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Considerando que os Centros de Referência em Saúde do Trabalhador (CEREST) são serviços especializados em saúde do trabalhador que compõem a Rede de Atenção à Saúde, prestando apoio técnico-pedagógico e clínico-assistencial ao SUS, uma das ações que devem ser desenvolvidas por esses centros é o apoio matricial em saúde do trabalhador na atenção primária. Levando em conta que a atenção primária é porta de entrada da rede e que dentro da organização do cuidado está inserido o atendimento integral ao usuário, o apoio matricial pelos CERESTs constituem importante ferramenta estratégica no fortalecimento de vínculo entre equipes dos territórios. Com esse intuito, a equipe do CEREST de Santos, iniciou em agosto de 2024 a atividade de apoio matricial em atenção primária promovendo reuniões das equipes integradas de diferentes unidades para fornecer orientações sobre vigilância epidemiológica de doenças e agravos relacionados ao trabalho e aproximar o contato de forma a facilitar a discussão de casos e potencializar terapêuticas propostas aos usuários.
Aproximar o CEREST da Atenção Primária em saúde, buscando fortalecer o vínculo entre a rede, de forma a reconhecer a importância das equipes em seus territórios como instrumento crucial de identificação e valorização do usuário enquanto trabalhador, bem como sujeito que pode adoecer ou sofrer agravos relacionados ao trabalho. O propósito do apoio matricial foi que, a partir desse primeiro contato, fosse criado um processo de construção compartilhada de intervenções terapêuticas em casos relacionados à saúde do trabalhador, buscando capacitar a rede através de orientações e discussões que impulsionem a autonomia da equipe no cuidar de trabalhadores adoecidos.
O matriciamento ocorreu a partir do agendamento com chefes das Unidades Básicas de Saúde (UBS) e Unidades de Saúde da Família (USF) para promover uma reunião presencial com integrantes das equipes tendo como objetivo apresentar o CEREST, descrever ações e competências, trazer casos para discussão em equipe, orientar as ações compartilhadas, fornecer informações sobre vigilância epidemiológica de doenças e agravos relacionados ao trabalho e otimizar o fluxo de referência e contra referência. Para garantir que os profissionais do serviço especializado conhecessem as particularidades de cada território, o CEREST disponibilizou profissionais técnicos para que se deslocassem até as unidades de atenção primária a fim de promover o apoio matricial. Nessa visitas eram feitas apresentações sobre o serviço, descrevendo as suas diferentes linhas de atuação, sendo elas assistência, fiscalização e educação em saúde. A partir disso, os trabalhadores da saúde da atenção primária eram convidados à discussão conjunta sobre o que entendiam de saúde do trabalhador, podendo tirar dúvidas sobre a atuação do CEREST e sendo indagados sobre as particularidades do seu território de atuação, a fim de conhecer mais a população daquela unidade, buscando entender quais profissões ou ramos de atividades predominantes, bem como formas de trabalho ilícitas, atividades desenvolvidas pela atenção primária, bem como aderência e êxito naquilo que é fornecido, buscando potencialidades de atuação conjunta.
De agosto de 2024 a setembro de 2025 foram realizadas 16 ações de apoio matricial para atenção primária. Foi perceptível o fortalecimento do vínculo entre equipes do CEREST e das unidades, a partir do estímulo ao reconhecimento do usuário enquanto trabalhador na cadeia produtiva e sua importância neste processo de saúde e adoecimento. Essa aproximação resultou no aumento do número de encaminhamentos ao CEREST, como também, discussões de casos em novas visitas ou via telefone e e-mail. Foi possível também realizar consultas compartilhadas nas quais o serviço especializado apoiava em questões trabalhistas e as unidades no tratamento, promovendo juntos uma saúde do trabalhador enquanto estratégia do SUS, atuando também para reabilitação e recuperação em saúde. O CEREST também participou de atividades em grupo e em reuniões das equipes integradas que aconteciam nas unidades, auxiliando na análise de situação de saúde do trabalhador, buscando prestar suporte de caráter técnico pedagógico, tanto no cuidado assistencial, como de vigilância, sendo notável o aumento das notificações de agravos relacionados à saúde do trabalhador.
O apoio matricial, enquanto iniciativa da Política Nacional de Saúde do Trabalhador e Trabalhadora, quando aplicada demonstra resultados significativos, promovendo formação de vínculo entre equipes de serviços especializados e atenção primária. Por vezes, o discurso entre essas equipes precisou ser ajustado e novas visitas foram realizadas para que houvessem encaminhamentos ao Cerest de forma mais efetiva, fazendo com que a rede trabalhasse em conjunto. As discussões de casos e participação em reuniões de equipes na Atenção Primária possibilitaram o compartilhamento de dúvidas geradas durante o processo de escuta e atendimento multidisciplinar, aprimorando o cuidado integral em saúde. Diante dessa experiência, fica o aprendizado que o SUS precisa de interação entre as diferentes equipes, provocando o questionamento de que outros serviços especializados poderiam ser incluídos no apoio matricial para construção compartilhada de estratégias que considerem o indivíduo em sua totalidade.
Matriciamento em Saúde do Trabalhador
LAILA AFONSO MENDES, CLAUDIA LINO PECHINA