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A pandemia de COVID-19 constituiu-se como um marco histórico que produziu profundas transformações nas formas de organização social, nos modos de vida e, de maneira significativa, nos processos educacionais. Entre tais transformações, destaca-se a reorganização dos processos de ensino-aprendizagem, especialmente pela ampliação e consolidação da Educação a Distância (EAD) como estratégia pedagógica. Entretanto, no âmbito da saúde pública, a adoção da EAD apresenta desafios específicos, sobretudo no que se refere à sua articulação com os pressupostos da Educação Permanente em Saúde (EPS). Conforme apontam Higashijima et al. (2025), a EPS é compreendida como um processo educativo que ocorre no e pelo trabalho, tendo como princípios a problematização da realidade, a reflexão crítica sobre as práticas e a transformação dos processos de trabalho. Nessa perspectiva, o aprendizado não se restringe à transmissão de conteúdos, mas emerge das situações concretas vivenciadas pelos trabalhadores em seus cotidianos. Diante desse cenário, alinhar metodologias de EAD aos fundamentos da EPS constitui um desafio relevante. Na tentativa de superar uma concepção instrumental e conteudista da EAD, buscamos estratégias para ressignificar o uso dessa tecnologia educacional. O objetivo central dessas iniciativas é transformar a EAD em um dispositivo capaz de promover aprendizagem significativa, crítica e contextualizada, coerente com os princípios da Educação Permanente em Saúde.
O presente trabalho tem como objetivo relatar a experiência de trabalhadores integrantes de uma equipe de Educação Permanente de uma organização social atuante na região central do município de São Paulo no fomento à Educação a Distância como estratégia pedagógica alinhada aos pressupostos da Educação Permanente em Saúde (EPS). Busca-se evidenciar de que maneira a mediação tecnológica pode sustentar processos de problematização da realidade do trabalho em saúde, favorecendo a construção de aprendizagens significativas e contextualizadas. Ademais, pretende-se discutir os limites e as potencialidades do uso de modelos híbridos e virtuais no âmbito da saúde pública, com ênfase na indissociabilidade entre gestão, atenção e ensino. Nesse sentido, o trabalho visa contribuir para a consolidação da EAD como uma estratégia potente para a qualificação dos trabalhadores do Sistema Único de Saúde (SUS).
Elencamos algumas estratégias realizadas desde Janeiro de 2025 que potencializam os pilares da EPS para fomentar o uso do EAD. Foram realizados encontros periódicos com trabalhadores que são representantes da comissão de EP, destinados à identificação e discussão dos principais problemas vivenciados nos serviços. Tornou-se um espaço de criação e confiança nos quais os trabalhadores podem se expressar. Esse grupo teve a missão de representar a escolha das temáticas a serem abordadas no período, bem como na definição do cronograma das ações e se co-responsabilizam junto aos gestores na disseminação, acompanhamento e monitoramento na plataforma de ensino EAD. Usamos ferramentas como rodas de conversas, brainstorming e matriz de priorização para realizar uma gestão compartilhada. A atuação dos apoiadores institucionais como mediadores do processo educativo, articulando ações híbridas nos próprios serviços de saúde. Essas abordagens buscaram garantir coerência entre os princípios da EPS e as estratégias de EAD, reafirmando o potencial da EAD como dispositivo pedagógico crítico e transformador quando articulado às necessidades concretas do trabalho em saúde.
A implementação das estratégias de EAD articuladas aos pressupostos da Educação Permanente em Saúde produziu resultados relevantes. Observou-se aumento da participação nas atividades propostas, especialmente nos momentos híbridos de discussão, indicando maior reconhecimento da EAD como espaço de Educação em Saúde. A centralidade da problematização do cotidiano possibilitou maior aderência das temáticas às necessidades reais dos serviços, favorecendo a construção de aprendizagens significativas e contextualizadas. A escolha ascendente dos temas e do cronograma fortaleceu o protagonismo dos trabalhadores e ampliou a corresponsabilização pelos processos educativos, refletindo-se em maior compromisso com a disseminação dos conteúdos nos serviços. A gestão compartilhada entre trabalhadores, apoiadores e gestores contribuiu para reduzir a fragmentação entre gestão, atenção e ensino, reafirmando princípios estruturantes da EPS. Destaca-se o papel dos apoiadores como mediadores pedagógicos, fundamentais para a integração das ações virtuais ao cotidiano do trabalho por meio de estratégias híbridas. A valorização dos conhecimentos prévios e a constituição de espaços protegidos favoreceram a troca interprofissional e a construção coletiva do conhecimento, fortalecendo vínculos e ampliando a confiança no processo educativo.
Apesar das limitações relacionadas ao acesso às tecnologias e à sobrecarga de trabalho, tais desafios foram incorporados como elementos de reflexão, reafirmando o caráter crítico da experiência. A experiência demonstra que a EAD pode se constituir como uma estratégia potente para a EPS quando orientada por princípios pedagógicos críticos e participativos. O alinhamento entre EAD e EPS mostrou-se viável a partir da problematização do cotidiano, do protagonismo dos trabalhadores e da integração entre gestão, atenção e ensino. Os achados indicam que a mediação tecnológica, pode sustentar processos reflexivos e aprendizagens significativas quando vinculada às necessidades concretas do trabalho. Também evidencia a importância do apoio institucional e da atuação dos apoiadores como facilitadores do processo educativo. Reconhece-se, contudo, a necessidade de investimentos contínuos em infraestrutura, formação pedagógica e reorganização do trabalho, a fim de ampliar a sustentabilidade dessas iniciativas. Conclui-se que a incorporação crítica da EAD às estratégias de EPS representa uma oportunidade de fortalecimento dos processos de qualificação dos trabalhadores do SUS, contribuindo para a transformação das práticas.
EAD; EDUCAÇÃO PERMANENTE; SUS; EPS
GABRIEL RODRIGUES VIEIRA, CELSO ZILBOVICIUS, THAINARA DE LIMA SILVA, GESSICA CIBELE CZUY, TATIANE PEREIRA BASILIO, MARIA EDUARDA NASCIMENTO