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Quando uma pessoa em crise de saúde mental, em suas complexidades apresenta demandas para vários serviços ao mesmo tempo, gerenciar cuidado torna-se tarefa árdua, visto que nos diferentes serviços existem diferentes práticas e olhares diversos para a mesma dificuldade e para o mesmo sujeito. Contudo, quando existe o fator vulnerabilidade social (falta de rede de apoio familiar, acesso a renda e outras complexidades de ordem psicossocial) a agudização do que pode ser compreendido como “crise” repercute não só no sujeito, mas em seu entorno gerando a necessidade de intervenções em rede para a minimização desta condição de sofrimento, dentro dos recursos disponíveis. Neste cenário, as equipes de saúde mental mobilizam-se para organizar intervenções dialogando com diferentes serviços para que o cuidado seja efetivado e para que a crise seja acompanhada até um momento aproximado de “estabilidade”, respeitando a subjetividade do sujeito, suas condições pessoais para a construção de um Projeto Terapêutico Singular (PTS) e suas demandas diversas, exigindo criatividade, paciência e diálogo entre os profissionais e usuário. Este cuidado deve ser visto como um Caminhar, onde a tolerância a incertezas deve estar presente, bem como a habilidade de repensar as intervenções que estão sendo desenvolvidas momento a momento. O caso em tela, trata-se de um sujeito referenciado no CAPS II de longa data, homem de 55 anos com necessidades de cuidado de toda Rede de Saúde e Rede Intersetorial.
Organizar cuidado integral à pessoa que sofre em rede mediante a complexidade e necessidades do usuário. Construir PTS compartilhado com diferentes equipamentos. Acompanhar o momento de crise utilizando os recursos disponíveis no momento. Desenvolver estratégias de comunicação efetivas entre os profissionais. Trazer resolutividade e contorno para a condução do caso, observando a dificuldade e reconhecendo as limitações para tal. Acompanhar a evolução do caso, considerando as limitações e possibilidades disponíveis para o manejo.
O caso construído será narrado a partir do olhar ampliado para acolhimento em situações de crise em saúde mental, previsto no Caderno de Atenção Nº 34 Saúde Mental-MS. As informações existentes são retiradas do prontuário, registro de conversas e articulações em rede foram realizadas nos últimos meses para o acompanhamento de episódio de crise, assim como os desafios enfrentados para efetivação do cuidado. Os condutores e referências das práticas que foram implementadas envolvem a estratégia de diálogo aberto (SEKULA & ANKIL, 2020). Realização de reuniões no início do ano de 2023 a partir de funcionários do CAPS-II em rede com a UBS, CRAS, E-MULTI e atendendo a vizinhos e amigos de R. a fim de traçar PTS. Definição de estratégia em rede e extensão de implicação da família no cuidado. Compreensão das equipes, que a internação se dá em última instância, desde que todas possibilidades de cuidado em rede sejam esgotadas para condução do tratamento em liberdade.
O usuário R. tem 55 anos, vive sozinho em uma casa simples e iniciou o tratamento em saúde mental no CAPS-II em 08/12/2008, porém possui um longo histórico de tratamento no Ambulatório de Saúde Mental com “mais de 30 internações” (sic). Desde o início do seu tratamento no CAPS o recurso da internação, até o momento, não foi necessário, sem rede de apoio, R. passou a viver em uma condição de vulnerabilidade social com moradia precária e falta de acesso a outros cuidados da proteção social, que se estende até o momento atual. Sempre comparece nas consultas, passou por episódios de abandono e retomada do tratamento, sempre com discurso agressivo, ameaçador e sem escuta, queixando se sentir sozinho, preocupado e mantendo discurso ruminativo com conteúdo negativo. Em seu histórico de tratamento apresentou várias Hipóteses diagnósticas: F20.5 F22.5, F20, F25, F23, F60.9 (CID-10). O usuário foi acompanhado pelas equipes do CAPS, CRAS e (UPA),e durante o processo não foi realizada internação em hospital psiquiátrico. A continuidade do cuidado ainda está sendo realizada entre tais equipamentos e também a Casa de Passagem (Acolhimento e residência transitória para pessoas em situação de rua) pois não há um “desfecho” linear para um caso complexo, mas sim com seus percalços, compreendendo as dificuldades encontradas no caminho e também a dedicação que foi investida para a condução do caso.
A palavra crise vem do grego krísis, que significa, na sua origem, momento de decisão, de mudança súbita; separar, decidir, julgar. No caso de pessoas em crise por conta de um quadro de saúde mental, o desarranjo, o desespero, as vozes, visões ou a eclosão psicótica expressam também uma tentativa de cura ou de resolução de problemas e sofrimentos cruciais na vida da pessoa, de um núcleo familiar e comunitário. É preciso ampliar conceitos e combater olhares centralizados na crise episódica, e não centralizada na integralidade do cuidado a fim de garanti-lo de maneira eficaz. A crise faz parte do cotidiano dos sujeitos que estão constantemente lidando com momentos que geram desorganização em sua vida. A articulação intersetorial mantém-se devido à complexidade do caso. O usuário apresenta diversas demandas relacionadas à vulnerabilidade social, acesso a renda e organização de sua residência, contudo, o manejo do caso vem sendo feito sob muitas mãos e muitos olhares, a fim de manter R. bem para auxiliá-lo em seu projeto de vida em liberdade. Hoje R. encontra-se estável, referenciado na rede d4e média proteção social – Casa de Passagem, seu PTS construído em rede tem como referência saúde mental o CAPS II e toda rede intersetorial.
Manejo de crise, Saúde Mental, Intersetorial
Matheus Gomes de Souza, Daniel Henrique de Souza Firmino, Eva Talita Candido, Deise da Mota Pimenta, Taís Iara Samperi, Grazielle Cristina dos Santos Bertolini