No entanto, um caminho possível é reconhecer que da mesma forma que a violência escolar é multifatorial a resolução também o é. Não existe uma fórmula mágica, mas o caminho passa pelo fortalecimento dos vínculos familiares, da formação contínua dos professores, do acolhimento e escuta do sofrimento psíquico destas crianças e adolescentes. Assim a presença do psicólogo/psicanalista no ambiente escolar mostrou-se importante e capaz de ouvir as singulares, acolher a dor e dar voz àquilo que embora não dito está presente no ambiente escolar influenciando (consciente e inconscientemente) as diversas relações estabelecidas nesse âmbito. Ampliando ainda nossa análise para o cenário internacional vemos que países que superaram esses problemas, como é o caso dos países nórdicos, são justamente aqueles que mais investiram em educação, em vez de investirem em vigilância e policiamento. Assim sendo, a experiência e a própria história nos mostram que não basta calar a violência, pois seu retorno será certo e ainda mais devastador. É necessário criar espaços para que ela possa aparecer, ser dita, ser compreendida, elaborada e ressignificada.
Violência escolar, Psicanálise, Atenção Básica
Elisângela Arantes de Souza Moraes, Josué Neves Marin, Daiane Duarte Santos Calabria, Andressa Ethiene do Nascimento Reis, Priscila Fagundes de Souza