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A fisioterapia configura-se como ferramenta fundamental de cuidado integral, voltada não apenas à reabilitação física, mas também à reintegração psicossocial, com vistas ao resgate da autonomia, da participação social e dignidade das pessoas em sofrimento psíquico. Considera-se, nesse processo, a integralidade do ser humano e o reconhecimento de suas desigualdades. Ao favorecer o protagonismo dos usuários e o cuidado em liberdade, objetiva-se garantir o convívio social, a reabilitação psicossocial e o resgate da cidadania, fortalecendo vínculos familiares, a reinserção social e a reconstrução de referências familiares, por meio do PTS, articulado pelo CAPS III Adulto. A fisioterapia é uma ciência aplicada que estuda o movimento humano em suas diversas manifestações e alterações, com o propósito de preservar, manter, desenvolver ou restaurar a integridade funcional de órgãos e sistemas. Este trabalho apresenta as experiências das ações de fisioterapia no Serviço Residencial Terapêutico (SRT) de Araçatuba-SP, iniciadas em novembro de 2024, caracterizando-se, no campo da saúde mental, como uma intervenção voltada à reabilitação física e, sobretudo, à inclusão social. Atuar com pessoas com transtornos mentais, muitas vezes marcadas por trajetórias de vida complexas, exige uma abordagem ampliada, que transcenda o aspecto físico, tornando a prática fisioterapêutica nas residências terapêuticas, em liberdade, um processo desafiador e gratificante.
Garantir ações de reintegração psicossocial, com foco na autonomia, protagonismo e potencialdiade dos sujeitos. Favorecer maior qualidade de vida e liberdade. Promover ferramentas através da fisioterapia, não apenas voltadas para integridade física e tradicional que esta ciência proporciona, mas principalmente, através dos mecanismos e dispositivos sociais que o território oferece. Desta maneira, busca alcançar resultados significativos, com movimentos cinéticos funcionais, uma abordagem integral, humanizada e multidisciplinar. Este trabalho visa sobretudo, fortalecer autonomia, independência, cidadania e Liberdade aos moradores.
A metodologia baseou-se no Raciocínio Clínico Integrado (RCI), fundamentado no modelo biopsicossocial, com avaliação funcional, neural, articular e estrutural e aplicação de técnicas específicas (relaxamento e alongamento) conforme as necessidades identificadas, visando identificar disfunções e o grau de comprometimento funcional. As intervenções iniciais envolveram toque terapêutico suave, massagem relaxante e alongamentos leves, respeitando limites e potencialidades individuais, com o objetivo de promover alívio físico, emocional e fortalecer o vínculo terapêutico. A adesão inicial foi heterogênea, a percepção de benefícios incentivou a participação dos demais, evidenciando a importância do acolhimento, escuta e vínculo para o avanço terapêutico. Posteriormente, foram introduzidas atividades cinético-funcionais individuais e em grupo, caminhadas e exercícios ao ar livre, visando a reintegração biopsicossocial. Entre os 19 residentes avaliados, 12 participam regularmente, 5 de forma esporádica e 2 não estabeleceram vínculo. As principais alterações observadas incluíram rigidez muscular, alterações posturais, respiratórias e na expressão corporal. As atividades externas configuraram-se como estratégia para promover bem-estar, motivação e evolução física, emocional e social, conforme o PTS. As ações ocorrem semanalmente, com intervenções adaptadas às condições individuais, contribuindo para o fortalecimento da autonomia, do senso de pertencimento e da reintegração psicossocial
O trabalho com ênfase nos aspectos psicossociais potencializa a reabilitação física, impactando positivamente a qualidade de vida, o bem-estar mental e emocional. Observou-se redução de alterações musculoesqueléticas, melhora postural, comportamental e funcional, fortalecimento da autoestima, motivação e autoconfiança, refletindo nas atividades de vida diária. O caso de R.S.G. destaca-se pela evolução de um quadro inicial de apatia e resistência à fisioterapia para maior funcionalidade, autonomia e participação social, incluindo a prática de atividades físicas e o preparo para eventos esportivos. A transformação em sua postura, atitudes e interação social reforça o valor do cuidado humanizado e do vínculo terapêutico. O relato de M.A.F., inicialmente desconfiado devido a histórico de institucionalização, passou a aderir às intervenções ao perceber os benefícios observados em outros residentes, apresentando melhora no humor, postura e convivência social, além do desenvolvimento de habilidades sociais em espaços comunitários. O residente J.R.R. demonstrou boa adesão desde o início, com avanços na postura, interação social e controle emocional. Já o caso de A.S., exigiu intervenções motoras e ações voltadas à reintegração familiar, resultando melhora comportamental e emocional, de acordo com a família e equipe. As experiências demonstram a relação entre cuidado físico e psíquico, destacando a fisioterapia como estratégia essencial de cuidado integral e humanizado em liberdade
Durante a trajetória, foram enfrentados desafios relevantes, como o preconceito social ainda presente em relação às pessoas com transtornos mentais. Contudo, a atuação da fisioterapia no campo psicossocial tem contribuído para a redução do estigma e para a construção de novas perspectivas de vida aos residentes das residências terapêuticas. A baixa crença na própria capacidade de mudança, associada ao histórico de exclusão social e à falta de incentivo no cotidiano, também se configurou como um obstáculo inicial. Soma-se a isso o reconhecimento ainda limitado da atuação do fisioterapeuta na saúde mental, o que reforça a necessidade de maior sensibilização de profissionais da rede e gestores, visando fortalecer essa prática e potencializar os resultados na reabilitação biopsicossocial. Fatores como uso contínuo de medicamentos, sedentarismo, comorbidades e instabilidade no tratamento tornam o processo mais lento, exigindo tempo, paciência e manejo das oscilações de humor e comportamento. A experiência revelou-se transformadora, evidenciando que o cuidado vai além da técnica, despertando valores como empatia, escuta, respeito e humanização.
Integralidade, transformação, escuta e humanização
JULIANA ARIKI, ANDRÉ LUÍS MARQUES NOGUEIRA, PAULA ROBERTA PEDRUCI LEME, ALESSANDRA MARIA PEDROSO MENDES, LETÍCIA SILVEIRA DE SOUZA BRINAS, SUSAN CARLA PEREIRA RODRIGUES, DANIEL FERREIRA MARTINS JR.