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A medicalização é geralmente definida como o processo que transforma os problemas não médicos em problemas médicos, transformando as variações humanas, biológicas ou comportamentais em patologia. Já o conceito de farmaceuticalização é definida como a escolha por um tratamento farmacológico em detrimento de outros não-farmacológicos. Assim, a medicalização pode ser considerada um processo em que fenômenos/condições humanas não médicas, que perpassam por aspectos individuais e sociais geradoras de sofrimento psíquico, são modificados a serem objeto de medicação, diagnóstico e tratamento (Freitas; Amarante, 2017). O grande aumento no uso de psicofármacos, no entanto, não pode apenas ser baseado nas justificativas das ciências biomédicas que apontam que “a crescente produção e venda de psicofármacos se deveria aos avanços técnicos dos tratamentos (farmacológicos) e mais descobertas científicas” umas vez que “especialmente considerando que o aumento das vendas farmacológicos não se igualam em suas diversas áreas de inserção, mas mostram-se sumariamente maiores na saúde mental”( Antonelli, 2023). No caso de famílias com crianças e adolescentes o “medicamento se torna uma válvula de escape para os pais e um mediador entre os cuidadores e a criança” (Camargos, 2024).
Integrar o processo de avaliação e conduta psiquiátrica com o trabalho da equipe multiprofissional do CAPS infanto Juvenil Recriar, evitando que as ações médicas sejam segmentadas do processo de cuidado e globalizante como modo de entendimento do sofrimento psíquico. Para que esse objetivo maior fosse possível fez-se necessário que outros objetivos também fossem comtemplados, tais como: garantir espaços de construção de PTS (projeto terapêutico singular) de forma coletiva e com a participação dos médicos especialistas em psiquiatria; ampliar o entendimento da equipe multiprofissional sobre os psicofármacos; aproximar a clínica médica dos processos do CAPS; ampliar dispositivos coletivos com a participação de profissionais médicos; ampliar a discussão sobre o papel da medicação em cada PTS e, por fim, ampliar a discussão sobre o papel da medicação com os usuários e familiares.
Territorialização do acompanhamento dos médicos especialistas em psiquiatria, sendo que cada psiquiatra (2) acompanha um território de saúde; Educação permanente com o tema dos psicofármacos; Grupos de pais e cuidadores com a participação dos médicos; Grupos de retorno, para casos estáveis, com a participação dos médicos; Atendimentos compartilhados, entre médicos e equipe multiprofissional; Espaço de construção de PTS (Projeto terapêutico singular) antes da primeira consulta de psiquiatria, com as referências do usuário e o médico; Orientação farmacêutica integrada a construção dos PTS.
Nenhuma primeira consulta de psiquiatria sem ter sido discutida em reunião; Ampliação do entendimento sobre os psicofármacos de profissionais não médicos e usuários; Ampliação da participação dos profissionais não médicos e usuários na definição da conduta medicamentosa; Integração do trabalho da farmácia nos processos de construção de PTS e da orientação farmacêutica; Ações coletivas com a participação do médico especialista em psiquiatria apresentaram grande envolvimento dos usuários; Ampliação do entendimento terapêutico para além da conduta medicamentosa.
As questões envolvendo a medicalização podem ser mais graves quando estamos falando de crianças e adolescentes, nosso trabalho e as pesquisas apontam que as “dificuldades que os pais têm na educação dos filhos” é fator preponderante “que contribui de forma significativa para o aumento do consumo de fármacos”, sem que muitas vezes, as crianças ou os jovens possam dizer dos efeitos desse processo. Além disso, “os medicamentos passam a ser considerados como uma válvula de escape para a criança, a família, a escola e os locais de lazer frequentados” (Antonelli, 2023), reduzindo outros mecanismos de entendimento, socialização, inclusão, diálogo e cuidado. Dessa forma, é um dever tanto clínico quanto ético, integrar nos CAPS as formas terapêuticas e de cuidado, respeitando os limites de cada sujeito, mas buscando promover autonomia e cidadania, ainda mais para aqueles que muitas vezes estão em condição de maior vulnerabilidade em relação ao seu silenciamento.
saúde mental, CAPS, psiquiatria, medicalização
ODONEL FERRARI SERRANO, ANDREA LUIZA DA SILVA BERNARDINO, CARLA DAS GRAÇAS SAMPAIO, FABIO ALBERTO PERCILIO, WILLIANS ANTONIO HARRY VALENTINI JUNIOR