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Este trabalho traz o olhar da atual Equipe de Saúde Mental da Cidade de Pereiras, composta por: duas psicólogas, uma psiquiatra, uma técnica de enfermagem e a coordenadora do Programa Saúde da Família (PSF). Pereiras é uma cidade pequena, com aproximadamente 8.700 habitantes e com alto índice de transtornos mentais e dependência de SPA (substâncias psicoativas). Até Julho de 2022, não havia comunicação entre a Equipe de Saúde Mental com as equipes da ESF, ao qual toda a cidade é coberta pelo Programa Saúde da Família. Foram notificados 10 casos de suicídio de janeiro de 2022 a dezembro de 2023. Devido porte pequeno da cidade de Pereiras, não há CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) ou outro equipamento de atenção especializada, sendo os CAPSs de Botucatu referência de cuidado. Observamos que, devido à distância, há dificuldade da adesão ao tratamento pelos usuários. Sendo assim, a atenção especializada, a priori, tem sido abarcada pela Atenção Básica. Outro dado importante, é que Pereiras não possui equipamento de atenção secundária/terciária, os usuários são encaminhados para o Hospital de Conchas, o que dificulta a inserção de usuários com urgência psiquiátrica na regulação de vagas via Cross. A partir de Agosto de 2022, a equipe foi reconfigurada e então foi observado que os processos de saúde aos usuários com sofrimento mental não estavam condizentes com a proposta pelo SUS, em nível de atenção à saúde mental, então foram realizadas novas propostas descritas a seguir.
Implantar modelo de Saúde mental preconizado pelo SUS dada a especificidade e limitações socioculturais da cidade de Pereiras. Inserir práticas de humanização aos profissionais. Intervir para diminuição dos casos psiquiátricos gravíssimos no município, consequentemente diminuir índice de suicídios. Criação de uma lista de usuários que necessitam de avaliação psiquiátrica com urgência para serem encaixados na agenda da psiquiatra quando há falta dos usuários agendados.
Reuniões semestrais com toda a equipe de saúde para orientação e psicoeducação da nova forma de atenção à saúde mental do município. Com enfoque na prevenção e promoção da saúde mental. Também foi foco de discussões o acolhimento e escuta humanizada por todos os profissionais. Reunião mensal com equipe interdisciplinar para discussão de casos e criação de ações para promoção e prevenção. Reuniões intersetoriais: Com Secretaria de Assistência Social, Conselho Tutelar e Secretaria de Educação para discussão de casos complexos que perpassam questões de saúde. Mutirão em Setembro de 2022, junto às equipes de PSF, principalmente com as agentes de saúde, para mapear os usuários com demanda de Saúde Mental, aos quais até então não haviam sido avaliados. Modelo de atendimento compartilhado com as psicólogas, para ajudar na elaboração do Projeto Terapêutico Singular dos usuários portadores de sofrimento mental e para próprio resguardo das profissionais, visto a gravidade dos casos. Foi criado um dia específico para triagem de pacientes novos na semana. Criação do Grupo VIDA PLENA, junto a equipe do PSF para trabalhar questões de saúde mental de maneira lúdica e para adesão da população, visto que a cidade ainda vê como um tabu a temática. Em Setembro de 2023, ação sobre prevenção ao suicídio e promoção à Saúde Mental na Escola Estadual do município, onde se encontram a grande maioria dos jovens da cidade, visto que foi percebido que os adolescentes pouco procuram os serviços.
Percebeu-se maior responsabilização de toda equipe de saúde sobre os processos em Saúde Mental, não delegando apenas para a Psicologia e Psiquiatria e sim intervindo precocemente, tanto em promoção quanto no início de tratamento medicamentoso. A partir dos dados, observou-se uma diminuição no número de suicídios na cidade. Essa temática passou a ser trabalhada de forma mais aberta com a população, o que facilitou a procura dos profissionais pelo usuários em sofrimento emocional. Não há mais fila de espera para pacientes com necessidade de acompanhamento psicológico. O fluxo dos pacientes novos, para triagem e criação de PTS, agora com agenda semanal, facilitou para que o início do tratamento fosse o mais breve possível, prevenindo agravamento do caso. Também foi observado uma diminuição no número de pacientes agendados para a psicologia, maior número de alta devido estabilização do quadro e inserção dos usuários atendidos individualmente para outras modalidades de acompanhamento, como o Grupo Vida Plena, por exemplo. Pacientes mais estáveis sendo reencaminhados para continuidade do tratamento no PSF, liberando a agenda da psiquiatria para casos novos e/ou urgentes. Além da possibilidade de medicação assistida para usuários graves, sem continência familiar.
Dado o exposto, entende-se que este foi o início de um longo trabalho a ser feito para a implantação de um Serviço em Saúde Mental que garanta congruência aos princípios e diretrizes do SUS. A questão da humanização tem sido o ponto chave a ser trabalhado entre os profissionais, principalmente o acolhimento livre de julgamento, de senso comum e preconceito, que infelizmente ainda faz parte da cultura do município. Pereiras é uma cidade de muita religiosidade, que ainda vê a Saúde Mental como “falta de Deus”, “cabeça fraca” e etc. Com todo esse tabu, percebeu-se que isso é um fator limitante na procura e adesão ao tratamento de saúde, que aos poucos tendem a ser trocados por informação e psicoeducação, que estão sendo cada vez mais inclusos nas agendas da Equipe de Saúde Mental. Com implantação da equipe de saúde mental, foi preciso atingir os casos mais urgentes e levá-los a estabilidade, para então liberar espaço cada vez mais para práticas de promoção e prevenção.
saude mental, acolhimento, psicoeducação
Mayara Marielly de Oliveira, Gregório Pololi, Lívia Lopes Santos, Mariana Garcia Stefaniszen