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O suicídio constitui grave problema de saúde pública, com forte determinação social e psiquiátrica. Em Marília, entre 2024 e 2025, o trabalho sistemático de investigação de óbito realizado pela Vigilância Epidemiológica revelou-se uma ferramenta indispensável para mapear lacunas e vulnerabilidades da população e do sistema de saúde. Esta experiência demonstra como a investigação minuciosa dos casos, aliada à parceria desenvolvida com o Núcleo de Integração de Dados e Informação para a produção de gráficos dinâmicos e interativos, pode transformar dados brutos em informações estratégicas permitindo identificar vulnerabilidades individuais, assim como, fragilidades na rede de atenção, transformando o registro de mortalidade em instrumento estratégico de gestão.
A iniciativa surgiu do reconhecimento de que o registro de mortalidade, embora fundamental como ferramenta de vigilância em saúde precisava ser potencializado por recursos tecnológicos que permitissem uma análise mais ágil, integrada e visualmente acessível. Com o objetivo de mapear as tentativas anteriores e o acompanhamento recebido para revelar as janelas de oportunidade, visualizar tendências, proporções e correlações de forma clara e dinâmica. Qualificar a leitura epidemiológica dos casos e facilitar a identificação de padrões recorrentes. Reconhecendo o volume e a complexidade das informações coletadas, a equipe de investigação de óbito estabeleceu uma parceria estratégica com o Núcleo de Integração de Dados e Informação. O objetivo era transformar os dados brutos em conhecimento acionável, capaz de orientar decisões.
A investigação de óbito por suicídio foi estruturada a partir da análise detalhada das declarações de óbito, coleta sistemática de informações junto a familiares, serviços de saúde, prontuários, notificações prévias de tentativa, registros da atenção primária e especializada, laudos do Instituto Médico Legal (IML), boletins de ocorrência envolvendo óbitos enviados pela Delegacia Seccional de Polícia de Marília além de informações complementares obtidas junto à rede de saúde. Cada caso investigado representou não apenas o esclarecimento das circunstâncias da morte, mas a oportunidade de compreender os fatores que levaram àquele desfecho e identificar falhas na rede de cuidado que poderiam ter sido evitadas. Os dados obtidos nas investigações revelaram evidências robustas sobre os principais fatores de risco. Os registros clínicos dos pacientes mostraram que a maioria apresentava diagnóstico prévio de transtornos mentais e/ou de uso de substâncias, especialmente álcool e outras drogas. Os laudos do IML frequentemente confirmaram, por meio de exames toxicológicos, a presença de drogas nos casos de autoextermínio consumado, evidenciando a importância de integrar essas informações à investigação. A sistematização e a visualização qualificada das informações demonstraram que o suicídio é um desfecho multifatorial, resultante da interação entre fatores sociais, psicológicos e de saúde.
O registro de mortalidade deixou de ser apenas dado estatístico e passou a ser ferramenta ativa de análise crítica. A partir das investigações, tornou-se possível comparar o perfil sociodemográfico e o histórico de saúde mental das pessoas que vieram a óbito, evidenciando padrões relevantes para o planejamento de ações preventivas. Observou-se associação significativa com transtornos mentais e transtornos relacionados ao uso de substâncias, especialmente álcool e outras drogas, frequentemente confirmados por registros clínicos e exames toxicológicos. Os gráficos possibilitaram a detecção de sazonalidades, perfis de risco e correlações, orientando intervenções mais precisas tornando possível identificar os grupos populacionais mais vulneráveis evidenciando, por exemplo, o predomínio de pessoas solteiras (65%), do sexo masculino (73%) e com escolaridade de nível médio (56%), apontando para isolamento social e possíveis lacunas na rede de apoio. A parceria com o Núcleo de Integração de Dados e Informação permitiu não apenas agilizar a análise, mas também comunicar os achados de forma clara e persuasiva para gestores, profissionais de saúde e a sociedade civil. Esse processo permitiu reconstruir a trajetória assistencial dos indivíduos, identificar fragilidades no acompanhamento e mapear fatores de risco que antecederam o desfecho.
O trabalho de investigação de óbito mostrou-se fundamental para qualificar a vigilância em saúde, aprimorar a qualidade das informações e transformar dados em subsídios concretos para a tomada de decisão. Ao revisar cada trajetória de cuidado, a equipe pôde identificar lacunas assistenciais, fortalecer fluxos de acompanhamento e propor medidas de prevenção e pós-venção mais efetivas. Assim, a experiência evidenciou que a investigação de óbito não se limita à confirmação da causa básica, mas constitui ferramenta estratégica de gestão. Assim, a investigação de óbito, aliada ao uso estratégico de tecnologia e à análise por meio de gráficos interativos, consolidou-se como ferramenta potente de gestão e planejamento.
Suicídio; Investigação de óbito; Tecnologia;
LEONARDO MARTINEZ EMIDIO, MARILZA DOS FERREIRA DOMINGUES, MARIANNE GOMES BARBOZA ALVES, SUELLEN DE OLIVEIRA FERREIRA CREPALDI, PATRÍCIA HELENA BALDACIN RODRIGUES GIROTTO