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Identificamos como aspectos motivadores para a realização deste trabalho, a percepção da equipe do CAPS e a demanda da coordenação do SAICA em retomar as atividades iniciadas em 2019. Estas atividades estavam apresentando respostas satisfatórios em relação ao envolvimento dos adolescentes abrigados naquela época. Em decorrência da pandemia do COVID 19 as atividades foram suspensas e retomadas em 2023. Outro aspecto que impulsionou a retomada de tais atividades diz respeito a crença que temos na potência da atuação extramuros do CAPS, no contato concreto com o território entendendo suas contradições e demandas de saúde mental. A equipe partiu ainda da observação de queixas de familiares, escolas e outros serviços do aumento do uso de substâncias psicoativas, com destaque para as drogas K; todavia, notamos a dificuldade de acesso destes usuários ao CAPS e quando inseridos um baixo índice de adesão deste público ao PTS. UA SAICA Carrapicho II, onde foram realizadas as atividades, é um equipamento da rede socioassistencial que busca assegurar a proteção integral de indivíduos e famílias. Neste caso, trata-se de uma unidade para acolhimento e proteção de adolescentes entre 12 e 17 anos afastados do núcleo familiar, que se encontram em situação de abandono, ameaça ou violação de direito. Esta unidade possui capacidade para acolher uma média de 20 adolescentes, localizada na região de Itaquera, Jardim Nossa Senhora do Carmo, área de abrangência do CAPSIJ Cidade Líder.
O trabalho relatado teve como objetivo possibilitar práticas extramuro de prevenção de agravamentos em saúde mental pela desmistificação da saúde mental circunscrita apenas ao espaço físico dos equipamentos, visando processo de inclusão social e participação comunitária conforme sugerido pela Lei.10.216/2001. Promover acesso ao serviço e a política de redução de danos com vistas a reinserção social da criança e do adolescente em uso abusivo de substâncias psicoativas e sofrimento psíquico, por meio de ações que possibilitem o protagonismo, autonomia e sociabilidade.
Trata-se de um relato de experiência desenvolvida por técnicos do CAPS IJ Cidade Líder em conjunto com adolescentes abrigados em SAICA de passagem na região de Itaquera, no bairro de Nossa Senhora do Carmo entre os meses de maio e dezembro de 2023. Nesta atividade foram envolvidos dois educadores, escolhidos aleatoriamente pela coordenação da casa para acompanhar os educandos nas atividades propostas pelo CAPS. Os encontros aconteceram às terças-feiras das 10h às 12h no SAICA Carrapicho II. Os encontros aconteceram tanto em um espaço interno da casa, com uma área coberta onde os adolescentes faziam suas refeições e uma área aberta de frente para o refeitório, quanto em espaços externos, em passeios e atividades promovidas pelo CAPS, como o “pipaço” no Parque do Carmo, no contexto do setembro Amarelo e a Copa da Inclusão no SESC Itaquera. Foram utilizados materiais gráficos, cartolinas, vídeos, cartões temáticos, jogos interpretativos com simulações de situações retiradas da realidade contextual destes adolescentes, materiais lúdicos e instrumentos musicais para realização dos encontros.
Embora este trabalho ainda esteja em andamento podemos observar alguns resultados importantes para traçarmos os próximos passos. Ao longo de oito meses os adolescentes puderam falar sobre sentimentos presentes em sua trajetória de vida ainda tão curta quanto densa e rica em experiências diversas e adversas. A narrativa de abandono, ressentimentos, violências, arrependimentos, saudade de figuras parentais e cenas familiares, estas e outras memórias contextualizando as discussões sobre temas do cotidiano, direitos, deveres e cidadania. Assim os adolescentes puderam falar dos medos sentidos e imputados aos outros, da identificação com corpos constituídos a partir do estigma da periculosidade, do louco e do “zumbi”, corpos ameaçadores e indesejáveis que perambulam sem rumo pelo centro até as periferias desta cidade. Nesta medida as atividades movimentaram aspectos importantes da política de saúde mental a medida em que ações realizadas puderam expressar de forma ampliada seu caráter substitutivo à alternativa manicomial, possibilitando a criação de mecanismos e lugares para a produção do cuidado baseada no resgate da autonomia dos adolescentes abrigados, suas histórias de vidas produtoras de sofrimento psíquico, proporcionando novos espaços para reconstrução de suas vidas e em certa medida o reencontro com sua história social e valorização de aspectos culturais antes outrora marginalizados.
A experiência de 2023 com os adolescentes do SAICA nos mostrou a necessidade de incentivar a autonomia dos adolescentes possibilitando um espaço de respeito, acolhimento, escuta e conscientização de suas potencialidades, espaço de troca e provocação de reflexões, construções coletivas que resultaram em atividades com sentido prático para a vida dos envolvidos. Embora este trabalho ainda esteja em andamento no ano de 2024, podemos concluir em relação as atividades e experiências vividas em 2023, que temos o desafio de garantir através destes e de outros espaços de cuidado o resgate da dignidade e do respeito destes indivíduos, por meio de iniciativas que habilitem estes adolescentes a ressignificar sua história, seu cotidiano e forma de estar em sociedade.
SAUDE, MENTAL
Ana Rita dos S. Ferreira, Antonio C. de Barros, Michelle F. Batista, Ana Paula Lima Oliveira