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No estado de São Paulo, as principais espécies de escorpião responsáveis por envenenamentos graves ou fatais são Tityus serrulatus (escorpião-amarelo), Tityus bahiensis e Tityus stigmurus. Nos últimos anos, o número de acidentes escorpiônicos no estado de São Paulo tem aumentado significativamente, configurando um panorama epidemiológico preocupante. Em 2024, foram registrados 42.054 casos de acidentes com escorpiões e 1 óbitos, o que representa 68% das notificações de acidentes por animais peçonhentos e 19% da letalidade de óbitos. O crescimento progressivo dos acidentes, a dispersão do T. serrulatus e sua adaptação ao meio urbano fazem do escorpionismo o principal agravo dentre os envenenamentos por animais peçonhentos no estado. Dessa forma, o escorpionismo tornou-se um problema de saúde pública devido à sua alta incidência, gravidade dos acidentes e dificuldades de controle. Perante as circunstâncias epidemiológicas atuais, é de extrema importância estabelecer as áreas de risco da ocorrência desse tipo de agravo à saúde, pois a proliferação dos escorpiões está relacionada à abundante disponibilidade de alimento e de abrigo, encontradas nos ambientes urbanos. Além disso, fatores relacionados às mudanças climáticas apresentam fortes indícios que podem influenciar na modificação da distribuição geográfica desses aracnídeos, aumentando consequentemente as condições para o crescimento da ocorrência dos acidentes causados por escorpiões.
Diante desse cenário e visando uma compreensão mais aprofundada do escorpionismo no estado de São Paulo, este estudo teve como objetivo analisar o impacto das mudanças climáticas na distribuição das espécies de escorpiões de importância médica no território paulista. Além disso, este trabalho, buscou identificar as áreas potenciais de risco para a ocorrência de acidentes escorpiônicos e projetar sua distribuição para os anos de 2050 e 2100, considerando cenários futuros de emissão de gases do efeito estufa.
O procedimento metodológico deste trabalho iniciou-se com a compilação de um banco de dados contendo registros de espécies de escorpiões de importância médica dos municípios paulistas. Para isso, foram utilizados os dados da coleção de aracnídeos do Instituto Butantan e do Sistema de Vigilância e Controle de Escorpiões (ESCORPIO) da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo. Os dados climáticos foram obtidos no banco de dados WorldClim-Global. Com base nessas informações, modelos de distribuição das espécies foram projetados para dois períodos futuros: 2050 e 2100. Para analisar a distribuição biogeográfica dos escorpiões e prever sua ocorrência em diferentes cenários climáticos no Estado de São Paulo, foi utilizada uma ferramenta de inteligência artificial. Inicialmente, foi realizada uma Análise de Componentes Principais (PCA) para selecionar as variáveis climáticas mais relevantes na distribuição das espécies. Em seguida, foram gerados mapas de probabilidade de ocorrência dos escorpiões tanto para o cenário atual quanto para os futuros. Posteriormente, um modelo de distribuição geográfica dos acidentes escorpiônicos foi elaborado seguindo os mesmos protocolos metodológicos. Nessa etapa, os mapas de distribuição das espécies foram correlacionados com os registros de acidentes escorpiônicos, permitindo a identificação das áreas de maior risco. Assim, foram construídos mapas que indicam as regiões vulneráveis à incidência desses acidentes no presente e no futuro.
A análise de Componentes Principais (PCA) permitiu identificar as variáveis climáticas que mais influenciam a distribuição geográfica dos escorpiões. Os resultados apontaram que a precipitação, a temperatura e a altitude são os fatores climáticos mais determinantes para a ocorrência dessas espécies. De acordo com o mapa de distribuição biogeográfica, tanto T. serrulatus quanto T. bahiensis podem ser encontrados em todo o estado de São Paulo. Já T. stigmurus apresenta uma distribuição mais restrita, ocorrendo na região metropolitana da grande São Paulo, na região de Sorocaba e no Vale do Ribeira de Iguape. Os mapas de probabilidade para os cenários futuros de 2050 e 2100 indicam uma mudança progressiva na distribuição dessas espécies. T. serrulatus tende a reduzir sua área de ocorrência, principalmente no norte do estado, concentrando-se mais no centro, leste e sul de São Paulo. T. bahiensis sofrerá uma redução drástica em sua distribuição, ficando restrito à Serra da Mantiqueira. Por fim, T. stigmurus deverá se limitar ao vale do rio Ribeira de Iguape. Em relação às áreas de risco de acidentes escorpiônicos, os dados atuais mostram que as regiões norte, leste e central do estado são as mais críticas. Nessas áreas, T. serrulatus, T. bahiensis e T. stigmurus são responsáveis por 85%, 11% e 4% das ocorrências, respectivamente. No entanto, para os cenários futuros, os modelos indicam que a região norte do estado deixará de ser uma área de alto risco para acidentes escorpiônicos.
As análises espaciais empregadas neste estudo mostraram-se altamente eficazes na determinação da evolução espaço-temporal da ocorrência de escorpiões de importância médica no estado de São Paulo. A reorganização da distribuição espacial dessas espécies pode aumentar a interação entre esses aracnídeos e os seres humanos, elevando, consequentemente, a probabilidade de acidentes escorpiônicos em algumas regiões do estado. Embora a distribuição dos insumos de soro antiescorpiônico esteja bem homogênea no estado de São Paulo, os resultados apresentados aqui são de grande relevância para capacitar as equipes de saúde. O reconhecimento dos quadros clínicos, a indicação adequada da soroterapia e a compreensão das características regionais de ocorrência das espécies e dos acidentes são aspectos fundamentais para o aprimoramento do atendimento. Essas premissas são essenciais para reduzir tanto a letalidade quanto o número de pacientes que desenvolvem sequelas decorrentes dos efeitos tóxicos da peçonha do escorpião.
Mudanças Climáticas, Escorpiões, Estado de SP
THIAGO SALOMÃO DE AZEVEDO, GISELE DIAS DE FREITAS