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O caso de Luz desvelou processos violadores relacionados à proteção familiar e das instituições públicas para adolescentes, o que suscitou iniciativas para superar violências institucionais, conscientizar e formar trabalhadores sobre as Políticas LGBTQIAPN+, criar alternativas para cuidar humanizadamente, gerar compreensões profundas sobre a Reforma Psiquiátrica e atenção as questões relacionadas ao uso de drogas. Luz é uma menina trans de 15 anos e logo que se identificou com este gênero foi rejeitada pela família. Na escola Luz não podia ser Luz tinha que ser Vinícius e assim era obrigada a usar o banheiro masculino. Neste cenário o bullying a perseguia, assim saiu da escola, passando a ocupar espaços da rua e do tráfico, não tardou encontrou as drogas, exploração sexual, doenças e seguia sendo marginalizada e violada até pela rede de serviços que deveria protegê-la. Salienta-se que a sociedade é heterocêntrica, em que aqueles que fogem à norma imposta cultural e moralmente são marginalizados e enfrentam preconceitos e exclusão social¹. Ademais, em circunstâncias de desamparo das instituições protetivas, comumente o acolhimento e aceitação vem do tráfico, que tende a produzir identidades e oferecer alternativas sedutoras, apesar de danosas². Dentre os agravos, o adoecimento psíquico foi inevitável, a imersão em comportamentos suicidas colocou o CAPS infantojuvenil para atuar como condutor do cuidado, defensor de direitos junto aos serviços, sensibilizador e formador da rede
Objetiva-se apresentar as iniciativas de cuidado adotadas pelo município, através do caso Luz. Luz foi uma forma de esperança e de promoção de aprendizados para a rede, em que se construiu cuidados melhores, mais humanizados, mais integradores e mais resolutivos no sentido de oportunizarem cidadania e direitos. Esta proposta explicitou que o cuidar impreterivelmente precisa contemplar os sujeitos na integralidade, biopsicossocialmente, considerando-se seus contextos, suas formas de viver e todos os determinantes sociais de saúde. Logo, visou-se propor uma assistência plural, dinâmica, contínua e alinhada a compreensão das drásticas consequências que as vulnerabilidades ocasionam à vida³. Através deste modo de cuidar se almejou reafirmar preceitos antimanicomiais, salvaguardando direitos e redução de estereótipos e estigmas, considerando que estes podem ser tão incapacitantes quanto os adoecimentos, pois quanto mais o ambiente é estigmatizador maiores são as barreiras para o cuidado.
Estruturou-se processos formativos contínuos junto a RAPS em que através de rodas de conversas visou-se gerar empatia, autoreflexões e críticas sobre práticas de cuidado. Assegurar o acesso dos adolescentes aos serviços, foi outro ponto de investimento, de maneira a abrir as portas dos serviços nos momentos priorizados pelos mesmos. Além de se organizar projetos terapêuticos conjunto e intersetorialmente, usando recursos dotados de sentidos e significados, para além da atenção em saúde, pensando-se na inserção em ações de participação social, qualificação profissional, esportivas, culturais e de geração de renda. Garantir transporte para assegurar acesso do adolescente e oportunizar cuidado em tempo oportuno foi importante, no sentido de levá-los para as unidades assistenciais quando necessário, ou ir até o território para realizar atendimentos, buscas ativas ou outras intervenções propícias. Organizar espaços para realizar processos de cuidado clínico sistemático e desintoxicação no meio comunitário, próximo aos locais de vida do sujeito foi uma estratégia humanizadora, de maneira que as internações passaram a ser em local específico no hospital geral, atendendo as necessidade de uma rotina flexível, acolhedora e terapêutica. Discutir intersetorialmente a importância do acolhimento, do fortalecimento de vínculos, do combate às discriminações, da proteção contra as violências e violências institucionais, somaram-se ao nunca desistir de cuidar, mesmo diante dos poucos avanços.
Adotar estratégias criativas e flexíveis na perspectiva psicossocial foi imprescindível, em que observou-se o fortalecimento da RAPS e da ações intersetoriais, bem como, na concretização de cuidado pautado nas necessidades dos adolescentes, incluindo-se a perspectiva da redução de danos e estabelecimento de atenção contínua, alicerçada no acolhimento e vínculo. Buscar alternativas, oportunidades e novas perspectivas ampliaram as discussões sobre novas ofertas culturais, esportivas e de trabalho nos territórios. As discussões com a rede possibilitaram uma compreensão da importância da integralidade, equidade, intersetorialidade, para reformular estratégias plurais, não limitantes, patologizantes, medicalizantes, segregadoras restritas à institucionalização. Ir para a comunidade, visitar os lugares em que a vida acontece favoreceu conhecer a realidade e encontrar alternativas “outras”. A persistência das equipes e os exercícios para o rompimento dos estigmas e discriminações, geraram empatia, práticas mais humanizadas, vinculações, estabelecimento de relações de confiança. Intersetorialmente identificou-se a necessidade de se estruturar ofertas para aporte e prevenção, referente à questão das drogas e grupos de trabalhos debateram e debaterão a temática. Compreendeu-se a violência como um ciclo a ser rompido em todas suas instâncias, seja mascarada de bullying, discriminações, preconceitos, rejeições e marginalizações.
Luz fez as equipes da RAPS e as equipes intersetoriais se articularem e integrarem, reconhecendo as próprias fragilidades para criarem ações “outras” para cuidar. Entretanto, os desafios são muitos, principalmente concernentes a necessidade de se garantir processos favoráveis de transição de gênero, reduzir amplamente estigmas em todos os setores do sistema de garantia de direitos, ampliar oportunidades que superem as promovidas pelos círculos de rua e tráfico de drogas, concretizar a proteção massiva de crianças e adolescentes, independente de identidade de gênero, raça ou religião e expandir humanidades para que se abarque toda a diversidade livremente. As ações aqui demarcadas são iniciais e precisam ser disseminadas para o mundo. Sabe-se que precisam ser contínuas, para não serem esquecidas e caírem na cilada da assistência mascarada de violação de direitos. Difundir a compreensão de que situações de vulnerabilidades e violências oferecem riscos e impõe gradativos agravos, constituindo-se em ciclos de despertencimento e segregação são essenciais para evitar o impacto destes processos na vida e no desenvolvimento de adolescentes, favorecendo assim vidas protagonistas e com oportunidades cidadãs.
Adolescência, vulnerabilidades, Redes Cuidado, SUS
LEICI SANTANA ALVES DOS SANTOS, ZILDA ALVES DA SILVA