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O Transtorno do Espectro Autista (TEA) refere-se a um leque de deficiências no neurodesenvolvimento de origem idiopática, embora multicausal, implicando em prejuízos no comportamento e nos aspectos psicossociais da criança. Embora no Brasil haja uma escassez de dados epidemiológicos do TEA, reportada por Paula et al., (2011) com estimativa de 1 a cada 367 crianças, nota-se um expressivo aumento de diagnóstico nos últimos anos. Considerando o cenário, a Atenção Primária à Saúde (APS) representa a organização do sistema, promovendo equidade, facilitando acesso, qualificando a atenção e dando continuidade do cuidado por meio de estratégias coordenadas e articuladas conferindo integralidade. Nesse sentido, a Equipe Multiprofissional (e-Multi) tem relevância fundamental no seu fortalecimento, ampliando as práticas e aprimorando a resolubilidade do cuidado. Com base nos indicadores da Diretrizes de Atenção à Reabilitação da Pessoa com TEA (2014), que indicou as esferas de interação social, linguagem, brincadeiras e alimentação como sinais de identificação para o desenvolvimento, a e-Multi por meio de atividades compartilhadas de promoção à saúde pode contribuir para a detecção precoce, ou não, utilizando o ‘brincar’ como estratégia de estimulação por compreender que facilita o processo de desenvolvimento infantil podendo romper com o concretismo situacional e permitindo o simbolismo e perspectiva funcional da brincadeira.
Relatar o estabelecimento de um processo de trabalho pela equipe multiprofissional na Atenção Primária à Saúde através do Grupo de Brincar com crianças de até 5 anos com risco de TEA e seus pais como participantes no processo de estimulação.
Inicialmente, realizou-se o acolhimento individual das crianças e cuidadores observando elementos de risco ao TEA, como critério de elegibilidade à inserção no Grupo Brincar, o contato visual, reposta ao toque físico, interação, comportamento, intenção comunicativa e linguagem oral. Foram estabelecidos 10 encontros semanais para o Grupo, sendo que o 1o encontro foi para apresentar a proposta e objetivos do grupo. Do 2o ao 9o grupo foram destinados quinzenalmente aos Cuidadores para orientações de temas diversos com escuta ativa e, na outra quinzena, brincavam com as crianças sendo intermediado pelos profissionais. Semanalmente, as crianças permaneceram em atividades lúdicas estimulando a interação com os pares, profissionais e cuidadores. Finalizou-se com o 10o encontro com feedback do acompanhamento tanto dos profissionais quanto cuidadores. O desfecho contou com duas ações: a alta do acompanhamento e seguimento nas rotinas da APS ou o encaminhamento qualificado para o Centro Especializado em Reabilitação por identificar sinais característicos de TEA.
O Grupo Brincar teve duração de 3 meses, de março a junho de 2024, com encontros semanais. Ocorreram 10 encontros, destes 4 direcionados aos pais com as seguintes orientações: seletividade alimentar; desmistificando comportamentos; orientação sobre direitos; importância do brincar para a linguagem; medicalização. O brincar intermediado pelos profissionais contou com 4 encontros com participação e observação dos comportamentos dos cuidadores com as crianças e das próprias crianças nesse contexto coletivo. Os cuidadores eram apresentados ao momento lúdico e evidenciados quanto a importância da interação e da comunicação emitidas pelas crianças, como meio potencializador no processo de desenvolvimento infantil. Já as crianças participaram de 8 encontros. Nesses momentos, o brincar foi acompanhado pelos profissionais que reforçavam aos cuidadores a relevância e importância do valor simbólico e aplicação funcional às diversas formas, texturas e sons emitidas pelas crianças em atividade, bem como a análise e a capacidade de interação entre os pares durante o lúdico. O desfecho da organização do grupo culminou em adesão dos cuidadores que, ao receber as orientações e acompanhar as práticas, refletiram sobre a importância do brincar para a criança. A necessidade de encaminhamento externo foi minimizada, mas, quando necessária, foi feita de forma qualificada dado o acompanhamento no período.
Este relato apresentou a efetividade na construção e estabelecimento exitoso do processo de trabalho de uma equipe multiprofissional na APS. As crianças com risco para TEA de até 5 anos foram identificadas, acolhidas e inseridas em atividades de estimulação das quais foram analisadas e acompanhadas por 3 meses levando a elaboração de considerações consistentes pautadas na observação qualificada dos profissionais. Os cuidadores foram escutados e orientados sobre a importância do lúdico ao processo de desenvolvimento infantil bem como o estímulo ao reconhecimento das suas potencialidades do estabelecimento de vínculos por meio do brincar. A possibilidade de desenvolver esse processo no âmbito da APS, que é a ordenadora dos serviços de saúde, reforçou o pilar central da resolutividade efetiva local e redução de encaminhamentos desnecessários à especialidade. Vale ressaltar que esse processo de trabalho é complexo e exige atuação, integração e saber multiprofissional, requer respaldo da gestão, recursos e infraestrutura adequados para seu desenvolvimento e qualidade. Considera-se que essa foi uma prática exitosa, mas pondera-se que foi possível seu desenvolvimento por haver condicionantes locais que permitiram tal feito.
Autismo Atenção Primária Equipe Multiprofissional
WILLIAM AKIRA LIMA SHIMIZU DR.WILLIAMSHIMIZU@GMAIL.COM, VANESSA VARELLA LOURENÇO