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A Unidade Básica de Saúde (UBS) do Jardim Campo Belo, em Campinas/SP, realiza diversas atividades coletivas visando potencializar o cuidado à população. Isso inclui grupos para o acompanhamento em saúde de crianças e adolescentes, considerando cuidados em saúde mental e apoio ao desenvolvimento. Com isso, podemos impactar positivamente no presente e na vida adulta prevenindo problemas futuros. Pelo contexto de vulnerabilidade social existente no território, identificamos necessidades em saúde complexas, associadas a eventos que geram desgaste emocional significativo, fragilização nos vínculos familiares e comunitários e o sofrimento de violências que poderiam ser evitadas. Por isso, é imprescindível ofertar estratégias de cuidado amplas e acessíveis– o que é reforçado pela prioridade à proteção e ao cuidado de crianças e adolescentes previstos em políticas e estatutos, como o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Diante das intersecções entre esses diversos problemas, compreendemos que parcerias intersetoriais devem ser construídas, integrando a atuação de políticas da saúde e da assistência social no enfrentamento dessa realidade. Dessa forma, a UBS, um Centro de Convivência (CECO), um Centro de Convivência e Fortalecimento de Vínculos (SCFV) e o Centro de Referência de Assistência Social (CRAS), aproximaram-se para a realização de grupos de crianças e adolescentes que estão em atividade desde o início de 2025.
O principal objetivo desses grupos é produzir saúde e proteção social, de forma integrada, por meio da articulação de políticas públicas, equipamentos, saberes e estratégias de cuidado e proteção. Nosso propósito envolve criar alianças com as crianças, adolescentes e suas famílias, visando apoiar conjuntamente o desenvolvimento socioemocional ao longo dessas fases de vida. Nesse sentido, buscamos favorecer a formação de conhecimentos sobre o campo das emoções e afetos, a construção de relações saudáveis e a produção de estratégias para o enfrentamento das violências, frequentemente relacionadas ao racismo, machismo, lgbtqiapn+ fobia, entre outras. Temos como objetivos específicos o fortalecimento da autoestima e o desenvolvimento de habilidades relacionais de crianças e adolescentes, visando aumentar sua proteção. Ademais, buscamos apoiar a construção de estratégias de parentalidades responsáveis e substitutivas a punições junto às famílias.
Idealizado pela UBS e o SCFV, com o envolvimento do CRAS e CECO, o grupo de crianças contempla a faixa etária dos 6 aos 11 anos. De frequência semanal e abordagem psicossocial, utilizamos brincadeiras, jogos e atividades expressivas para atividades de “letramento” emocional, que se desdobram em outros diálogos e vivências. Compõem o grupo psicólogas, cientistas sociais, educadoras sociais e agentes comunitários de saúde (ACS), em um campo de atuação comum. Por sua vez, o grupo de adolescentes é realizado com a participação dos equipamentos já referidos e destinado a adolescentes de 12 a 17 anos. De abordagem psicossocial e frequência semanal, sua aposta reside na convivência e viabilização de pertencimento e alteridade. No grupo, exercitamos projetos de vida e reflexões que ampliam repertórios culturais e promovem consciência social. Participam psicólogas, terapeutas ocupacionais, cientistas sociais, educadoras sociais, profissionais de educação física e ACS. Apesar de realizados separadamente, os grupos acontecem no CECO, em um terreno onde também fica o CRAS – o que contribui para a integração dos diferentes serviços. Além disso, ocorrem no mesmo dia, em horários subsequentes, o que facilita a inserção de crianças e adolescentes que fazem parte da mesma família. Para ambos os grupos, crianças e adolescentes vinculadas a diferentes UBS do território podem ser referenciadas. Assim, compreendemos que os grupos fazem parte de uma mesma estratégia de cuidado e proteção.
Identificamos que os grupos têm promovido acesso a cuidados em saúde mental e proteção social, considerando diferentes necessidades de suporte socioemocional, sobretudo com crianças e adolescentes que foram expostos a situações de sofrimento e violências – o que promove os princípios da integralidade e equidade, fundamentais para o desenvolvimento de qualquer ação. Observamos que os vínculos de confiança foram fortalecidos entre os profissionais e as crianças e adolescentes do território, o que permitiu a abordagem de questões mais sensíveis para as famílias acompanhadas. Assim, foi possível abordar temas como o luto e problemas sociais complexos, como o trabalho infantojuvenil. Ainda através desses vínculos, algumas famílias relataram melhoras nas condições e problemas de saúde percebidos nas crianças e adolescentes, referindo evoluções nas habilidades comunicativas, relacionais e comportamentais. Em parte desses casos, os avanços também foram percebidos e valorizados pelas crianças e adolescentes, aumentando a relevância desses resultados. Tal vínculo costuma ainda ser reforçado por falas das famílias que exprimem confiança e valorização do trabalho realizado, além de demonstrações de interesse em participar de atividades dos grupos, como em ocasiões de confraternização.
A implementação dos grupos contribui para a formulação de respostas em um campo assistencial com demandas crescentes. Observamos isso pelo número significativo de crianças e adolescentes encaminhados para avaliação e acompanhamento, especialmente de saúde mental. Além disso, a apropriação de sua existência pela comunidade favorece o acesso para famílias que nem sempre percorrem os fluxos tradicionais de entrada nos serviços. Além disso, os grupos favorecem compreensões mais abrangentes, por parte dos profissionais, das realidades familiares e comunitárias presentes no território. Com isso, estratégias de cuidado mais qualificadas podem ser desenhadas, incluindo a participação ativa das famílias em sua formulação – um caminho no qual gostaríamos de avançar. No caso dos grupos, isso contribuí sobremaneira para a interrupção na produção de marcas de sofrimento e desproteção que não devem ser contínuas. Por fim, o desejo pela continuidade desse projeto reside em fortalecer e aprofundar a relação entre os equipamentos envolvidos, o que contribui para a formulação de respostas mais efetivas diante das necessidades apresentadas pelas crianças, adolescentes e suas famílias.
intersetorialidade,saúde mental,infância
VINICIUS GOMES DE ANDRADE, PAULO HENRIQUE PONSONI, LARISSA SCARAVELLI LEITE, MARIANA ANGELO GUERRA, LARA BELMUDES BOTTCHER, ANA LUISA DE MORAES SOMBINI, HELLEN PEREIRA MOREIRA, JULIANA ESCASCELA GARCIA, LAURA OLIVEIRA ALBERTI, BRUNO SOUZA TOLEDO PEREIRA, JOSINETE DOS SANTOS RODRIGUES