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Atualmente, há uma busca pela oferta de cuidados em saúde que tragam ao usuário dos serviços a noção de que é sujeito ativo no seu bem estar, expandindo a noção de cuidado que vai além da lógica médico centrada, de queixa-conduta, chegando a uma visão ampliada, que entende a promoção e prevenção como importantes para a saúde. Assim, em Campinas, as Unidades Básicas de Saúde (UBS) se apresentam como dispositivos capazes de atuar nesse referido processo de mudança de paradigma, visando construir junto do usuário linhas de cuidado que tenham ele como central em seu processo, sendo, assim, corresponsável pela sua saúde. Dentre as tecnologias usadas, os grupos se apresentam como dispositivos férteis para intervenções. No caso, em dois centros de saúde de Campinas, foi possível, a partir de grupos de Movimento Vital Expressivo (MVE),o desenvolvimento da proposta de construção, junto dos usuários do SUS, da noção e do processo de conscientização sobre a ideia central de que a saúde é um processo multifatorial e que depende da ação conjunta e colaborativa entre sujeito e profissionais da área. O MVE é uma prática que integra um Sistema de desenvolvimento humano denominado Rio Abierto. Ele é uma prática corporal que faz o uso da música e da movimentação do corpo como principais instrumentos a partir do qual podem ser trabalhadas questões diversas, que vão desde benefícios ao corpo físico até ao emocional e psíquico. O presente relato de experiência traz vivências em dois grupos.
Os grupos de MVE nas UBS’s têm como objetivo central serem espaços de cuidado em que a promoção da saúde é o elemento principal. Entretanto, considerando a prática em específico, os objetivos dos grupos desenvolvidos nos serviços de saúde tornam-se mais amplos. O estímulo à busca por um cuidado para com a própria saúde em meio à rotina diária; o incentivo à prática de atividades físicas; o uso do espaço para cuidado e vinculação dos usuários entre si, entre profissionais do serviço e com o serviço; a criação e o cultivo de um local de cuidado que se expande para além dos consultórios médicos e se integram dentro do território, do próprio cotidiano de cada cidadão; a construção conjunta de espaços protegidos para a experimentação de outras formas de ser, diferentes das habituais e cristalizadas ao longo da vida, quebrando, assim, mecanicidades e lógicas que antes dificultavam o processo de busca pelo próprio bem-estar. Esses também se apresentam como objetivos dos grupos de MVE.
O presente relato diz respeito as UBS Jd. Aurélia e Jd. Eulina, que abrigam uma mesma equipe Emulti. Os grupos de MVE acontecem semanalmente nos locais, desde o mês de maio de 2024, sendo ambos coordenados pela Terapeuta Ocupacional da equipe, que é formada como instrutora da prática. Na primeira UBS, dois locais já atuaram como sede para a referida proposta de cuidado: a praça de esportes do território e o centro de convivência, próximo ao local. Já na segunda, um único espaço atua como sede: a associação dos moradores do bairro, localizada ao lado da UBS. Primeiros integrantes dos grupos foram usuários que participavam de outras atividades dos serviços. Com duração de uma hora, semanalmente, o grupo passou a acontecer sem necessidade de inscrição prévia, pois o objetivo principal é, justamente, permitir que o indivíduo, desde a sua chegada, possa se sentir livre para fazer parte do seu processo de cuidado. Agentes Comunitárias de Saúde e demais profissionais da Emulti mostraram-se como importantes, pois em seus contatos diários com as integrantes permitiram convidá-las a participar. De forma geral, a rotina dos grupos se configura como: chegada, recepção geral, alongamento, uso da música como recurso expressivo em que, sob orientação da instrutora, movimentos são propostos com intenção de possibilitar a experimentação que cada um vem a ter do próprio corpo, momentos de livre expressão, finalização da aula com espaço final para fala e compartilhamento.
Os resultados observados nos grupos são amplos e diversos. Aqui, constam percepções da instrutora do grupo, identificadas a partir de observações clínicas e também por meio dos diálogos com os integrantes dos grupos. Em ambos os grupos de MVE, benefícios no corpo físico das integrantes foram visíveis: diminuição de dores, maior flexibilidade e melhoras na coordenação motora e no equilíbrio. Em relação a aspectos emocionais, tem-se: maior confiança, melhora na autoestima, senso de capacidade, sentimento de liberdade para movimentação e expressão de si. Em termos sociais, identificou-se: formação de vínculos de amizade e busca por maior cuidado da própria saúde a partir de práticas de atividade física e do desenvolvimento de relações de afeto entre pares. Em todos os âmbitos listados, os resultados percebidos ficaram evidentes na vida cotidiana de cada integrante: redução no uso de medicações para dores e também para tratamento psiquiátrico; maior disposição para cuidado de si; participação em outros círculos sociais (em outros grupos do território e até acessando locais que precisam ou desejam); e interrupção do uso de dispositivos como joelheiras para estabilizar articulações que antes estavam instáveis. Assim, aqui, percebe-se a postura ativa de cada usuária para com a própria saúde, em um processo em que muitas conseguem hoje identificar que melhoras em suas vidas diárias decorrem da presença no grupo, constância e um olhar mais cuidadoso e atento para si mesmas.
O MVE é uma prática presente no SUS Campinas desde a década de 1990. Há todo um histórico de sua inserção dentro, principalmente, da Atenção Primária à Saúde, nas UBS. Esforços de profissionais do SUS e também da clínica responsável pela formação de novos instrutores marcam a história dessa prática. A partir desse relato, o objetivo foi trazer um pouco da referida experiência e de seus benefícios no processo de promoção em saúde da população, incluindo-a e considerando-a protagonista de seu processo de cuidado. Assim, a partir de reflexões geradas com a experiência dos 2 grupos, que continuam a existir, são levantadas as seguintes considerações finais: há, ainda, a necessidade de expansão dos grupos, visando atingir um maior número de usuários, pois o processo de cuidado para com a própria saúde é contínuo e está em constante movimento; percebe-se, ainda, um número maior de mulheres dentro dos grupos (apenas um homem esteve presente, em grupos que variam de 15 a 20 integrantes por dia), o que indica ser a população masculina, ainda, um grupo a ser buscado; a formação de novos instrutores também é um fator colocado criticamente como importante, pois a presença de profissionais capacitados na rede SUS de Campinas.
Prática corporal, música, movimentação do corpo.
BARBARA EVELIN DENADAE, BRUNA AMORIM DA SILVA, GIOVANNA BEATRIZ TERTO DE OLIVEIRA, MARIA EDUARDA SANTOS DA SILVA, LARISSA MAYUMI MORIYA