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O Brasil tem vivenciado o processo de transição nutricional caracterizado por mudanças no estilo de vida e do padrão alimentar trazendo consequência direta no estado nutricional. A redução da desnutrição infantil e o aumento da prevalência de obesidade entre crianças têm marcado este processo. O excesso de peso e a desnutrição infantil são duas faces do mesmo problema: a dificuldades das famílias em garantir comida de verdade, de forma acessível e sustentável. De acordo com os dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF 2008-2009), 16,6 % dos meninos e 11,8 % das meninas de 5 a 9 anos apresentavam excesso de peso no Brasil. Dados do município de Santos-SP no Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (SISVAN), em 2024, indicam que 32% das crianças santistas de 5 a 9 anos estão com excesso de peso. Na plataforma Alimenta Cidades do Ministério do Desenvolvimento Social, encontramos dados que identificam a região do centro do município de Santos-SP como uma área de extrema vulnerabilidade social e com presença marcante de estabelecimentos que oferecem opções alimentares não saudáveis, caracterizando -se por ser um pântano alimentar. Diante destes dados, verificou-se a necessidade de conhecer e analisar como está se dando o consumo alimentar das crianças no território para adoção de medidas educativas na atividade em grupo realizada na sala de espera da pediatria em duas unidades de saúde da família (USF) visando a ampliação da prática alimentar saudável na infância.
Objetivo geral Analisar os dados dos marcadores de consumo alimentar para o direcionamento das ações de alimentação e nutrição em unidades de saúde da família localizadas em território de vulnerabilidade social no centro de Santos -SP. Objetivos específico Criar atividades lúdicas de Educação Alimentar e Nutricional (EAN) baseadas nos indicadores de maior risco à saúde e nos indicadores de maior benefício à saúde dos Marcadores de Consumo Alimentar do SISVAN; Implementar ações de Educação Alimentar e Nutricional na sala de espera da pediatria de duas unidades de saúde da família; Uso da escala hedônica com expressões faciais para avaliar atividades de Educação Alimentar e Nutricional; Promover o direito humano à alimentação adequada.
Para avaliar o consumo alimentar, utilizou – se o formulário “Marcadores do Consumo Alimentar” do SISVAN. O formulário foi aplicado com os responsáveis de 45 crianças com idade entre 03 a 12 anos, sexo masculino e feminino, frequentadoras de duas USF pertencentes a região central de Santos. A coleta de dados foi realizada entre fevereiro e maio de 2025 por nutricionista e estagiários do curso de Nutrição da UNIFESP/BS. Os dados foram organizados, na planilha no Microsoft Excel, em três categorias: consumo de alimentos marcadores de alimentação saudável (feijão, frutas, legumes e verduras), consumo de alimentos marcadores de alimentação não saudável (ultraprocessados salgados e doces) e nas práticas relacionadas ao ato de comer (uso de telas durante a alimentação, frequência das refeições). Após análise dos dados do formulário, foram elaboradas atividades lúdicas de Educação Alimentar e Nutricional (EAN) para sala de espera da pediatria de duas unidades de saúde da família. As atividades da sala de espera da pediatria deveriam contar com a escolha de um livro de literatura infantil, desenhos para colorir e a utilização de uma dinâmica (jogos de tabuleiro, oficina de plantio e brincadeiras tradicionais populares). Participaram das atividades 52 crianças durante os meses de agosto a novembro de 2025. Para avaliar às atividades de EAN utilizamos a escala hedônica com uso de expressões faciais.
O território do centro do município de Santos é marcado pela vulnerabilidade social, sendo comum encontrarmos uma maior concentração de população em situação de rua, baixa arborização dos espaços públicos, moradias de cortiços, poucos e precários espaços de lazer para crianças e jovens. A insegurança alimentar também se faz presente neste território marcado pelas desigualdades socioeconômicas, favorecendo tanto carências nutricionais como a obesidade infantil. Na amostra estudada, os resultados encontrados evidenciam o uso de telas durante às refeições (64%), aumento do consumo de alimentos doces (58%) e bebidas adoçadas (91%), a redução do consumo de legumes e verduras (53%) pelas crianças que residem no território do centro histórico de Santos. A proposta de intervenção foi baseada nos dados encontrados e pensado para encarar às desigualdades que atravessam o território e o prato das crianças. Às temáticas de alimentação e nutrição trabalhadas foram: a importância do consumo de frutas, legumes, verduras; a valorização da cultura alimentar do brasileiro (consumo de feijão); prevenção da obesidade infantil e riscos da alimentação baseada em ultraprocessados e diminuição do consumo de bebidas adoçadas. Às ações de EAN foram avaliadas ao fim de cada atividade utilizando a escala hedônica facial, sendo encontrado um alto índice de aprovação entre às crianças (75% – adorei e 25% gostei).
Evidências indicam que a adoção de um estilo de vida saudável desde a infância associa-se à redução do risco de desenvolvimento de doenças crônicas não transmissíveis. As experiências alimentares na infância exercem influência significativa sobre as preferências, os hábitos e as atitudes alimentares manifestadas na vida adulta. Analisando os dados da cidade de Santos, verificamos uma lacuna na inserção das informações de Vigilância Alimentar e Nutricional (VAN) sobre o consumo alimentar das crianças atendidas, impedindo que a situação alimentar e nutricional seja analisada de forma completa para o planejamento e execução de políticas públicas voltadas para ações de atenção alimentar e nutricional no município. A utilização dos Marcadores de Consumo Alimentar como instrumento para auxiliar na escolha das temáticas a serem desenvolvidas em atividades sobre alimentação saudável foi decisiva devido à falta desses dados no SISVAN. A participação nas atividades lúdicas propostas teve boa aceitação pelas crianças e famílias. Além disso, foi possível perceber a necessidade do fortalecimento da VAN no município para formulação de estratégias de cuidado melhorando a oferta de ações de promoção da saúde na Atenção Primária à Saúde.
Vigilância em Saúde; Infância; Alimentação
VIVIAN LEMOS LOPES DE CICCO