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No Brasil, a telemedicina foi regulamentada em março de 2020, onde o exercício da medicina mediante a utilização de tecnologias alternativas para uma assistência em saúde segura foi reconhecido (BRASIL, 2020). Atualmente, um dos maiores problemas de saúde pública após a pandemia da COVID-19 é a sobrecarga nos territórios municipais dos serviços de urgência e emergência, sendo a Telemedicina, assim, um importante mecanismo de auxílio para a promoção de boas políticas públicas de melhoria do acesso, racionalização de recursos e seguimento clínico da população. O Acidente Vascular Cerebral (AVC) também é evidenciado como um dos principais desafios atuais na saúde pública do país, onde estima-se cerca de 400.000 casos por ano da doença, ou seja, um caso a cada 90 segundos. Sabe-se que a prevenção primária, contudo, ainda é heterogênea e com baixa adesão da população, o que tem impactado com mais de 100.000 óbitos por ano decorrentes ao AVC, o que equivale a um óbito a cada 5 minutos (MARTINS et al., 2020). A literatura na área revela que menos de 70% dos pacientes internados pelo Sistema Único de Saúde (SUS) com AVC realizam o exame de tomografia de crânio no país, sendo apenas 5% dos pacientes com AVC isquêmico tratados com trombolítico endovenoso. Diante do exposto, a presente experiência desenvolvida pelo município de Batatais contribui para a construção de uma linha de cuidado ao AVC com resultados significativos na morbidade e letalidade pela doença.
Implantar uma linha de cuidado ao AVC por meio da Telemedicina para o diagnóstico e tratamento rápido e adequado aos pacientes do SUS, melhorando a qualidade da assistência prestada em urgência e emergência em Batatais.
O projeto de Telemedicina para o tratamento do AVC agudo em Batatais foi realizado por meio de uma parceria da Secretaria Municipal de Saúde com a Unidade de Emergência do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto (UE/HCRP) e Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP/USP). Para tanto, foi implantada uma tecnologia em saúde para Telemedicina móvel para o AVC vinculada ao Programa Pesquisa para o SUS (PPSUS), por meio de um aplicativo para comunicação entre times e apoio à distância pelos especialistas. O aplicativo denominado “Join” oferece a trajetória do deslocamento da ambulância, registro de tempos, compartilhamento de imagens de alta qualidade e comunicação com os especialistas na área. O município de Batatais articulou sua Rede de Assistência em Saúde local com a capacitação dos profissionais de saúde para a identificação do caso suspeito de AVC agudo e o uso do recurso tecnológico entre o Serviço Móvel de Urgência e Emergência (SAMU), a Unidade de Pronto Atendimento (UPA 24h) e Hospital da Santa Casa de Batatais. A plataforma online de Telemedicina foi utilizada para a notificação dos casos suspeitos de AVC agudo, com base no protocolo assistencial construído pela Gestão Municipal de Saúde, em que os times de resposta rápida recebem a notificação do caso e discutem os critérios de inclusão e exclusão para o tratamento com trombolítico, custeado com recursos próprios pelo município, após a realização dos exames laboratoriais e tomografia.
Foram atendidos 143 pacientes pela Telemedicina para o tratamento agudo do AVC em Batatais. Quanto as características dos participantes, 74 (51,7%) foram diagnosticados com AVC isquêmico e 16 (11,2%) AVC hemorrágico, com três (0,02%) casos de AVC transitórios e 50 por outras causas (34,97%), em que 47,4% dos casos era do sexo feminino e 52,6 % do sexo masculino. Destes 74 atendimentos por AVC isquêmico, 30 (40,5%) casos foram submetidos à terapia de reperfusão com trombolítico, sem nenhum episódio de transformação hemorrágica sintomática associada registrado. Estudos na área, no Brasil, revelam que apenas 2% dos pacientes diagnosticados com AVC recebem o tratamento adequado com trombolíticos, de modo que os resultados apresentados por Batatais evidenciam a efetividade da gestão em saúde local por meio do projeto piloto com a telemedicina, visto que a taxa de trombólise local foi de mais de 40% dos casos de AVC isquêmico, resultados acima das metas internacionais preconizadas. Ademais, sabe-se que o acesso a neurologistas em municípios pequenos é, por vezes, difícil no sistema público, sendo o AVC uma doença que exige uma tomada de decisão rápida e segura no tratamento adequado nos serviços de saúde, onde a presente experiência revela resultados significativos para o planejamento de políticas públicas a respeito.
A experiência com a Telemedicina no AVC agudo em Batatais universalizou o acesso ao tratamento rápido, seguro e adequado à população, por meio de uma política pública municipal que reconhece a importância de tecnologias digitais alternativas para a assistência em saúde. Os resultados mostram um modo de trabalho na linha de cuidado ao AVC local que vai ao encontro da eficiência de gestão exigida pelo SUS, em que os aspectos econômicos justificam o investimento realizado a médio e longo prazo com a sobrevida e diminuição de sequelas dos pacientes. O município busca, diante do exposto, ampliar sua assistência ao AVC agudo pela Telemedicina para a sua região de saúde, com discussões de seus resultados na Comissão Intergestores Regional (CIR) pela Direção Regional de Saúde de Ribeirão Preto (DRS XIII). A Regionalização da Saúde no Estado de São Paulo, inclusive, tem como uma de suas diretrizes o fortalecimento das Redes de Urgências e Emergências da região, sendo esta uma experiência exitosa com possibilidade de implantação e generalização de seus resultados, que vão ao encontro das necessidades dos municípios do Estado.
Telemedicina; Tratamento do AVC agudo
Bruna Francielle Toneti, Rogério Donizeti Tercal, Silvana Frezza Pisa, Viviane Aparecida Faria Batista, Alessandra Cristina pereira Milan, Laura Teodoro Furtado Faleiros, Tais Poliseli Teles, Octavio Marques Pontes Neto