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Relatar como a experiência da internação involuntária de um paciente em situação de rua e com sofrimento psíquico impacta a equipe do Consultório na Rua (CnR), haja vista a sensibilidade do cuidado baseado em redução de danos e liberdade, pautados na luta antimanicomial e na desinstitucionalização do indivíduo.
Descrever a tratativa e importância da internação involuntária (e não compulsória) para equipes que acreditam e trabalham pelo viés da Redução de Danos e do cuidado em liberdade. Provocar reflexão sobre as angústias e dificuldades enfrentadas frente ao cuidado da pessoa em situação de rua em sofrimento psíquico, entre a equipe e a rede.
Relato de experiência de natureza descritiva e qualitativa que apresentam as ações desenvolvidas pela equipe do CnR de Santo André, relatando o caso de F. que apresenta uma trajetória marcada por desafios por ser um jovem em sofrimento mental, sem moradia, sem identificação, com vínculos familiares rompidos e sem vinculação com o CnR, e também por conquistas significativas alcançadas através do trabalho e continuidade no acolhimento. Foram utilizadas diversas tentativas de vinculação baseadas nas necessidades básicas do paciente, utilizando conhecimentos em Redução de Danos, cuidados psicoterapêuticos e promoção e garantias sociais. Trabalhamos com tecnologias dura, leve-dura e leve, além de priorizar o cuidado de baixa exigência, mantendo o foco no processo, entendendo que este é contínuo, que envolve a construção de novas possibilidades de cuidado, a RAPS, e a participação da sociedade.
Atendemos o usuário periodicamente em um ponto de ônibus sempre com higiene pessoal prejudicada, se colocando em riscos, exposto às intempéries climáticas, se alimentando de lixo. Com a genitália exposta e roupas molhadas, sofreu violência policial testemunhada por trabalhadores locais. No início ele relatou seu primeiro nome, mas dado seu estado desorganizado não tínhamos certeza dessa informação. Negava ofertas da equipe, exceto água. Em uma tentativa de vinculação reparamos na tatuagem que ele tem, puxamos assunto, e ele demonstrou interesse nas tatuagens do profissional Claudemilson, redutor de danos. Em outro momento, percebemos que ele é tabagista, ofertamos cigarro, aceitou e a partir de então, direcionava a atenção para o profissional referido, o chamando de irmão, como alguém da família e, mesmo com o discurso desconexo, mostrava sinais de sociabilidade. Com estes avanços percebemos o começo da vinculação, porém, não seria possível o cuidado in-loco. Discutimos arduamente a necessidade de uma internação involuntária, e que o direito à liberdade não exclui outros direitos garantidos constitucionalmente. Compreender isto mobilizou a equipe a se informar e estruturar essa prática, sem institucionalizar o indivíduo. Todo esse processo causou angústias e reflexões intensas, que seguem vibrantes em nós.
O curso do cuidado de F. evidencia a importância da escuta qualificada, do envolvimento entre os serviços, e da persistência do trabalho em rede, tendo em vista que foram oito meses de acompanhamento até a intervenção. A experiência demonstra que quando o cuidado é compartilhado e centrado no sujeito, é possível promover transformações reais na vida das pessoas em situação de vulnerabilidade extrema. Após as intervenções necessárias pelos equipamentos designados para o cuidado seguimos realizando visitas periódicas, fortalecendo a continuidade do cuidado e o vínculo. Durante sua estadia no CAPS observamos melhoras gradativas, que evidenciam os ganhos do cuidado após a internação. Recordou lembranças, disse ser artista, expressou desejos atuais. Percebemos que em seu quadro sempre há chance de melhora, diferente do que ouvimos sobre a cronicidade e cristalização de sua desorganização psíquica. Vimos a capacidade da equipe em transferir afetos sobre o caso a outros serviços envolvidos, aquecendo a rede, o que gerou ganhos e melhorias na metodologia de trabalho, estreitamento de parceria com a RAPS, benefícios e conquistas para o usuário, além da possibilidade de criação de protocolos para casos semelhantes.
eCR, Internação Involuntária, Redução de Danos.
AGATHA DA SILVA LIMA BOTIAS, CLAUDEMILSON JOSÉ DO NASCIMENTO, GRACIELA JANAINA DA SILVA, JOSÉ FÉLIX DE OLIVEIRA, MARIA DO CARMO DO NASCIMENTO DIAS, ANTÔNIO RINALDO PAGNI