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Este trabalho aborda sobre o processo de criação e desenvolvimento de uma Oficina de Geração de Renda no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) I do município de Bertioga. Em março de 2022, com a chegada de novos servidores públicos municipais para atuar no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) do município e, com a união de novas ideias e propostas de renovação das práticas do serviço, iniciou-se um intenso processo sistêmico de reorganização do trabalho. O intuito a princípio era começar uma transformação das práticas hegemônicas que naquele momento ainda pautavam-se em um modelo de cuidado biomédico medicalizante, consequentemente centralizado na figura do médico. O desejo era atravessado fortemente por aproximar cada vez mais o CAPS real do CAPS previsto pelas políticas públicas, que tem como eixo condutor o modelo da Reabilitação Psicossocial, conforme previsto pelo Ministério da Saúde (BRASIL, 2015). O desenvolvimento de atividades coletivas tornou-se um dos principais componentes dessa reconstrução. Em março de 2022 a equipe encabeçou a criação de uma Oficina Terapêutica para promover um espaço de participação social para os usuários. Esta Oficina pioneira deu origem a posterior transição à Oficina de Geração de Renda, tema deste relato.
• Objetivo Geral: – Criar um projeto de inclusão social por meio do eixo do trabalho na perspectiva da economia solidária • Objetivos Específicos: – Atuar na perspectiva da garantia do direito ao processo de reabilitação psicossocial de acordo com as políticas públicas. – Promover ações que objetivam a ampliação da autonomia, protagonismo social e poder contratual dos usuários.
Com a evolução da grupalidade entre os participantes da Oficina Terapêutica e a necessidade coletiva, entre usuários e profissionais, de expandir este projeto, iniciou-se o debate sobre a construção de uma Oficina de Geração de Renda a partir da Oficina Terapêutica existente. O primeiro passo foi promover rodas de conversas entre os usuários da Oficina e discussões com a equipe multiprofissional. Posteriormente, estabelecemos o público-alvo, por meio do entendimento de quais usuários poderiam ser beneficiados com o projeto e teriam o perfil para seu desenvolvimento. Elencamos os usuários com transtornos mentais graves que apresentam quadros cronificados e estáveis, porém com baixa participação social (presença de isolamento social, cotidiano restrito ao ambiente doméstico, papéis ocupacionais limitados e ausência de espaços de lazer). Entretanto, que apresentavam também potencialidades para o desenvolvimento das habilidades necessárias para a construção deste projeto. Nas rodas de conversa, elencamos pautas relacionadas à construção de uma oficina de geração de renda a partir da perspectiva da economia solidária, através da escolha da atividade econômica, o modo de operacionalização desta atividade e da divisão de responsabilidades entre os participantes. Atualmente a Oficina ocorre semanalmente, às quintas-feiras, das 9h30 às 11h e conta com dez participantes ativos.
As rodas de conversa possibilitaram ampliar o conhecimento dos participantes sobre o que é a construção de uma Oficina de Geração de Renda na perspectiva da Atenção Psicossocial e da Economia Solidária, alinhada ao conceito do uso do trabalho no campo da saúde mental que transponha apenas a perspectiva terapêutica para concebê-lo como recurso de produção de vida, inclusão social e, sobretudo do direito ao exercício da cidadania (LUSSI; MATSUKURA; HAHN, 2010). A atividade econômica escolhida foi a criação de um bazar, composto por brechó de roupas e bijuterias em conjunto com a comercialização de artesanatos confeccionados pelos próprios integrantes da Oficina. Nesse bazar, as roupas e bijuterias do brechó são provenientes de doações e os artesanatos confeccionados são pinturas em panos de prato. Semanalmente ocorre o planejamento dos bazares, concomitante à produção dos artesanatos, como o levantamento dos materiais necessários e confecção dos produtos. Os participantes se revezam entre a produção e a organização das roupas e bijuterias. Consideramos que a Oficina promoveu espaços de interação social e a possibilidade de resgatar o poder contratual dos participantes, além de propiciar o desenvolvimento de outros papéis ocupacionais. Entretanto, observamos ainda algumas limitações expressas pelos participantes em se sentirem pertencentes e se apropriarem da Oficina, necessitando constantemente serem apoiados e incentivados a atuarem de forma mais autônoma.
Em um município de larga extensão territorial como Bertioga, trabalhar o cuidado em saúde de homens e mulheres que experimentam modos de vida muito diversos e, sobreduto, que em sua maioria estão privados do acesso à renda e aos direitos sociais é um grande desafio. Quando pensamos na consolidação de uma oficina de geração de renda no contexto do CAPS Bertioga, identificamos ainda muitos entraves, seja pela ausência de subsídio financeiro, ou pelas diversas barreiras que os nossos usuários tentam sobrepor todos os dias para garantir a sua participação ativa na oficina. Nesse sentido, entendemos que alcançar os objetivos traçados lá no início perpassa pela compreensão de que as vivências são singulares e que o fortalecimento coletivo é processual e requer trabalhar continuamente para reinventar formas de se relacionar e de pensar o cuidado em saúde mental.
reabilitação psicossocial, economia solidária
Natalia Torres de Almeida Menezes, Flávia Rosa Rocha Machado