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A ideia de que um jardim pode ser terapêutico foi sendo consolidada ao longo da História e mais recentemente observada por Roger Ulrich, arquiteto, a partir da década de 1970. De acordo com Bilibio e Doca (2018) várias pesquisas têm comprovado os efeitos benéficos do contato com a natureza para a saúde. No Brasil o termo Jardim Terapêutico foi oficializado por uma publicação do Ministério da Saúde de 2022, que define o Jardim Terapêutico como um espaço de troca entre o saber popular e o saber científico sobre plantas medicinais, baseado no consagrado trabalho do professor José de Abreu Matos, a Farmácia Viva. Em Sorocaba foi iniciado em 2015 o cultivo de mudas para o plantio em unidades de Saúde da Atenção Primária, uma parceria entre as Secretarias da Saúde e do Meio Ambiente. Na Região Norte da cidade foram plantadas duas hortas em unidades de ESF entre dezembro de 2015 e março de 2016. Na região Leste, outra unidade de ESF inspirou-se nas potencialidades do trabalho com as hortas e em abril de 2021, inaugurou a Horta Comunitária das Memórias, um dispositivo de cuidado em saúde integral. Os desdobramentos da trajetória dessas experiências, neste momento, aproximam as profissionais desses diferentes territórios (região norte e região leste da cidade) para fortalecer os atuais cenários e semear um possível modelo que possa ser ampliado para outras unidades e regiões.
Os objetivos gerais comuns propostos inicialmente foram fortalecer os jardins como espaços de promoção de saúde e ampliação da oferta de recursos terapêuticos, na perspectiva da atenção integral e incentivar a participação comunitária. Alguns objetivos específicos foram educação permanente através da sensibilização de profissionais e usuários para a temática das plantas para uso alimentar e medicinal e a articulação de ações intra e intersetoriais para a manutenção destes espaços.
Implantar um jardim medicinal nessas unidades foi desejo de vários trabalhadores. Destacamos a participação das equipes multiprofissionais de apoio a ESF e a Saúde Mental como promotoras destes processos. A articulação com a gestão foi baseada nas Políticas sobre o tema e na reflexão sobre experiências exitosas de outros municípios. Para sensibilizar os profissionais das ESF trouxemos o tema para discussão nas reuniões das diferentes equipes e utilizamos ferramentas de planejamento como agenda de encontros, cronograma para cuidado dos jardins e formação de equipes gestoras. Para envolver a comunidade realizamos abordagens em sala de espera com a oferta de materiais educativos, mudas e chás. Criamos identidades visuais utilizando-as em diferentes materiais como camisetas e impressos. Confeccionamos painéis informativos sobre as hortas. Realizamos encontros periódicos nos espaços com diversas ações como manutenção dos canteiros, oficinas, vivências, celebrações e grupos terapêuticos. São oferecidos grupos de cuidado à saúde mental, onde a partir do manejo da horta é possível trabalhar simbolicamente processos relacionados a sofrimentos e aos nossos ciclos de vida. Também são desenvolvidos grupos como os de Saúde do Adulto e Saúde da Criança em parceria com escolas do território. Tem se procurado estabelecer parcerias com as Universidades locais e outros parceiros para aprimorar a identificação botânica das espécies e fomentar o uso de boas práticas de cultivo orgânico.
Da interação entre os atores observamos surpreendentes resultados que podemos dividir em dois eixos: um ligado a estruturação concreta dos jardins e o outro a Educação Permanente. A partir do manejo das plantas observou-se um benefício que vai além do uso das suas qualidades terapêuticas e alimentares. A interação com a natureza, integrando as atividades físicas e a estimulação sensorial proporcionou que os usuários relatassem melhora na saúde mental, na autoestima, na percepção de bem-estar, na redução da ansiedade e do estresse. Em aspectos coletivos identificamos que os jardins são espaços de socialização, de estabelecimento de vínculos afetivos e comunitários e de empoderamento social. Observamos que os Jardins foram disparadores de reflexões quanto ao uso das plantas medicinais e aromáticas enquanto prática integrativa e complementar no cuidado à saúde valorizando a importância e resgate dos saberes populares. Também proporcionou a inserção ou aprofundamento de discussões que oportunizaram ampliação de consciência ambiental, a exemplo, as oficinas de compostagem em parceria com a Secretaria do Meio Ambiente e outros parceiros, que mudaram a maneira como alguns profissionais e munícipes se relacionam com a separação de resíduos. Alguns além da separação da matéria orgânica separam lacres de metal e tampas de garrafas plásticas para coleta seletiva, colaborando com a diminuição do impacto desses resíduos na natureza.
Observamos a potência das plantas como ferramentas de cuidado para além de seus princípios ativos e fitocomplexos. Os jardins terapêuticos se materializam em espaços de encontros que transcendem fronteiras, resgatando conexões anteriores com as plantas e fortalecendo o autocuidado e a autonomia. Resgatamos a percepção da natureza como uma fonte de aprendizado que se aplica a questões relacionadas aos processos de vida e outras maneiras de reexistir. Compreendemos os jardins terapêuticos de Sorocaba relatados nesta experiência conforme Carnevale (2018), são objetos de fronteira da fitoterapia, funcionam como espaços potenciais para fazer emergir um movimento de contra cultura, conectam diferentes saberes, possibilitam o diálogo com diferentes racionalidades, buscam romper a hierarquia do conhecimento, a hegemonia da biomedicina e a monocultura do saber, consideram os contextos dos territórios, permitem a linguagem compartilhada e promovem a possibilidade de fortalecimento dos indivíduos como agentes sociais.
PICS, JARDIM TERAPÊUTICO, ATENÇÃO PRIMÁRIA
Jaqueline Simões Rosa, Milene Souza Branco, Renata Scudeler Bernal