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O conceito de loucura sofreu diversas mudanças ao passar do tempo, sendo caracterizado de acordo com as crenças e políticas de cada época. Na idade médica a loucura era tratada como sinônimo de turbulências espirituais, já na idade moderna enxergava-se como sofrimento psíquico e dava-se o primeiro passo para a criação dos Hospitais psiquiátricos. O tratamento dentro dessas instituições era violento e degradante, gerando a revolta da população e estudantes da época, culminando na criação do movimento da Reforma Psiquiátrica. Dentro da reforma psiquiátrica surge um novo conceito de cuidado em saúde mental, trata-se de uma rede integralizada denominada RAPS (Rede de Atenção Psicossocial), que tem por objetivo a articulação de diversos componentes disponíveis na Política de Saúde Pública, proporcionando um cuidado integral e acessível aos usuários. Dados do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, demonstram que as pessoas em situação de rua cadastradas no país são majoritariamente adultas e na grande maioria da raça negra, sendo contabilizada em 68%. A maior parte dessas pessoas possuem vínculo familiar rompido ou fragilizado, e 47% dessa população possui alguma deficiência física, seguida das pessoas com transtornos mentais, contabilizando 18%.
O presente estudo tem por objetivo apresentar o histórico e evolução de uma usuária do CAPS III Adulto do Município de Araçatuba – SP, demonstrando através dos dados fidedignos coletados do prontuário de usuária objeto de estudo, a evolução de seu tratamento psiquiátrico, bem como as dificuldades encontradas pelo CAPS III e toda RAPS em prover os cuidados adequados a atendida, bem como garantir sua proteção social. O objeto de estudo trata-se de uma usuária que viveu em situação de rua no município de Araçatuba por aproximadamente 10 anos, tendo reconhecido um prédio que estava desocupado como seu lar. Tal usuária foi um desafio para a RAPS (Rede Atenção Psicossocial) dada sua desorganização mental e hetero agressividade, além do vínculo familiar inexistente, dificultando sua estabilização.
Esse artigo utilizou-se de pesquisa exploratória, onde foram utilizados artigos científicos com data de publicação menor ou igual a 10 anos inferiores ao atual (2023) concomitante ao acompanhamento e Projeto Terapêutico Singular construído a atendida portadora de transtorno mental grave. Durante anos a Rede se empenhou em proporcionar saúde e bem estar social a atendida, tentando manter sua autonomia e sensibilizá-la a aderir ao tratamento psiquiátrico para que outras estratégias de cuidados fossem traçadas. Por longos meses sua técnica de referência do Centro de Atenção Psicossocial Adulto (CAPS 3) iniciou a criação e fortalecimento de vínculo com a usuária, estabelecendo uma relação de confiança mútua. Embora outros equipamentos voltados a proteção social da população em situação de rua estivessem participando ativamente nas articulações para redução de danos e promoção de saúde a atendida, o CAPS teve papel essencial para que atendida tivesse sua dignidade resgatada.
Articulações supracitadas foram intensificadas em 2023, após uma decisão judicial, onde o prédio em que atendida residia deveria ser desocupado. Sua técnica de referência acompanhada de outro enfermeiro da unidade em abordagem, realizou um manejo verbal com atendida e a deslocou ao o prédio do CAPS 3, local em que seria feita a intervenção com SAMU, garantindo que a abordagem fosse menos expositiva, pois após longas discussões entre componente da RAPS ficou acordada a necessidade de uma solicitação de internação psiquiátrica involuntária. Atendida passou um curto período aguardando vaga de internação psiquiátrica no Pronto Socorro Municipal, além do suporte clínico necessário para restabelecimento de sua saúde. Através de exames clínicos foi constatado que atendida desenvolveu uma Trombose Venosa Profunda, dando início a um novo processo de recuperação e, concomitante, a estabilização do quadro psiquiátrico. Após alta melhorada do PSM, atendida foi inserida em hospitalidade noturna em CAPS 3, e após foi inserida no Hospital Neurológico Ritinha Prates para que cuidados fossem intensificados até sua completa recuperação, visto que patologia supracitada ocasionou em perda parcial de sua mobilidade física. Infelizmente na data de 17 de janeiro de 2024 atendida foi a óbito visto complicações da TVP. Sua passagem por esta vida deixa uma lição: o quão importante é o vínculo em uma relação entre profissional e usuário e a ação conjunta da rede para o sucesso do tratamento.
O estudo demonstrou a relevância do vínculo entre o profissional de saúde e o usuário nas possibilidades de sucesso e fracasso de um determinado tratamento, consistindo em uma estratégia de promoção da integralidade e singularidade do cuidado em saúde. O vínculo constitui uma ferramenta desafiadora, mas também facilitadora. É notável em ambos casos supracitados em objetos de estudo o quanto esse elemento foi capaz de proporcionar um novo rumo no tratamento dos usuários. O vínculo apresenta-se articulado aos conceitos de humanização, responsabilização e da integralidade do cuidado, onde através do envolvimento entre os diferentes sujeitos envolvidos é capaz de fazer uma aproximação mútua entre estes indivíduos. Assim, o robustecimento do vínculo entre a equipe de determinado serviço e o usuário torna-se de grande relevância, ao passo em que a ligação destes pontos levam ao favorecimento e a produção do cuidado mediante uma relação de confiança e partilha de comprometimento. “Não existe uma rede ideal, existem atores na rede que oferecem proteção ou representam riscos, e que influenciam os processos de saúde e doença.” – Nazareth Malchier
Situação de Rua, Vínculo, Cuidado Extramuro
MARIANA CARDOSO DA SILVA, SUSAN CARLA PEREIRA RODRIGUES, ALESSANDRA MARIA PEDROSO MENDES, PAULA ROBERTA PEDRUCI LEME