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O cuidado em saúde mental, quando voltado à população em situação de rua (PSR), deve ser construído a partir do contexto de vulnerabilidade existente. Desta maneira, é importante que os serviços de saúde realizem ações integradas de modo a atender às diferentes necessidades dos usuários. Este relato de experiência aborda o cuidado a uma mulher em situação de rua, experienciando desorganização psíquica grave, sofrimento psíquico, uso abusivo de substâncias psicoativas, quebra de vínculo familiar, extrema pobreza, violência sexual, violência patrimonial e questões clínicas de saúde. No caso relatado, Maria*** saiu do território periférico em que viveu devido quebra de vínculo familiar. Caminhou do extremo da periferia de São Paulo-SP até o centro. Esteve em diferentes centros temporários de acolhimento e, por fim, instalou-se na região do Largo da Batata. Foi acompanhada pelo Consultório na Rua (CnaR) e durante avaliações in loco, em ago/2024, o CnaR identificou sofrimento psíquico, vulnerabilidade e exposição à violências. Inicialmente, a equipe tentou o manejo do caso in loco, realizando medicação assistida e visitas frequentes, porém, houve piora do quadro psíquico e, através do apoio matricial entre as equipes do CnaR e CAPS, foi solicitada avaliação no serviço de atenção secundária. O apoio matricial, o método clínico centrado na pessoa e a boa articulação entre serviços de atenção primária e secundária foram fundamentais para a efetividade do cuidado à paciente.
Essa experiência materializa a potencialidade do cuidado quando o sujeito é respeitado e também quando as equipes de saúde constroem um projeto terapêutico singular em conjunto, integrando sujeito, profissionais de saúde dos diferentes níveis de atenção do Sistema Único de Saúde e o território existencial. Por isso, essa experiência tem como objetivo descrever articulações entre serviços de saúde para atender uma mulher em situação de rua. Cuidado este, que só pode ser compreendido através da análise de um trabalho sistematicamente realizado por profissionais de saúde e de assistência social em um território da zona oeste de São Paulo.
Em nosso território há articulação intersetorial entre serviços de saúde dos diversos níveis de atenção e serviços da assistência social. Esta articulação se materializa em encontros mensais para discutir o cuidado à pessoa em situação de rua (Rede Rua), compostos por profissionais de Consultório na Rua, Centros de Atenção Psicossociais (CAPS) Adulto , Pronto Socorro, Hospitais, Centros Temporários de Acolhimento, Interlocutores Técnicos de Saúde Mental e Atenção Básica e supervisores da assistência social. Além da Rede Rua, há reuniões mensais de matriciamento entre os serviços de atenção básica (CnaR) e CAPS. Esses encontros permitem que profissionais construam em seus serviços projetos terapêuticos singulares que façam sentido ao usuário. Neste caso, equipe do Consultório na Rua levou a usuária Maria*** até o CAPS para uma avaliação inicial. Diante da disponibilidade de vaga, a equipe do CAPS a inseriu em acolhimento integral no mesmo dia. A princípio foi definida como prioridade a estabilização do quadro psíquico, uma vez que a usuária estava bastante agitada e com sinais de intenso sofrimento psíquico, como solilóquios, discurso desagregado e irritabilidade.
Ao longo das duas primeiras semanas e a gradual vinculação entre equipe do CAPS e usuária – muito fortalecida pela equipe do Consultório na Rua, foi possível identificar outras necessidades de saúde, como tratamento para escabiose, realização de exames, diagnóstico e tratamento relacionados à Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs), construção de nova prótese dentária (sua prótese anterior fora furtada em um dos serviços de acolhimento), apoio para elaboração de conflitos familiares e auxílio para ações de cidadania, como emissão de documentos e retomada de acesso ao Benefício de Prestação Continuada, pois Maria nos relatava que seu cartão de banco não estava em sua posse há bastante tempo. Maria teve estabilização de seu quadro psíquico, vinculou-se ao território e às equipes do mesmo e fortaleceu sua autonomia. No momento de alta, foi proposto à assistência social que a usuária fosse acolhida em centro temporário de acolhimento específico para mulheres, em local o mais próximo possível ao território para continuidade do cuidado, entretanto, não foi possível articular vaga específica para um equipamento da assistência social. Maria teve vaga fixa em serviço da rede de assistência social em outro território da cidade. Recebeu alta de nossos serviços e foi inserida em serviços de saúde do novo território de permanência para continuidade de cuidados. Não foi possível obtenção de nova prótese dentária, pois o município permite uma prótese dentária a cada cinco anos no SUS.
A intensa articulação entre as equipes permitiram que Maria fosse cuidada de modo integral, considerando suas demandas e vulnerabilidades enquanto mulher negra em situação de rua. Foi possível estabilizar seu quadro de saúde mental, restabelecer sua segurança física e garantir a continuidade de seus cuidados de saúde de maneira geral. Pontos de fragilidade foram a impossibilidade de articulação de vaga no serviço de assistência social mais próximo aos estabelecimentos de saúde em que Maria estava vinculada. Sua transferência de cuidado entre serviços dependerá de nova criação de vínculo entre as equipes responsáveis e a usuária. Também pode-se notar fragilidade em alguns serviços de saúde para garantir acesso à população em situação de rua, pois a obtenção de prótese dentária a cada cinco anos pode colocar a paciente em risco de insegurança alimentar até a obtenção de uma nova prótese dentária. As vulnerabilidades da vida da pessoa em situação de rua podem fazer com que seus bens sejam furtados, perdidos e/ou apreendidos e que novos materiais, como a prótese dentária neste caso, sejam necessários.
consultório na rua, saúde mental, cuidado em saúde
GABRIELA GONÇALVES CARNEIRO, PRISCILA ALVES DA LUZ, GABRIEL BAJADARES DA SILVA, MAUREEN DE ALENCAR FILONE