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Até agosto de 2024, o município de Suzano/SP contabilizava mais de 1.800 crianças menores de três anos aguardando consulta com neurologia infantil. Grande parte desses encaminhamentos ocorria por queixas inespecíficas relacionadas ao desenvolvimento, o que sobrecarregava a atenção especializada e comprometia o acesso oportuno de crianças com maior gravidade clínica. Esse cenário evidenciava fragilidades na vigilância do desenvolvimento infantil na Atenção Primária à Saúde (APS) e sinalizava a necessidade de reorganização do cuidado no território. A elevada demanda reprimida na regulação não representava apenas um problema de oferta de consultas especializadas, mas também apontava para a necessidade de qualificar o acompanhamento longitudinal e fortalecer a APS como coordenadora do cuidado na Rede de Atenção à Saúde. A partir de provocação da Coordenação da Atenção Básica, a equipe da UBS Palmeiras iniciou um processo de revisão do fluxo assistencial voltado às crianças de 0 a 36 meses. A proposta consistiu na estruturação de uma linha de cuidado que priorizasse a intervenção precoce, a vigilância ativa do desenvolvimento e a qualificação criteriosa dos encaminhamentos, reafirmando o compromisso da unidade com a integralidade e a resolutividade do cuidado.
A experiência teve como propósito implantar uma linha de cuidado multiprofissional voltada às crianças de 0 a 36 meses, promovendo vigilância ativa e intervenção precoce diante de alterações no desenvolvimento infantil. Buscou-se também qualificar os encaminhamentos à neurologia infantil e a outras especialidades, reduzindo demandas inadequadas na regulação e fortalecendo a capacidade resolutiva da Atenção Primária à Saúde.
A experiência foi iniciada em setembro de 2024, a partir da reorganização do processo de trabalho na UBS Palmeiras, sem ampliação de recursos financeiros. A estratégia baseou-se na realocação de agendas, na articulação da equipe multiprofissional e na revisão dos critérios de encaminhamento. A equipe, composta por profissionais de enfermagem, medicina, psicologia, fonoaudiologia, nutrição e odontologia, estruturou uma agenda semanal fixa organizada por faixa etária, contemplando crianças de 3 a 36 meses. O acompanhamento passou a ocorrer de forma integral, com atendimentos multiprofissionais articulados e discussão interna dos casos em que fossem observadas alterações no desenvolvimento. Os encaminhamentos à neurologia infantil e a outras especialidades passaram a seguir critérios clínicos bem definidos, priorizando situações com indicação consistente. Paralelamente, a equipe produziu materiais lúdicos para orientar as famílias quanto às atividades de estimulação adequadas a cada idade, fortalecendo o cuidado compartilhado e o protagonismo familiar. Todo o processo foi construído com foco no acompanhamento longitudinal, na qualificação técnica das avaliações e no fortalecimento do vínculo com as famílias, reafirmando a APS como coordenadora do cuidado na rede municipal.
Ao longo de 12 meses de implementação, 365 crianças foram atendidas na faixa etária de 0 a 36 meses, com média de 150 crianças agendadas. Apesar do número expressivo de acompanhamentos realizados, apenas três crianças menores de três anos necessitaram encaminhamento para neurologia infantil, sendo um caso de prematuridade com atraso no desenvolvimento e dois por crises convulsivas. Além disso, 15 casos passaram a ser acompanhados no GADI após os três anos de idade, conforme necessidade identificada no percurso assistencial. Observou-se redução de encaminhamentos inadequados e qualificação da demanda regulada, com impacto direto na organização da regulação municipal. A experiência também fortaleceu o vínculo com as famílias, ampliando a procura espontânea pelo acompanhamento e consolidando a unidade como referência no cuidado ao desenvolvimento infantil no território. Os resultados demonstram que a reorganização do processo de trabalho na APS pode produzir efeitos concretos na qualificação do acesso à atenção especializada, garantindo que os encaminhamentos ocorram de forma criteriosa e fundamentada.
A linha de cuidado estruturada na UBS Palmeiras evidencia que a Atenção Primária à Saúde possui capacidade técnica e organizacional para responder de forma resolutiva aos desafios relacionados ao desenvolvimento infantil, mesmo em contextos com recursos limitados. Ao fortalecer a vigilância ativa, promover intervenção precoce e qualificar os encaminhamentos, a experiência contribui para a reorganização da regulação municipal e para o uso mais adequado da atenção especializada, assegurando que cada criança receba o cuidado necessário no momento oportuno. A iniciativa reafirma os princípios do Sistema Único de Saúde — universalidade, equidade, integralidade e coordenação do cuidado — ao demonstrar que nenhuma criança deve aguardar um diagnóstico para ter acesso ao acompanhamento e às intervenções necessárias ao seu desenvolvimento. Trata-se de uma experiência com potencial de replicação em outras unidades, por demandar essencialmente reorganização do processo de trabalho, integração multiprofissional e fortalecimento da APS como ordenadora da Rede de Atenção à Saúde.
cuidado, multiprofissional, infantil, neurologia
CRISTIANA FERREIRA COSTA, ADRIANA DIAS DE SOUSA, ALESSANDRA DA SILVA CONDÉ, ALINE ROBERTINA DOS SANTOS UEDA, CAMILE LARISSA FERREIRA, DANIELI DA SILVA SAMPAIO SECCO, DARILDES MARIA DE MENEZES, THAYNA LARISSA SILVA BRITO, EDNA VIEIRA DE ARAUJO SOUSA, ELAINE CRISTIANA RODRIGUES VIAGGI, PATRÍCIA NIETO CARVALHO