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O mercúrio é uma das dez substâncias ou elementos químicos de maior preocupação para a saúde pública, devido sua toxicidade para os sistemas nervoso central, periférico, digestivo, respiratório, renal, cutâneo, imunológico e ocular. O mercúrio apresenta três formas químicas tóxicas: mercúrio metálico elementar; compostos orgânicos de mercúrio e sais inorgânicos. Apesar de estar na forma líquida, o Hg não é absorvido pela pele intacta e nem causa grandes problemas quando ingerido, pois, é absorvido no trato gastrointestinal. No entanto, por suas características físico-químicas ele volatiliza facilmente, em temperatura ambiente, promovendo na atmosfera circundante altas concentrações de vapores tóxicos. A principal origem da fonte antropogênica de mercúrio no Brasil é oriunda dos garimpos. Entretanto, nas áreas urbanas, a emissão de fontes difusas, principalmente a disposição de resíduos, têm se tornado a principal fonte de mercúrio nesses locais. Os efeitos da intoxicação por Hg tendem a aparecer em poucas horas após a exposição. Sintomas como mal-estar, mialgia, cefaleia, tonturas, diarreia, vômitos e dor abdominal, são comumente observados. No início de julho de 2020, no município de Santa Bárbara d’Oeste, 63 pessoas entre crianças e adultos sofreram exposição inalatória e dérmica a mercúrio na forma elementar. Devido a alta toxicidade do Hg, a justificativa desse trabalho relata as ações efetuadas no incidente de intoxicação coletiva no município de Santa Bárbara d’Oeste.
O presente trabalho tem o objetivo de apresentar os resultados das avaliações clínicas, epidemiológicas e ambientais envolvidas no episódio de intoxicação coletiva por mercúrio metálico ocorrido no município de Santa Bárbara d’Oeste (SP) em 2020, descrevendo e discutindo as medidas de controle da exposição, a mitigação e o controle ambientais realizados.
Em julho de 2020, no município de Santa Bárbara d’Oeste, cerca de 600 ml do metal mercúrio, foi recolhido por um adulto em uma empresa inativa de tecelagem de poliéster. Após o aparecimento dos pacientes com sintomas de intoxicação, a Vigilância em Saúde e a Defesa Civil municipal foram acionadas para investigar a ocorrência de um desastre ambiental. Nestes locais foram identificadas a presença de mercúrio metálico dentro dos imóveis, no pavimento asfáltico, nas calçadas e galeria de águas pluviais. A partir desse momento, uma sala de situação de monitoramento, com representantes do CIATox, GVE, CVS, IAL, Cetesb, Atenção Primária, Vigilância em Saúde, Assistência Especializada em Saúde, Assistência Social e Defesa Civil municipais, foi criada. O protocolo de gerenciamento de desastres foi aplicado, onde a primeira ação a ser tomada foi compilar o mapeamento das áreas afetadas. Os munícipes expostos foram submetidos a um questionário de sintomas e exames da dosagem de mercúrio em urina. Utilizando um analisador portátil de vapor de Hg, a Cetesb e a Secretaria Estadual de Saúde mantiveram vistorias periódicas nos locais afetados. Esse procedimento foi efetuado com a finalidade de dimensionar a magnitude do desastre ocorrido e monitorar as ações de mitigação implementadas. Os recursos hídricos também foram inspecionados pela CETESB e pelo Departamento Municipal de Água e Esgoto DAE, durante o ano de 2020 até o primeiro semestre 2022.
A VE municipal comunicou o CIATox de Campinas, que juntamente com a Atenção Primária à Saúde, executou a busca ativa de todos os expostos e coletou e enviou amostras de urina para o IAL. Do total das 63 pessoas investigadas, 46 tiveram exposição pelos critérios previamente definidos. Do total de expostos, 28 realizaram tratamento quelante com DMSA via oral. Cinco deles tiveram sinais e sintomas de intoxicação moderados e graves. Destes pacientes, quatro apresentaram concentrações elevadas de Hg na urina. Os munícipes intoxicados foram orientados a comparecer nas UBSs de referência, para retirar o medicamento (quelante). Este tópico foi produzido em uma Farmácia de Manipulação da cidade e custeado primeiramente pela Secretaria Municipal de Saúde e posteriormente pela SES-SP. Do ponto de vista ambiental, ocorreu severa contaminação do ar devido à facilidade de volatilização do produto e quatro residências foram interditadas pela Defesa Civil. A Cetesb realizou a estabilização do mercúrio metálico em superfícies utilizando enxofre. Além disso, foi efetuada a remoção e descarte dos objetos contaminados. Mais de 50 toneladas de resíduos foram recolhidos. Esta ação onerou um custo de mais de R$ 70.000 mil reais ao município. Em relação aos recursos hídricos, as 208 análises foram realizadas pelo DAEE e pela Vigilância Sanitária municipal, nenhuma amostra apresentou resultado acima do estabelecido pela Portaria MS 888/2021.
Considerando a complexidade do evento ocorrido, o trabalho inter setorial e multidisciplinar desencadeado no processo de identificação dos envolvidos, na assistência e no tratamento dos expostos, assim como as ações de caráter ambiental e de segurança pública, tais como o monitoramento e mitigação ambiental das localidades e dos objetos afetados, proporcionaram uma resposta rápida e articulada para controle do risco à saúde pública ocasionado pela manipulação inadequada do mercúrio. A interação entre os diversos entes envolvidos para o gerenciamento e condução das medidas requeridas frente ao desastre apresentado acentuou o conceito One Health ao proporcionar a interação de ações de cuidado humano, animal e ambiental. Ainda assim, considerando as dimensões encontradas, tais como o número de pessoas afetadas e tratadas, as elevadas concentrações de HgU, encontradas nos pacientes intoxicados, que jamais tinham sido relatadas em estudos clínicos observacionais do gênero, em um mesmo evento e a magnitude das intervenções ambientais necessárias para a mitigação do mesmo, este episódio, ocorrido em Santa Bárbara d’Oeste – SP, pode ser considerado como o de maior magnitude do gênero já ocorrido no território nacional.
Mercúrio, Intoxicação exógena, Contaminação.
Thiago Salomão de Azevedo, Miriã Tonus de Oliveira, Wilson José Guarda