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O cuidado em saúde mental exige flexibilidade e constante reinvenção dos profissionais que atuam nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). Usuários com transtornos psíquicos podem apresentar resistência ao seguimento terapêutico, demandando maior investimento da equipe para garantir acompanhamento adequado. Nesses contextos, torna-se essencial o esforço conjunto da equipe multiprofissional para identificar novas perspectivas de cuidado, o que implica na reconstrução contínua do Plano Terapêutico Singular (PTS). Essa ferramenta possibilita estratégias mais adequadas às necessidades e desejos individuais, fortalecendo vínculos e promovendo adesão, priorizando o cuidado em liberdade. Este relato apresenta três casos exitosos de usuários atendidos em um CAPS III de Santo André, nos quais a reconstrução do PTS resultou em significativa melhora na adesão terapêutica e na qualidade do cuidado em saúde mental.
Relatar experiências de usuários que, a partir da reconstrução do PTS, ressignificaram o cuidado em saúde mental. Evidenciar o papel do PTS como ferramenta dinâmica para promover vínculo, adesão e autonomia no tratamento.
Trata-se de relato de experiência desenvolvido por profissionais do CAPS III, a partir da construção e reconstrução do PTS de três usuários com histórico de baixa adesão terapêutica. O relato foi elaborado a partir da análise de prontuários, da discussão em equipe e do compartilhamento de impressões, considerando aspectos como a relação entre usuário, instituição e profissionais, o uso de medicamentos e a prevenção de crises, a participação em oficinas terapêuticas e a assiduidade nos atendimentos técnicos e psiquiátricos.
J.K, 60 anos, foi internado em hospital geral e subseqüentemente no CAPS durante crise psicótica, sem seguimento ativo prévio. Durante acolhimento em Hospitalidade Noturna- HN, demonstrou afinidade com a oficina de Yoga, por remeter à sua juventude. Há mais de um ano participa regularmente da oficina, ampliando sua flexibilidade e fortalecendo vínculos com profissionais. N.M, 52 anos, com histórico semelhante, internou duas vezes este ano em hospital geral sem acompanhamento no CAPS. Após acolhimento em HN, demonstrou interesse na oficina de culinária, que passou a integrar seu PTS. Há mais de seis meses participa assiduamente, ampliando habilidades e fortalecendo vínculos sociais, inclusive fora do CAPS. F.C., 35 anos, com histórico de várias internações prolongadas em hospital geral, recentes. Recusava acolhimento em HN no CAPS devido sintomas persecutórios. Foi construído PTS com foco em vinculação, incluindo medicação assistida e atendimentos breves diários. Atualmente está trabalhando e encontra-se estável há mais de seis meses. Os três casos evidenciam que a construção do PTS, pautada nas necessidades e afinidades dos usuários, potencializa a adesão ao tratamento, fortalece o vínculo com profissionais e com a instituição, contribui para a redução de crises e reinternações e amplia a autonomia e a participação social, demonstrando sua relevância como ferramenta dinâmica e transformadora no cuidado em saúde mental.
A experiência evidencia que o Plano Terapêutico Singular é uma ferramenta potente e dinâmica, capaz de transformar trajetórias de cuidado em saúde mental. Sua efetividade não depende apenas de medicamentos ou estratégias complexas, mas da escuta atenta e da valorização das necessidades e desejos dos usuários. A reconstrução contínua do PTS, aliada à plasticidade dos profissionais em reinventar práticas, fortalece vínculos e promove resultados significativos. Os casos relatados demonstram que o protagonismo do usuário no processo terapêutico é fundamental para a adesão e para a ressignificação do cuidado em saúde mental. O cuidado em liberdade otimiza tanto a possibilidade quanto a relevância da atenção em saúde mental, ao respeitar o sujeito, minimizar intervenções terapêuticas e priorizar as relações sociais. Esse movimento está em consonância com os princípios da luta antimanicomial, ao propor práticas que transcendem as amarras institucionais e incentivam o protagonismo individual na construção de sua trajetória de cuidado.
Projeto Terapêutico, Redução de Danos, Vínculo
CINTIA MAGALHÃES NEIA, ANDREIA GERALDA DO NASCIMENTO, EDLEINE PEREIRA DE ALMEIDA, ELIANA CONCEIÇÃO ZANATA