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A noção de masculinidade como difundida na sociedade atual, atravessada pelo machismo estrutural, contribui para a formação de diversas formas de sofrimento, tanto para homens, quanto para mulheres, pois promove a construção social de subjetividades que impele aos homens a reprodução de comportamentos e atitudes rígidas, dessensibilizadas e pautadas no emprego da força, da violência, da dominação e da apropriação, gerando contextos onde a ansiedade, a depressão, o estresse, a angustia e o mal-estar preponderam, contribuindo para processos de adoecimento, não só dos indivíduos, mas de todo o modelo de sociedade. Nesse sentido, torna-se crucial abordar a temática e enfrentar seus efeitos, principalmente em sua dimensão que afeta a saúde, em especial a saúde mental, produzindo espaços e condições em que, especificamente aos homens, possam refletir sobre a construção das suas masculinidades e do machismo estrutural vigente, superando os tabus instaurados na sociedade sobre a temática, possibilitando assim a desconstrução e reconstrução de novas formas possíveis de subjetividades e masculinidades alinhadas com a saúde, o bem estar, a equidade e o cuidado nas sociedades que virão e que estão em constantes reformas. A OMS (2019) já destaca a importância para a abordagem da saúde masculina, incluindo a promoção da saúde mental. Enfatiza ainda que aumentar a atenção ao tema pode contribuir para o alcance de diversos objetivos de Desenvolvimento Sustentável.
Produzir um relato de experiência dos técnicos que coordenam o grupo de masculinidades de um CAPS Adulto III – SP. Reunir homens que realizam acompanhamento nesse serviço, para discutir temas pertinentes ao universo das masculinidades. Apresentar informações em saúde, promovendo orientações sobre a saúde do homem e de suas questões específicas, explicitando processos de adoecimento, tratamento e medidas preventivas, enquanto estratégia para alcançar a integralidade do cuidado. Promover estimulação ao diálogo para o compartilhamento sobre relacionamentos interpessoais, expressão das emoções e sentimentos, prática da comunicação não-violenta, sexualidade, paternidade, violência doméstica, entre outros.
O método utilizado para a organização do relato de experiência foi o da observação participante. O formato do grupo foi inspirado nos grupos reflexivos de homens autores de violência doméstica e pautado na participação determinada pelo poder judiciário, baseado na Lei Maria da Penha. Teve início em outubro de 2022, acontece toda quinta-feira e devido à alta demanda de participantes os encontros acontecem na Fábrica de Cultura do parque do Belém. O grupo é realizado em formato aberto, destinado aos homens, com a média de 20 participantes ao longo dos seus dois anos de existência. Utilizamos recursos como rodas de conversa, dinâmicas de grupo, oficinas interativas, momentos de confraternização e convivência, apresentando mídias audiovisuais (documentários, palestras, reportagens, podcasts, músicas e textos), no intuito estratégico de estimular a fala, o diálogo, as trocas de experiências e vivências, a expressão de emoções, sentimentos e reflexões que promovam e alcancem os objetivos propostos. Realizamos também eventos com a participação e engajamento dos participantes, especialmente relacionados à campanha de saúde do homem. A participação dos coordenadores adotou horizontalidade, por meio da construção coletiva, da mediação do diálogo e na oferta de temas pertinentes aos objetivos do grupo. Estes também compartilham suas experiências pessoais, proporcionando modelos de identificação e vinculação.
A experiência vivenciada pelos coordenadores sugere que grupos de masculinidades em ambientes como o CAPS podem desempenhar um papel crucial na promoção da saúde mental dos homens. Os relatos e devolutivas dos participantes apontam para a formação de uma poderosa rede de apoio e acolhimento entre seus membros, no alívio de tensões e sofrimentos ab-reagidos por meio da fala e do compartilhamento, que se torna possível pelo signo identitário que transpassa a constituição do grupo. É possível perceber também processos lentos, mas significativos de ressignificação das histórias e memórias passadas, assim como na diminuição das preocupações excessivas com o futuro e no melhor aproveitamento e conexão com os momentos presentes, permitidos pela elaboração dos papeis sociais destinados aos homens e reproduzidos de formas naturalizadas, com reconhecimento dos sofrimentos e perdas que atravessam a adoção de posturas cristalizadas. Por fim, percebe-se um aumento do interesse ao autoconhecimento e engajamento nos processos de auto cuidado, superação do isolamento social e expressão, sem medos, das fragilidades e vulnerabilidades pessoais e sociais.
As observações sugerem que o grupo de masculinidades no CAPS proporciona um espaço seguro para os homens explorarem emoções, reconheçam suas vulnerabilidades, e reflitam sobre as rígidas posturas que assumem ao idealizarem uma auto imagem pautada nos ideais de homens que não expressam sentimentos, são sempre fortes e seguros, que precisam ser os provedores e os chefes da família, assim como na reprodução de atitudes machistas, valorizando posturas baseadas na dominação, na apropriação e na violência. A abordagem utilizada pode ser uma ferramenta eficaz para reduzir o estigma associado ao cuidado em saúde mental e para promover masculinidades mais saudáveis. Percebe-se que essa abordagem pode contribuir para a redução do machismo na sociedade e para a construção de outras masculinidades possíveis, o que pode ter implicações positivas no acesso dos homens ao tratamento em saúde, na qualidade de vida dos participantes e na construção de uma sociedade mais saudável, pacífica e igualitária. Recomenda-se que outros serviços de saúde considerem a implementação de grupos semelhantes e que mais pesquisas sejam feitas para explorar as várias dimensões das masculinidades no contexto da saúde mental.
Masculinidades, CAPS, saúde.
RICARDO ROSSI DE CARVALHO, RONALDO ARAUJO SANTIAGO, DANIEL BINOTTO MORAES