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A construção de práticas intersetoriais entre a saúde mental e a assistência social tem se mostrado necessária diante da complexidade da vida dos usuários dos serviços. A proposta deste trabalho nasce da compreensão de que o usuário do Centro de Atenção Psicossocial – CAPS não pode ser pensado apenas pela via da saúde, mas em sua totalidade, atravessado por questões sociais, familiares, territoriais e de proteção. Foi a partir dessa necessidade que emergiu a prática de matriciamento entre o Centro de Atenção Psicossocial – CAPS III Praça Chile e o Centro de Referência Especializado de Assistência Social – CREAS III Parque das Nações. O matriciamento, tendo como base o Guia Prático de Matriciamento em Saúde Mental, é um novo modo de se pensar saúde – acrescentamos também a assistência social – , visando uma construção compartilhada de visões, de saberes e de práticas. Ou seja, é um espaço estratégico potente de diálogo, promovendo uma abordagem ampliada dos usuários dos serviços. Nesse sentido, este estudo estabeleceu como objetivo promover o matriciamento entre saúde mental e assistência social, e superar a fragmentação do cuidado aos usuários, fomentando uma compreensão integral do sujeito. Ao consolidar essas práticas, buscamos também ampliar e qualificar os espaços de troca de saberes entre os profissionais envolvidos, visando ao fortalecimento tanto das equipes quanto dos serviços partícipes.
Promover o processo de matriciamento entre a saúde mental e a assistência social, reconhecendo-o como eixo estruturante das práticas intersetoriais no território. Superar a fragmentação do cuidado direcionado aos usuários da saúde mental e da assistência social, promovendo uma compreensão integral do sujeito e de suas múltiplas dimensões. Ampliar e qualificar os espaços de troca de saberes entre profissionais da saúde mental e da assistência social.
O caminho percorrido para o desenvolvimento desta experiência foi concebido sob o princípio da corresponsabilização, e da construção compartilhada com ambas as equipes atuando como apoio matricial, oferecendo suporte mútuo e horizontal: o CAPS III Adulto ofereceu sua expertise em Saúde Mental, e o CREAS III forneceu seu conhecimento em Proteção Social Especial e violação de direitos, em um movimento de troca de saberes. Para viabilizar essa colaboração, estabeleceu-se uma agenda mensal, sediada no CREAS III Parque das Nações. As reuniões contaram com a participação de equipes multidisciplinares: assistente social, psicóloga e monitor de oficinas. (CAPS III) e assistentes sociais e psicólogas (CREAS III). Buscando otimizar o tempo e foco das reuniões, os casos eram selecionados previamente por cada serviço e as informações essenciais compartilhadas por e-mail, facilitando a preparação conjunta. Durante os encontros a troca ética de informações sobre os usuários e famílias visava a integralidade do cuidado e a pactuação de processos de trabalho, identificando potenciais a serem desenvolvidas no Projeto de Terapêutico Singular (PTS). Além disso, foram realizadas ações compartilhadas, como visitas domiciliares e atendimentos conjuntos, estratégias essenciais para avaliação ampliada e a construção de intervenções que integrassem efetivamente as dimensões de saúde e assistência social.
A experiência de matriciamento gerou resultados significativos no cuidado intersetorial, especialmente ao possibilitar uma maior compreensão do contexto familiar e comunitário dos usuários, superando a fragmentação do sujeito. Houve uma qualificação do olhar dos profissionais do CREAS, este avanço proporcionou maior clareza sobre a funcionalidade e papel do CAPS III Adulto dentro da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS). Por conseguinte, houve uma redução nos encaminhamentos indiscriminados, garantindo um melhor direcionamento e maior assertividade no cuidado, ao encaminhar o usuário ao serviço mais adequado às suas necessidades. O processo permitiu a efetiva integração do Projeto Terapêutico Singular (PTS), ao incorporar ações de proteção social cruciais que representavam demandas transversais à saúde mental – tais como habitação, trabalho e renda, educação, e convivência familiar e comunitária. Essas demandas são trazidas cotidianamente pelos usuários do CAPS, mas as possibilidades de intervenção não se esgotam no próprio serviço. O matriciamento veio, portanto, trazendo a possibilidade de ampliar a perspectiva de rede e de intervenção sobre esses fatores. Por fim, o processo consolidou o fortalecimento da rede, estreitando o vínculo institucional entre CAPS III e CREAS III. Esse fortalecimento se provou essencial para a articulação rápida e eficaz em situações de urgência e crise no território, garantindo um cuidado verdadeiramente integral e intersetorial.
O matriciamento entre CAPS III e CREAS III provou-se essencial para superar a fragmentação e garantir a integralidade do cuidado ao usuário em sua totalidade social. Essa prática horizontalizada gerou impactos diretos e significativos, como o aprimoramento do discernimento técnico dos profissionais do CREAS III, que resultou na otimização dos fluxos e na redução de encaminhamentos indiscriminados, garantindo o direcionamento correto do usuário ao serviço mais resolutivo. e permitiu a integração de ações de proteção social no PTS. Além disso, a prática fortaleceu o vínculo entre os serviços facilitando articulações rápidas em casos de urgência. Conclui-se que o matriciamento é uma ferramenta indispensável para fortalecer os profissionais e estruturar práticas intersetoriais, sendo recomendado sua institucionalização e expansão para a garantia de um cuidado verdadeiramente integral e cidadão.
Matriciamento, Intersetorialidade,Territorialidade
REBECCA NUNES ZERBINATO, MÜLLER DE OLIVEIRA MENDONÇA, RUTE ALVES PEREIRA, BRUNA BADOLATO