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O Plantão da Amamentação iniciou em 01/08/20 para comemoração do Agosto Dourado da UBS Morro Doce, idealizado pela enfermeira Camila, que após um puerpério turbulento e muita dificuldade em amamentar precisou de muito apoio profissional para iniciar e estabelecer a amamentação. O qual foi fundamental, porém dispendioso. Desde então ela teve como meta atender em livre demanda quem precisasse. Ela teve 120 dias de licença-maternidade e 1 mês de férias pós parto, em desequilíbrio com a recomendação da OMS do aleitamento exclusivo até o 6º mês. Ela foi a primeira pessoa a ordenhar e armazenar leite materno na unidade. No decorrer dos atendimentos, nos deparamos com outras mulheres na mesma situação, muitas tiveram que voltar ao trabalho antes dos 4 meses ou nem tiveram licença. A experiência adquirida precisaria se multiplicar. Começamos uma campanha de arrecadação de bombas-elétricas extratora de leite e potes de vidros com tampa de plástico. Tivemos doação de vários bairros do município e até de outros países. Nesse momento o plantão da amamentação seguia com o apoio de todos, em especial a enfermeira Ivete que desde o início apoiou a ideia do plantão, ajudou nos atendimentos em livre-demanda e começou a multiplicar as informações. Dra. Kamila foi fundamental para o apoio aos atendimentos, afinal a classe médica sempre foi relutante quando o assunto era aleitamento materno exclusivo. A auxiliar de Enfermagem Adriele, já havia trabalhado em maternidade e completou nossa equipe.
O objetivo da criação do Plantão da Amamentação é não medir esforços para aumentar o número de crianças amamentadas no território que abrange a UBS Morro Doce. Para tal temos algumas frentes de trabalho: 1) Atendimento em livre demanda a todos que tenham alguma dificuldade com amamentação; 2) Arrecadação de bomba-elétrica extratora de leite materno e potes de vidro com tampa de plástico para ordenha e armazenamento de leite materno. Esse material fica estocado na UBS Morro Doce; 3) Sensibilização de escolas de referência no território e empresas para apoio a ordenha e armazenamento de leite e oferta do leite materno aos bebes; 4) Trabalho contra a descredibilização do corpo feminino, onde, todo corpo é capaz de produzir leite materno em quantidade suficiente e que não existe leite materno fraco. 5) Mostrar o trabalho da indústria farmacêutica que, mesmo em um território tão vulnerável, insiste em vender fórmulas que dizem se assemelhar ao leite materno. Aqui somos resistência!
O presente relato de experiência se constitui uma revisão bibliográfica dos principais órgãos mundiais com o propósito de reafirmar as indicações e benefícios do aleitamento materno, quando oferecido exclusivamente até o sexto mês e complementado até dois anos ou mais. A Organização Mundial da Saúde (e todos os órgãos mundiais que trabalham com alimentação na primeira infância) preconizam que os bebês sejam alimentados exclusivamente com leite materno até os 6 meses de idade e complementados até 2 anos ou mais. Segundo o Ministério da Saúde o aleitamento materno é a forma mais econômica e eficaz contra a mortalidade infantil, diarreias, infecções respiratórias, alergias, entre outras doenças. A prevalência de aleitamento materno exclusivo no Estado de São Paulo (DATASUS, 2008) é de 60.7 dias até 30 dias de vida do bebê, 23.3 até 120 dias de vida do bebê e 9.3 após 180 dias de vida do bebê. A cidade de São Paulo apresenta um coeficiente de mortalidade infantil de 10,94 crianças para cada 1000 nascidos vivos, e o distrito de Perus/Anhanguera tem um coeficiente de 12,18. Considerando os baixos dados relacionados a amamentação e o número alto de óbitos infantis, sempre se fez necessário algum trabalho firme e sólido relacionado a amamentação com o desenvolvimento de ações efetivas para aumento do número de crianças amamentadas.
A cultura do desmame é aquela que normatiza o uso de chupetas e mamadeiras (primeira causa de desmame), descredibiliza o corpo feminino associando a misoginia e a sobrecarga materna ao leite insuficiente ou ao leite fraco, gancho aproveitado pela indústria farmacêutica para vender fórmulas, mesmo em territórios vulneráveis. O resultado desse trabalho de mais de 4 anos foi a sensibilização de todos da UBS Morro Doce para uma militância forte e coletiva a favor do aleitamento materno exclusivo e em livre demanda até o 6º mês de vida do bebê e complementado até 2 anos ou mais. Hoje todos falam a mesma língua, em especial os médicos, categoria historicamente mais difícil de sensibilizar. Ao nosso lado, hoje eles são apoiadores incansáveis do Plantão da Amamentação. Outro fato que parecia impossível também aconteceu: duas escolas (creches) do território passaram a aceitar o leite materno. Já temos dois bebês que seguem em uso de leite materno antes de terem atingido seis meses de vida. Finalizamos esse relato com a certeza de que trilhamos até aqui um caminho incrível, porém árduo e que temos muito o que crescer quando o assunto é amamentação.
A quem interessam as crianças não amamentadas? Quem lucra com o desmame precoce? “A interrupção da amamentação gera desperdício de US$341 bilhões ao ano, R$3,75 milhões em gastos que substituem o leite e mais R$1,57 milhões em assistência e tratamentos de saúde. Um bebê que usa fórmula láctea tem 138 prescrições a mais de antibióticos do que um bebê em aleitamento exclusivo. Um bebê que recebe aleitamento misto recebe 106 prescrições a mais”. (LINDER, 2020, p. 52, 54). Temos como foco o aumento da sensibilização de mais escolas da região para o recebimento, armazenamento e oferta do leite materno de forma segura e continuar arduamente a arrecadação de bombas elétricas extratoras de leite e potes de vidro com tampa de plástico para acolher em maior quantidade quem precisar se afastar do seu bebê antes dos seis meses de vida. Também ser espaço de apoio, escuta e orientação para todas as mães, familiares e rede de apoio para mostrarmos que é possível SIM trabalhar e ordenhar leite para o bebê. A responsabilidade da construção da primeira infância é coletiva!
amamentação, aleitamento materno, livre demanda
Camila Cezario Coutinho, Ivete Gonçalves Carnaúba, Adriele Correia Santos, Kamila de Araujo Mathias