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Inúmeros estudos evidenciam desafios na condução de ações para a garantida da integralidade no cuidado em saúde, sobretudo, o cotidiano de práticas na saúde mental, desta forma o matriciamento surgiu como importante ferramenta e estratégia na condução e articulação no sentido de garantir um cuidado ampliado à saúde. Assim é possível, através dessa prática com a interação dialógica entre as diferentes áreas e saberes a produção de saúde. Esta estratégia consiste num arranjo organizacional que, sobretudo, visa às dimensões do suporte técnico-pedagógico para o desenvolvimento de ações básicas de saúde para a população. Entretanto, pontua-se como grande desafio a concretização do matriciamento em saúde mental, pois muito embora haja evidencias de sua potencialidade, tal recurso depende da disponibilidade e transformações de todos os atores envolvidos, implicando, ainda, em discussões, trocas e negociações dos diversos saberes para a construção coletiva das estratégias de cuidado singulares e pertinentes aos diversos contextos. A experiência demonstra o matriciamento no CAPS III Adulto Praça Chile no município de Santo André/SP registrando em 18/03/2023 a partir do acolhimento do usuário S.T, 53 anos encaminhado por Unidade do território, condutas da rede de serviços desconsiderando seu processo sócio histórico, demandas de fatores étnicos, raciais e imigratórios, pois tem sua nacionalidade da República do Haiti, dificuldade no idioma Português e estava em situação de rua.
Potencializar as discussões em Rede para o cuidado adequado do usuário, traçando estratégias psicossociais e ofertas de acompanhamento em sua integralidade através do matriciamento composto com a Rede de Atenção Básica, CAPS e Assistência Social do Município de Santo André/SP. Potencializar o protagonismo do usuário, seu lugar de sujeito ao assujeitado por falas e atitudes preconcebidas. Compreender o usuário a partir da desconstrução dos preconceitos vivenciados, trabalhando o fortalecimento de suas potencialidades e o restabelecimento biopsicossocial em todos os âmbitos e Dispositivos da Rede de Saúde e Assistência Social.
Através do uso metodológico das seguintes ferramentas: discussões do caso em equipe, matriciamento, articulações com dispositivos da rede, ofertas dos espaços de escuta da subjetividade no qual o CAPS foi continente da dor e angústia sentida pelo usuário, dando-lhe o lugar de sujeito e fala, valendo-nos da linguagem oral e textos no idioma francês referente aos direitos e deveres durante seu acolhimento integral no Serviço de Saúde Mental. Evidenciou-se que S.T., tinha registros de passagem por diversos Serviços da Rede, até que fosse encaminhado ao CAPS III Adulto, durante o período que ficou em Acolhimento Integral (hospitalidade noturna) no serviço, foi possível a observar e fomentar diálogos multi e interdisciplinares, ampliando ações de discussão à cerca de seu histórico de vida e compreender que S.T. não necessariamente tinha uma patologia psiquiátrica grave. A potencialidade da Equipe possibilitou a desconstrução e atuação ativamente junto aos dispositivos da Rede, culminando em encontros intersetoriais entre CAPS, UBS, Consultório de Rua, Centro POP e CRAS. Deste modo, fomos observando preconceitos estabelecidos na rede de modo geral e o que lhe fora ofertado apresentava-se com caráter restritivo em diversos dispositivos da rede no qual tentou acessar. Até que a ampliação e periodicidade dos matriciamentos foram se pautando em questões culturais e nas necessidades do usuário, visto que a sua situação de vulnerabilidade foi uma das principais desorganização psíquica.
A partir da prática metodológica utilizada, fatores biopsicossociais do usuário foram avaliados e compreendidos, através de ações como construção de vínculo, escuta qualificada, contratualidade de cuidado e do fortalecimento do protagonismo. Os encontros em formato de matriciamento com a Atenção Básica (AB) impulsionaram as equipes ao cuidado em sua integralidade, o papel da Agente Comunitária de Saúde (ACS) teve grande relevância no que tange aos dados de saúde do mesmo e sua relação com a comunidade em que vivia, antes de estar em situação de rua. Identificou-se importante transformação em perspectivas das equipes, o que antes eram palavras e rótulos que marcavam as diversas reuniões internas e externas, tais como: “haitiano, jamaicano, indocumentado, desconhecido, negro, calça marrom, grisalho, violento, machista, manipulador, agressivo, e de difícil entendimento”, passam para a compreensão da singularidade desse sujeito e para ações do acesso como renovação do documento (RNE) que garante a sua estada imigratória nesta Federação, obtenção do auxílio Bolsa Família, acesso aos dispositivos da rede, trabalho e renda, bem como resgate dos vínculos afetivos e com seus familiares do seu país de origem. Em janeiro/2024 o usuário foi encontrado em ação territorial do CAPS, o mesmo verbalizou estar trabalhando e morando em uma casa no próprio território, questões estas que em agosto/2023 estavam sendo trabalhadas pela equipe.
A presente experiência evidencia que a abordagem pautada com manejos e escuta qualificada e articulações de Rede através do matriciamento em saúde mental propiciaram-nos a identificação de fragilidades da rede, impulsionando para desfecho positivo do caso, possibilitando a construção de um conjunto de boas práticas no atendimento a pessoas que envolvem demandas étnico-raciais e imigratória em situação de vulnerabilidade social. O envolvimento de profissionais do CAPS III Adulto e da Rede destaca-se como fundamental para que o usuário pudesse estar como protagonista de sua vida. As discussões fomentadas pela Saúde Mental possibilitaram um novo olhar para os demais atores da Rede, que anteriormente colocavam a pessoa, como um homem descontrolado e infrator de regras, as discussões acaloradas e reflexivas, suscitam na desconstrução consciência sobre o quanto alguns pensamentos eram alicerçados sobre estruturas racistas, desconsiderando o sofrimento subjetivo que demandava da equipe uma escuta de sua singularidade decorrente de fatores étnicos, raciais e imigratórios dessa pessoa para não violação dos Direitos Humanos.
Matriciamento, Saúde Mental, Direitos Humanos
Alexsandra Maria Pereira de Sousa Garcia, Antonio de Sousa e Silva, Felipe da Silva Souza