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Os desafios da demanda cotidiana, agravados pelo contexto pós pandêmico da COVID 19, tem resultado em altos índices de sofrimento e adoecimento físico e psíquico entre crianças e adolescentes. Problemas como ansiedade, insônia, dificuldades de concentração, medo, cansaço, desânimo, desesperança, tristeza persistente, isolamento social, automutilação e pensamentos de autoextermínio, tem sido freqüente queixa nos acolhimentos e atendimentos realizados pelo CAPS IJ do município de Rio Claro. Diante deste cenário implantamos o grupo mover: cuidando do corpo e das emoções, proporcionando a capacidade de expressar as emoções através do corpo, da dança, da música, do teatro, desenhos e em outras atividades elencadas pelos usuários participantes. As atividades de expressão corporal trabalham a coordenação, a sensibilidade auditiva, o tempo, a dimensão do espaço, harmonia, ritmo e flexibilidade. Trazem grande paz de espírito, e quando realizada em grupo, proporciona a convivência social saudável e benefícios para o organismo. Ao longo de nossa vivência na saúde mental, percebemos que os diversos conceitos de saúde mental abrangem, entre outras coisas, o bem-estar subjetivo, a autonomia, a competência e a auto-realização do potencial intelectual e emocional da pessoa. Numa perspectiva transcultural, é quase impossível definir saúde mental de uma forma completa e única.
Proporcionar um espaço de convivência e cuidado, visando ampliar a consciência e percepção do corpo, das tensões musculares, dos movimentos, da respiração, do pertencimento, da identidade, das sensações e dos sentimentos, promovendo maior integração entre mente e corpo, restabelecendo um fluxo de energia corporal e aumentando a vitalidade. Proporcionar um cuidado em saúde mental de maneira mais acolhedora, descontraída e prazerosa, rompendo com o estereótipo dos atendimentos clínicos individuais e setting terapêuticos rígidos e ampliando a maneira de ouvir e ver tais usuários. Com enfoque sempre na qualidade de vida do sujeito, proporcionando cada vez maior autonomia e recursos de cuidado para os envolvidos, compreendendo os atravessamentos da vida.
O grupo é realizado semanalmente por uma dupla técnica Psicóloga e Assistente Social, com duração de uma hora, previsão de participação aproximadamente de oito adolescentes do sexo feminino, com idade superior a 12 anos. Após o acolhimento inicial pela equipe técnica, as adolescentes que apresentam os critérios para inserção no grupo são agendadas para inicio imediato. São realizadas rodas de conversa; temas abertos e programados; dinâmicas de grupo; dança, teatro, musica, automassagem, relaxamento e pintura. Para início do grupo é estabelecido um contrato terapêutico (assiduidade, não usar celular durante o atendimento, usar o sanitário antes de entrar no grupo, sigilo, usar roupas confortáveis). O ambiente é preparado com tatame, almofadas, musica ambiente, sala aromatizada.
Durante o ano de 2023 foram realizadas atividades com musica, desenho, pintura, relaxamento, dança com montagem de coreografia, rodas de conversa. Observamos inicialmente grande dificuldade na participação das adolescentes, principalmente timidez. Aos poucos o grupo foi se conhecendo e podemos verificar que a ansiedade, dificuldades no relacionamento familiar, questões de gênero e sexualidade e ambiente escolar foram assuntos em comum. A falta de assiduidade das adolescentes reflete as dificuldades que a família apresenta no comprometimento com o trabalho realizado, não dando a devida atenção a queixa apresentada. Com as adolescentes que apresentaram assiduidade, conseguimos observar grandes avanços em termos de socialização, timidez, posicionamento sobre assuntos polêmicos e diálogo sobre as questões pessoais e familiares de cada uma, possibilitando a identificação entre as usuárias, as quais muitas vezes tiveram vivências semelhantes. Outro aspecto positivo foi à articulação de soluções em conjunto e que faziam sentido para elas.
É possível perceber certo sofrimento das adolescentes, com relação as suas diversas dificuldades emocionais e comportamentais, o que em sua grande maioria acarreta em distúrbios emocionais e/ou dificuldades de socialização, além do grande sofrimento psíquico envolvido. Poder trabalhar com adolescentes nos atrai e desafia, haja visto que eles estão em constantes mudanças e transformações e incluir espaços mais soltos e em sintonia com manifestações artísticas amplia o olhar de cuidado de maneira mais lúdica, ajudando no processo de despatologização do sujeito, dando importância para as falas e movimentos apresentados, ampliando nossa capacidade de escuta e percepção, buscando sentido em suas vivências. “Borboleta parece flor que o vento tirou pra dançar Flor parece a gente Pois somos semente do que ainda virá” Canção: Sonho de Uma Flauta Fernando Anitelli
Expressão, corpo, emoções, convivência
Jociellen Fernanda Goia de Souza, Juliene Patricia Antonio, Marina Vieira