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A experiência foi iniciada após constantes relatos dos nossos usuários durante a escuta no processo de acolhimento, onde indivíduos de diferentes faixas etárias se mostravam em sofrimento significativo. Este lugar é o Centro de Convivência Conviver, que pertence à Secretaria Municipal de Saúde e está localizado dentro do Parque Rizzo no Município de Embu das Artes, onde os moradores do município e também de outras cidades e estados participam de oficinas de Promoção de Saúde. Por meio dessa experiência os usuários apresentavam seus relatos sobre as perdas de familiares/amigos, animais de estimação, vínculo de trabalho, relacionamentos afetivos e saúde, mas não necessariamente reconheciam as referidas experiências de perdas como LUTO. Após constantes falas sobre o tema em diferentes faixas etárias, identificamos a necessidade de garantir um espaço sobre a referida demanda de jovens, adultos, idosos, amigos e familiares de pessoas enlutadas por meio das nossas oficinas, mas entendemos a importância de criar uma oficina sobre o tema das perdas afetivas e assim foi criada a oficina “Perdas e Recomeços”. Conforme diretrizes do SUS e alinhados com a Atenção Básica foi definido o fluxo dos usuários para que além do atendimento na UBS, para que eles também pudessem participar das oficinas no Centro de Convivência Conviver, em especial da nova oficina que teve início em Abril/2024, e com a participação dos usuários encaminhados da Atenção Básica recebemos vários usuários sofrimento.
Contemplar os usuários do serviço que se identificam com a demanda do luto e que apresentam o interesse e disposição para a oferta da escuta acolhedora referente a finitude em suas histórias de vida. Ofertar espaços de diálogos e reflexões pertinentes ao fortalecimento da saúde física, psíquica, emocional e espiritual, respeitando os diferentes contextos de valores culturais, históricos e sociais. Possibilitar o refazimento, a esperança diante a vida e também redefinir expectativas viáveis de serem construídas e vivenciadas no processo de cuidado, desde as perdas de entes queridos, animais de estimação, vínculo de trabalho, relacionamentos afetivos e limitações de saúde, para que saibamos passar pela experiência da morte e de morrer considerando como um processo da nossa existência e principalmente reconhecer o TABU como um estigma social, que limita e silencia a dor e que gera ainda mais sofrimentos.
Considerando a demanda das perdas e luto como consequência de longa permanência da dor emocional, avaliamos como estratégia o uso de recursos para promover a experiência sensorial. A princípio pensamos no uso da argila que poderia favorecer os sentidos e as sensações físicas pela transformação na elaboração de esculturas. Mas devido a demanda, não só pela aquisição da matéria prima, mas também pela necessidade de um tempo maior para tal atividade, decidimos pensar em outras possibilidades e assim elegemos o recurso que nomeamos de “Cartas de Afeto”. As cartas seriam mensagens numa folha de sulfite onde seriam registrados a narrativa coletiva, dividida em células de no máximo três usuários, com o objetivo de acessar lugares de silêncios para a superação do TABU sobre “a morte e o morrer”. Também consideramos a música como valioso recurso e ponte do afeto para o acesso às boas lembranças para que cada pessoa pudesse resgatar e recordar o que nomeamos de “roda do canto”. Com a escolha, do nosso coletivo, de uma música por encontro para o momento de expressar os sentimentos, não só da dor mas também das lembranças do afeto e do amor pelos entes que partiram. Os recursos utilizados para oficinas foram as folhas de sulfite, canetas, caixas de lenços, instrumentos de percussão, cadeiras e uma mesa. O espaço da oficina foi decidido pela realização em espaço aberto ao lado das árvores, num local visível para os transeuntes que circulam pelo Parque.
Sobre os resultados da nossa experiência percebemos inicialmente o quanto priorizamos o olhar quantitativo, onde a cada oficina fomos tabulando o número de usuários que participaram da oficina, mas no decorrer da experiência percebemos o quanto os grupos compostos por um número menor, possibilitou que as pessoas se expressassem com maior desenvoltura sobre seus sentimentos. O plano da carta de afeto foi substituído pelo relato de afeto, sendo proposto pelos próprios usuários e que assim permaneceu nas demais oficinas. A música coletiva foi fragmentada e apenas alguns usuários que se sentiram à vontade, na verdade uma minoria, cantaram, mas apenas o refrão, e foi muito significativa essa experiência para os demais usuários que nem conseguiam falar, mas após ouvir o refrão participaram refletindo sobre sua própria história de vida. Foi um espaço onde os choros ocuparam os silêncios, mas todos os silêncios foram respeitados. Foi possível perceber a acolhida do nosso coletivo para com aqueles que estavam mais sensíveis e também entender que para a dor emocional não tem um script definido, tudo é no inédito e no agora. E assim a escuta era como um momento do “sagrado” único e necessário. Apesar das atividades com oferta para o coletivo, não deixamos de acolher os dias que havia apenas um usuário. E assim entendemos que a oficina foi pensada na estrutura que acontecem nas oficinas já existentes, e consideramos que esta oficina nos possibilitou enxergar numa outra perspectiva.
Fica claro que o que planejamos não necessariamente é o que vai acontecer. E assim foi com a experiência na construção da oficina “Perdas & Recomeços”. Após diferentes experiências e reflexões de um mesmo lugar, considero que ainda temos muito o que construir no lugar do luto. Entendo que o caminho só poderá ser construído por meio do diálogo, da reflexão da aproximação com diferentes contextos relacionados ao luto. O silenciamento condena não apenas as pessoas, mas também suas histórias de vida. Hoje já é possível acessar outras culturas que lidam com o luto de diferentes formas. Óbvio que a cada lugar é uma realidade, mas entendo que esse contexto do sofrimento psíquico, emocional e espiritual deveria ocupar mais os espaços desde as diferentes faixas etárias, mas sem enfrentamento sobre o tabu, essa trajetória poderá se tornar ainda mais frágil. Entendo que a arte, o cinema e a música podem ser uma contribuição potente sobre a perspectiva do luto. O reconhecimento dos limites, dos diálogos e da escuta deve abranger as mais diversificadas instâncias, não apenas nos momentos do adoecimento e das fatalidades. Vejo um campo amplo e repleto de possibilidades.
dor emocional e falas silenciadas
BARBARA BELLA URBAN, CILENE CHARGAS CAVALCANTE