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Encontrar uma definição única para o espaço da rua, ou mesmo para território, é tarefa árdua, como diria Milton Santos, pois cada categoria possui diversas acepções, recebe diferentes elementos de forma que toda e qualquer definição não é uma definição imutável, fixa, eterna; ela é flexível e permite mudanças. As equipes de Consultório na Rua – CNAR hoje acomodadas a partir das politicas de Atenção Básica possuem fundamental relevância no que tange a abordagem e a iniciativa de se pensar estratégias de cuidado a partir da rua, e não somente enquanto espaço físico, mas ainda enquanto espaço de produção de vida e subjetividade dos sujeitos. Neste bojo, os Centros de Atenção Psicossocial – Caps no avanço da Reforma Psiquiátrica vem ainda encarando o constante desafio do cuidado para “além dos muros”, e nesta perspectiva os serviços vem tomando a rua enquanto componentes de suas estratégias, visando não somente a produção do cuidado, mas ainda a possibilidade de se pensar a saúde mental para além da “doença”. Neste sentido, considerando serem as cenas de uso espaços perpassados por relações sociais peculiares e não totalizadas, sendo fundamental a aproximação e contato de equipes, na zona norte de São Paulo, a partir da identificação de um expressivo aumento de pessoas em situação de rua em dado território, equipes de Atenção Básica e Saúde Mental atualmente gerida por uma Organização Social, tiveram a iniciativa de realizar um projeto de ações na rua, denominado “Nós na Rua”.
Este trabalho tem por objetivo principal apresentar a trajetória para construção de um projeto de abordagem assistencial na rua dos profissionais do CNAR e dos CAPS AD III Santana, CAPS II Jaçanã e CAPS IJ III Santana, especialmente nas cenas de uso do território adscrito do Tremembé, através da implantação de Questionário de Observação – Ação que tem como proposta a identificação de dados epidemiológicos e marcadores sociais e de saúde das pessoas com sofrimento ou transtorno mental em geral, incluindo aquelas com necessidades decorrentes do uso de crack, álcool e outras drogas que ocupem este espaço geográfico, garantindo a integralidade de ações que se destinam ao cuidado ao usuário, através um processo seguro e cuidadoso durante o percurso da equipe na rua, validando sua estruturação a partir de uma abordagem qualificada; uma escuta breve; intervenções de cuidado e manejos a cenas e situação extremas.
Com base nos dados preliminares recebidos pelo território e da Secretaria Municipal de Saúde, em agosto de 2024 foi definida a necessidade de realizar identificação epidemiológica desta “nova cena de uso”. Assim, dispomos enquanto metodologia a seguinte trajetória: •reuniões / grupos de trabalho semanais para elaboração de estratégias de abordagem local; •combinado que as equipes consolidariam um dia e horário fixo para melhor vínculo ao território, de modo a garantir a presença permanente de equipe de saúde na rua, disponibilizando uma escuta breve aos usuários, e podendo ainda dispor de intervenção por atividades e ações lúdicas, como samba, sarau, cinema, entre outros; • as abordagens devem seguir as orientações realizadas pelo Programa Redenção sobre as atividades das equipes nas ruas; • identificado a relevância de ações conjuntas com outras secretarias, visando a ampliação do escopo de atuação dessa equipe; •as abordagens precisam ainda estar pautadas por uma cartografia através de registros individuais (usuário) e coletivos (cena/território), para ser possível a extração de dados epidemiológicos primordiais, como droga de predominância, se há gestantes, se há crianças ou não, entre outros; •houve a elaboração de fluxo de urgência e emergência em caso de necessidade de remoção de usuário por condição de saúde desestabilizada, que pode evoluir para um quadro clínico crítico, fluxo este contendo os devidos acionamentos e pactuado com território.
São resultados esperados e já em consolidação através das ações do “Nós na Rua”: •A melhoria do acesso das pessoas em situação de rua / usuárias de substâncias psicoativas do território, garantindo a oferta de cuidado adequado a partir da singularidade do sujeito; •O acesso dessa população a bens e serviços que facilitem a reintegração social; •Realizar cartografia do território, de modo a facilitar a relação oferta / demanda de cuidado; •Minorar os impactos sociais da presença dessas pessoas ao território, sendo essas ações também uma mediação possível com os atores do entorno; •Considerando as estratégias de Redução de Danos, as equipes devem considerar ações e atividades que facilitem o acesso dessa população a espaços de cultura, lazer, esporte e arte; •Estruturar atividades que facilitem a reconstrução e vínculos sociais dos usuários considerando suas condições de vulnerabilidade e com os vínculos familiares interrompidos ou fragilizados; •Planejar ações de prevenção e promoção de saúde em parceria com a UBS de referência, pensando ações coletivas e ampliadas, como campanhas de vacinação, testes rápidos, entre outros; •Planejamento de ações em gestão em saúde, através de dados que visam apresentar necessidades enquanto implementação de políticas e serviços. São indicadores desta ação: a)Epidemiológicos: perfil do atendimento, sexo, idade, gênero, raça, droga de predominância, gestantes; b)Produção: total de pessoas abordadas e total de encaminhamentos para
A noção de integralidade do cuidado significa que prover assistência de qualidade às demandas que envolvam estes sujeitos exige uma certa plasticidade de nossas equipes, que atuam paradoxalmente como “artesãos”, tecendo cuidados possíveis a partir do que forja a vulnerabilidade desse “outro” a quem prestamos assistência, e que os faz tão singular. Preconiza-se que uma pessoa que se apresente em qualquer porta de entrada do SUS deve ser encaminhada ao nível de cuidado que mais se adapta à sua necessidade atual, logo, consideramos aqui analisar uma inversão poética sobre a não apresentação desses sujeitos a nós, as nossas unidades, mas sim a nossa própria apresentação aos mesmos, deflagrando a rua enquanto “um consultório” possível, que escapa do real para o simbólico. Sendo assim, é fundamental que as equipes disponham de recursos práticos para criar estratégias que facilitem a sustentação do cuidado longitudinal dessa população, a partir de um modelo de assistência que intervenha a partir de diagnóstico situacional, trazendo para o território uma perspectiva mais próxima de sua realidade.
CAPS RUA
FERNANDA BELLIANTE PIVA, VINICIUS TADEU DA SILVA FERNANDES