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A Atenção Domiciliar do Programa Melhor Em Casa (PMC), de âmbito federal (SUS), atende pacientes que necessitam de cuidados intensivos, com foco na desospitalização e no cuidado humanizado no domicílio. No contexto do cuidado familiar em casa, as relações humanas exigem um olhar sistematizado e cuidadoso. Nele há a necessidade de um cuidador oficialmente instituído pela família e também pelo Estado, junto ao acompanhamento da equipe multiprofissional do Prograna Melhor em Casa (PMC), porém, por vezes, nas relações familiares se encontram os nós a serem desatados. As relações de gênero estão presentes nesse cenário, sendo que, na maioria das vezes, é uma mulher (geralmente filha ou irmã) quem assume oficialmente o cuidado do familiar doente, da casa e abdica de papéis sociais, profissionais e por vezes até pessoal, que podem gerar conflitos familiares como falha de comunicação e tensões emocionais pelas dinâmicas complexas, sobrecarga e adoecimento das cuidadoras. A intervenção psicossocial com a família se torna imprescindível na compreensão das causas, os efeitos e as estratégias que podem ser adotadas para mitigar os impactos negativos desses conflitos familiares, tentado organizar que todos sejam co-responsáveis no cuidado de seus doentes. No cotidiano do serviço, por vezes encontramos familiares que residem em outros bairros, cidades e estados. Com o objetivo de aplicá-los no cuidado, uma das estratégias foi a realização de reuniões familiares de forma on-line.
GERAL: Sistematizar espaço de mediação de conflitos familiares no Serviço de Atenção Domiciliar através de reuniões online com familiares atendidos pelo Programa Melhor em Casa. ESPECÍFICOS Organizar um espaço de escuta qualificada e empatia entre familiares em conflito; Esclarecer a legislação brasileira acerca dos cuidados de membros familiares em vulnerabilidade ou situação de risco em saúde, crianças e adolescentes, idosos, pessoas com deficiência , transtornos mentais, entre outras; Construir um documento e formalizar os acordos pactuados.
O projeto foi iniciado devido à crescente demanda por mediação de conflitos familiares relacionados à divisão de tarefas e à solicitação de apoio psicossocial para mitigar esses conflitos. Também houve pedidos da equipe multiprofissional durante reuniões técnicas. As reuniões com os familiares são organizadas de forma presencial, on-line ou mista, com o objetivo de mediar os conflitos. As reuniões on-line permitiram a participação de responsáveis legais, mesmo aqueles que moram em outras cidades, estados ou países, e que devem estar envolvidos nos cuidados de seus familiares. Iniciadas no segundo semestre de 2023, as reuniões seguem até hoje, sendo realizadas conforme a demanda, sem periodicidade regular. Elas começam com um esclarecimento sobre a sistematização da proteção legal no Brasil para indivíduos vulneráveis e os responsáveis pelos cuidados, destacando o dever do Estado e o direito e dever do cidadão junto aos cuidados dos familiares. A convocação e coordenação das reuniões ficaram a cargo da equipe de Serviço Social, Psicologia e Terapia Ocupacional, via Google Meet. Quando necessário, outros profissionais participaram pontualmente, oferecendo orientações sobre cuidados de saúde. No início de cada reunião, foram estabelecidas regras como a fala de um membro por vez, respeito mútuo, escuta empática e proibição de falas de ódio, violência de gênero, preconceito ou intolerância.
As reuniões oferecem um espaço no qual o familiar sobrecarregado pelos cuidados tem a oportunidade de se expressar e refletir sobre a co-responsabilização dos outros familiares. Isso permitiu observar a pró-atividade dos membros da família no enfrentamento dos desafios, revelando que muitos não compreendiam a extensão do cuidado domiciliar. O trabalho psicossocial exige confiança, vínculo e a superação da barreira do formato online, transformando o ambiente, por vezes impessoal e frio, em um espaço acolhedor e empático. Em alguns casos, quando o conflito é profundo e os vínculos familiares irrecuperáveis, a vulnerabilidade e o risco à saúde aumentam, sendo necessário acionar mecanismos de proteção, como o Poder Judiciário, embora essa seja uma medida rara, mas necessária. O documento formalizado nas reuniões, por meio de um acordo sistematizado, é crucial para o acionamento de mecanismos de proteção, caso haja necessidade de cessar negligência, maus-tratos, abandono ou outras formas de violência. Ao final de cada reunião, um documento escrito e assinado pelos participantes formalizaram o acordo alcançado. Também foi prevista a revisão periódica dos acordos, a cada bimestre ou semestre, ou conforme a demanda, assegurando a adaptação contínua às novas necessidades de cuidado.
O trabalho da equipe multiprofissional oferece um cuidado integral, ampliado e singular para cada sujeito e seu núcleo familiar. Reconhecendo que o adoecimento grave, que exige cuidado compartilhado pela família, é um fator estressor nas relações familiares, a mediação de conflitos, sistematizada e formalizada pela equipe, se torna um espaço importante para reflexão sobre as ações tomadas por cada familiar até o momento. Além disso, permite repensar a continuidade do cuidado com uma nova lógica de funcionamento, ao mesmo tempo em que formaliza novas demandas de cuidado. Durante o processo, a equipe também teve que apoiar na inclusão digital dos familiares e mediar a dinâmica nas reuniões virtuais, garantindo que todos participassem de maneira efetiva. Este trabalho proporciona ao sujeito e seu núcleo familiar enxergar novas perspectivas no âmbito do cuidado permitindo assim que estes elaborem estratégias para suas novas realidades, além de despertar um sentimento de protagonismo com apoio da equipe multiprofissional
Conflito Familiar; Atenção Domiciliar; Telessaúde;
SILVANA GUILHEN GALIETA, THAÍS ARAÚJO FERNANDES, ANTONIO MESSIAS GAMA ROSPENDOWISKI, ELAINE DE FÁTIMA SCAVASSA SOUZA, SELÔNIA PATRICIA OLIVEIRA SOUSA CABALLERO, ANDREA DAINESE MANNI RIBEIRO