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A experiência desenvolveu-se na Unidade Básica de Saúde do distrito do Cipó, no município de Embu-Guaçu, a partir da implementação do grupo “Mente Serena”, voltado ao cuidado de pessoas com sofrimento mental leve a moderado. Até então, a UBS não ofertava Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS) de forma estruturada. Com a criação do grupo, passou-se a incorporar práticas como auriculoterapia, aromaterapia, ventosaterapia, cranioacupuntura, musicoterapia e arteterapia, alinhadas à Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares no SUS. A equipe, composta por profissionais com diferentes formações, aderiu coletivamente à proposta. Mesmo aqueles sem formação específica em PICS contribuíram na anamnese, triagem, condução de grupos e oferta de cuidado biomédico — que, nesse arranjo, assumiu papel complementar e não central. A iniciativa representou mudança paradigmática: da lógica médico-psicológica ambulatorial centrada na consulta individual para um modelo territorial, longitudinal, multiprofissional e com intensa participação popular, reafirmando atributos da Atenção Primária à Saúde (APS)
Implementar a oferta estruturada de PICS no território como estratégia de cuidado em saúde mental na APS; reorientar o modelo assistencial, deslocando a centralidade biomédica para uma abordagem ampliada, interdisciplinar e centrada na pessoa; promover corresponsabilização e participação ativa dos usuários na construção do plano terapêutico; fortalecer vínculo, autonomia e práticas de autocuidado; ampliar a resolutividade da UBS por meio da integração entre saberes biomédicos e tradicionais, conforme diretrizes da política nacional de PICS.
Trata-se de relato de experiência com análise descritiva dos dados do grupo, desenvolvido conforme a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares no SUS, que orienta a inserção das PICS na Atenção Primária como estratégias de promoção, prevenção e cuidado integral. A experiência organizou-se como grupo aberto, contínuo e semanal, realizado na UBS, com convite ampliado via ACS, demanda espontânea e encaminhamentos internos. O modelo privilegia acesso, territorialização e longitudinalidade. A condução é multiprofissional (médica de família, enfermeira, psicólogas, assistente social). Acolhimento, anamnese breve e aplicação de PHQ-9 e GAD-7 antecedem a definição compartilhada do plano terapêutico, reavaliado a cada encontro. As PICS — auriculoterapia, aromaterapia, ventosaterapia, crânioacupuntura, musicoterapia e arteterapia — são ofertadas de forma integrada ao cuidado coletivo. O tratamento medicamentoso, quando necessário, assume caráter complementar. A metodologia enfatiza participação ativa, corresponsabilização e fortalecimento de vínculos, estruturando o cuidado em saúde mental na APS.
A implementação das PICS como eixo estruturante produziu efeitos quantitativos e qualitativos alinhados aos objetivos, evidenciando reconfiguração do modelo assistencial em saúde mental na APS. Foram registrados 70 participantes em 26 encontros, com perfil majoritariamente feminino (90,3%) e média etária de 53,6 anos. As médias de PHQ-9 (8,91) e GAD-7 (9,94) indicaram sofrimento leve a moderado. Houve 819 intervenções, sendo 623 PICS (˃70%), 72 biomédicas e 53 atendimentos individuais. A inversão da lógica assistencial evidencia-se ao observar que o cuidado medicamentoso deixou de organizar o processo terapêutico, assumindo papel complementar em plano centrado nas práticas integrativas. O grupo estruturou-se por tecnologias relacionais, pactuação compartilhada e reavaliação contínua, superando o modelo centrado na prescrição. A oferta de PICS associou-se à retenção: participantes que as receberam apresentaram média de 2,79 encontros, versus 1,00 entre os demais. A frequência foi quase três vezes maior entre quem acessou PICS. Maiores frequentadores eram mulheres mais velhas (60,59 anos); os de encontro único, mais jovens (49,48 anos) e majoritariamente sem PICS. Observou-se fortalecimento do vínculo, maior adesão ao autocuidado e redução da medicalização, consolidando dispositivo grupal territorial e multiprofissional centrado na pessoa.
A experiência evidenciou que a incorporação das PICS pode operar como vetor de mudança paradigmática na APS, deslocando o foco da doença para o cuidado integral e participativo. O engajamento da equipe, mesmo com formações distintas, foi determinante para sustentabilidade da proposta. Persistem desafios relacionados ao registro adequado de dados e à ampliação da oferta diante da limitação de profissionais habilitados. Contudo, os resultados apontam para consolidação das PICS como tecnologia leve-dura potente na saúde mental, com capacidade de promover vínculo, corresponsabilização e cuidado menos medicalizante. Como perspectiva futura, destaca-se a necessidade de qualificação permanente da equipe, fortalecimento da busca ativa e institucionalização das práticas como componente estruturante da atenção psicossocial na APS.
Terapias Complementares, Saúde Mental
SANNI SILVINO PARENTE, HASLLA NATALIE DE BARROS OLIVEIRA, YURI JEFF MARTINS DA SILVA, NATASHA SCOLARI TAVEIRA DE MAGALHÃES, JADERLINA FERNANDES MARQUES, SARA MENDES DE MATOS, ALICE MOREIRA NEVES PEDRÃO, ELIANE ALVES FARIA, JANE DE SOUZA DOMINGUES