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O diabetes mellitus pode ser descrito como uma doença endócrino-metabólica de causas variadas, caracterizada por hiperglicemia crônica, resultante de defeitos na secreção e ação da insulina, cujo diagnóstico e monitoramento é feito através de exames laboratoriais, com base na glicemia em jejum, teste oral de tolerância à glicose (TOTG), hemoglobina glicada (HbA1c), glicosúria, automonitorização da glicemia capilar, dentre outros. Muitos destes exames laboratoriais podem sofrer interferência quando o paciente utiliza medicamentos horas antes dos exames. Os mecanismos envolvidos em alterações dos resultados laboratoriais são caracterizados por dois tipos de interferências: in vivo (biológica) ou in vitro (analítica). As interferências biológicas consistem na alteração da concentração ou da atividade do analito no organismo do paciente antes da coleta da amostra causando falso-positivos ou negativos, como ocorre com o uso de glicocorticoides que por estimulação enzimática aumentam a glicemia, causando erros no diagnóstico e monitoramento da diabetes. Já as analíticas são definidas como o efeito produzido pela presença de uma substância na amostra, que leva à alteração do valor correto do resultado, seja por inibição de anticorpos, efeito redutor do medicamento, formação de complexos, modificação do pH, ação específica sobre enzimas ou proteínas, formação de precipitado, dentre outros. As fontes de interferência podem agrupar-se em interferentes endógenos e exógenos.
O objetivo deste estudo foi realizar um levantamento sobre as interferências de medicamentos em exames laboratoriais, tendo como base a Relação Municipal de Medicamentos Essenciais (REMUME) do município de Barueri, mais especificamente exames de glicemia, glicosúria e HbA1c, a fim de alertar e divulgar esse conhecimento para a população e aos profissionais da saúde envolvidos com o diagnóstico e terapêutica de pacientes diabéticos.
A metodologia utilizada na elaboração deste trabalho foi uma análise de natureza quantitativa e qualitativa. O presente estudo utilizou a última versão da REMUME (2016) do município de Barueri disponibilizada de maneira online no site da Prefeitura.7 A partir da REMUME realizamos uma pesquisa sobre as possíveis interferências causadas por cada medicamento em exames laboratoriais relacionados com o diagnóstico da diabetes mellitus, mais especificamente exame de glicemia em jejum, glicosúria e HbA1c tanto in vivo como in vitro. As bases de dados utilizadas foram Web of Science, Micromedex e Bulário da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA).
A Relação Municipal de Medicamentos (REMUME) é uma lista de medicamento de acesso aberto composta de 136 substâncias dispostas em ordem alfabética para facilitar a pesquisa da população. Apesar de serem muitos e variados, focamos apenas nos medicamentos que causam interferências em exames laboratoriais de glicemia e hemoglobina glicada dos pacientes diabéticos. Foi observado que 39 dos medicamentos da REMUME (28,7%) podem interferir em um ou mais exames laboratoriais relacionados ao diagnóstico e monitoramento da diabetes. Das interferências biológicas os mecanismos envolvidos em sua maioria foram a redução da tolerância à glicose ou inibição da liberação da insulina, provocando o aumento da glicose sanguínea. Já as interferências analíticas costumam ocorrer em sua maioria pelo método enzimático ou método cúprico. Os medicamentos que causam este tipo de interferência na glicemia são os corticoides, a levotiroxina, a furosemida, o captopril, a sinvastatina dentre outros. Já as interferências analíticas são menos relatadas e podem ser definidas como o efeito produzido pela presença de uma substância na amostra que leva à alteração do valor correto do resultado como o metronidazol, a amoxicilina, levodopa e paracetamol.
Os resultados falso-positivos ou falso-negativos traduzem uma interpretação errônea do parâmetro clínico do paciente. Por isso é necessário que o paciente relate todos os medicamentos que faz uso e que o profissional de análises clínicas tome conhecimento e alerte o médico de possíveis interferências. As interferências em exames laboratoriais podem comprometer o tratamento e monitoramento do paciente diabético. O médico e o profissional de análises clínicas assim como o farmacêutico precisam estar cientes de informações sobre os medicamentos que os pacientes fazem uso, e quais deles podem causar interferências, assim, fazer um melhor monitoramento da farmacoterapia. Por fim, através deste estudo concluímos que a maioria das interferências ocorrem por mecanismo fisiológico (in vivo) e que existem interferências desencadeadas por medicamentos que ainda não foram evidenciados, portanto é importante ressaltar a necessidade de novos estudos a fim de atualizar as informações sobre as interferências de medicamentos sobre exames laboratoriais. Para concretizar e colocar em prática este estudo sugere-se a criação de uma cartilha de interferências laboratoriais, que deverá ser disponibilizada de maneira digital ou impressa aos prescritores
Diabetes. Diagnóstico. Interferências biológicas.
ANDREA SANTANA DE BRITO