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O processo de linguagem é essencial para a aprendizagem, construção das relações e o reconhecimento de si mesmo. Quando há comprometimento cognitivo e ou distúrbios de linguagem, pensar a comunicação é desafio, principalmente em pessoas com transtornos mentais graves e que por muito tempo estiveram institucionalizadas, privadas de variadas formas de expressões. C. S, homem, pardo, solteiro, brasileiro, natural de Bálsamo-SP. Ficou institucionalizado em manicômio por 14 anos, e está há 7 anos no Serviço Residencial Terapêutico de Santo André. Apresenta mobilidade reduzida, marcha claudicante com dermatoesclerose associada. Necessita de apoio para as atividades de vida diária (autocuidado e alimentação). Para as atividades de vida prática, apresenta prejuízo total, dependendo integralmente dos profissionais para efetivação dos cuidados da casa, preparo de refeições, uso de medicações, utilização de meios de transporte, compras, administração de sua renda e outros. Desde a sua chegada, a comunicação tem se apresentado como grande obstáculo para os avanços, pois, sempre expressou quase ou nenhuma palavra solta, sempre de difícil compreensão, associadas a olhares sem expressões, com episódios de autoagressividade e a retirada de toda a sua roupa, a qual arremessa na rua, ou na casa do vizinho, como um apelo para expressar e representar pelo corpo, tudo aquilo que não era possível só por meio das palavras. Como e o que fazer quando não há o que dizer? Não há como saber?
Discorrer sobre os avanços no processo de reabilitação e comunicação deste morador, a partir do vínculo e do investimento diário por parte dos profissionais que identificaram seu afeto pela música.
Inicialmente buscou-se realizar a avaliação clínica e neurológica do morador, a partir de seu acompanhamento na atenção básica, seguindo para avaliação fonológica, a fim de diagnosticar, e haver orientações que pudessem contribuir. Os comprometimentos de linguagem podem ser sutis e passar despercebidos, confundindo-se, inclusive com problemas emocionais de base psicossocial, por isso é importante que seja feita uma avaliação formal. Importa ressaltar, porém, as dificuldades vivenciadas que incluem ausência de exames, como nasolaringoscopia gravada, ressonância magnética com sedação para diagnóstico diferencial, que inviabilizaram até o momento, o diagnóstico e prognóstico do caso. O Projeto Singular Terapêutico (PTS), por sua vez, também se apresentou fragilizado, diante da falta de elementos necessários que pudessem contribuir para o desenvolvimento neurolinguístico. Dadas às circunstâncias, optou-se pelo investimento diário por parte dos profissionais, em uma abordagem que pudesse acolher compreender e ofertar o cuidado e possibilidades, a partir deste contexto e desta singularidade. Nesse sentido, e a partir da observação e do vínculo, C.S passou a demonstrar interesse por músicas, balançando-se ao ritmo de seus sons preferidos, como músicas sertanejas associadas à sua época, mostrando um novo modo de se comunicar e interagir com o mundo.
Desde sua admissão no SRT, identificou-se que C.S. apresentava limitações cognitivas, comprometimento na fala e pensamento, com prejuízo na interação com demais usuários e profissionais. Apesar de tais dificuldades, a equipe não desistiu e o morador pôde sentir-se à vontade para demonstrar o seu gosto pela música, e posteriormente, a sua habilidade. C.S, passou a treinar sua linguagem através do cantar, e ter repertório com as mais diversas músicas de variados intérpretes, passando a sentir-se à vontade também para começar a falar outras palavras, com tentativas de frases, o que consideramos um grande ganho. Atualmente, o morador expressa o que deseja e o que não deseja, chama por nome os profissionais que têm proximidade, solicita espaço de escuta “Conversar, tia” (SIC), e até atualiza os acontecimentos diários da residência durante as trocas de plantão.Todos os profissionais ao longo deste tempo, tiveram e têm papel fundamental nesta jornada, por não se contentarem com “ele é assim mesmo”, e buscarem por possibilidades através do afeto, paciência e dedicação diária, estando todos eles representados pelos autores deste trabalho, uma vez que os resultados mais expressivos puderam ser contemplados ao longo deste ano.
Uma vez identificadas as dificuldades na linguagem, é fundamental a criação de um perfil abrangente de habilidades de comunicação, por exemplo, atendimento especializado, elaboração de PTS para desenvolvimento de linguagem, cognitivas e psicossociais/emocionais para o planejamento dessas intervenções. Observa-se que diariamente os estímulos estão refletindo positivamente no desenvolvimento, mas o trabalho necessita de uma equipe multiprofissional com psicoeducação para alcançar resultados mais satisfatórios em longo prazo. Ressalta-se assim, a importância do trabalho em rede e da atuação multiprofissional.
Afeto, musicoterapia, comunicação, linguagem.
FABIANA PINTO DE ALMEIDA, ARIANA APARECIDA DA SILVA, DILZA MARIA ROCHA, PRISCILA DE SOUZA GOMES, THIAGO SUZANO OLIVEIRA