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O Sistema Único de Saúde oferece diversas oportunidades de trabalho para profissionais da saúde, principalmente das áreas de Medicina e Enfermagem. Atuar na saúde pública implica encarar desafios que englobam as questões social, econômica e cultural e que testam os limites dos conhecimentos em cada eixo. Ser médico no SUS também envolve adquirir experiências e conhecimentos ao trabalhar com/em uma equipe multiprofissional, em que é preciso uma cooperação orgânica entre todos, a fim de oferecer o melhor tratamento. O resgate do papel social dos médicos e da medicina é considerado como a promoção de um bem vital à nossa sociedade. Conhecer essa realidade é mais uma motivação para lutar pelo direito do acesso à saúde pública e gratuita. Somada a isso, a enfermagem pode ser amplamente definida como a ciência do cuidado integral e integrador em saúde, tanto no sentido de assistir e coordenar as práticas de cuidado, quanto no sentido de promover e proteger a saúde dos indivíduos, famílias e comunidades. Neste contexto foram elaboradas oficinas com estes profissionais a partir de uma demanda da coordenadora regional de saúde do Centro, para rever processos e rotinas de forma coletiva e participativa para melhorar as condições de trabalho nas Unidades Básicas de Saúde. As oficinas foram planejadas para construir o melhor caminho que transforme a realidade,com intuito de reduzir a rotatividade destes profissionais no território e melhorar a qualidade dos atendimentos aos usuários.
Como forma de valorizar o trabalho destes profissionais no (e do) SUS, as oficinas tiveram como foco ouvir médicas(os) e enfermeiras(os), através do World Café, para compreender quais são as principais questões relacionadas às condições do trabalho. Dessa forma, foi oferecido um espaço de acolhimento e conversa para que compartilhassem tanto suas vivências e seus sentimentos, quanto à sua função em seus locais de trabalho, desde as frustrações até às satisfações.
Ao todo, foram 5 encontros presenciais na Escola Municipal de Saúde Regional Centro, em períodos intercalados, direcionados para Médicas(os) e Enfermeiras(os) das unidades básicas de saúde da região centro, totalizando 103 participantes. Com o intuito de organizar e promover a escuta ativa, foi utilizada uma metodologia para criar uma rede viva de diálogo: o World Café, que traz novas perspectivas às discussões de forma coletiva. Além disso, antes do início da atividade, foram realizadas práticas corporais, com som ambiente relaxante com intuito de acolher, descontrair e trazer a presença para a atividade que sucedeu. Nas oficinas, os grupos foram divididos em pequenas mesas estilo Café, com rodadas de conversas de 20 minutos. Em cada mesa, uma pergunta norteadora com um tema era disparada por um facilitador que conduzia as discussões. Após este tempo, os grupos rotacionavam de mesas para ampliar a sua discussão, passando por todos os assuntos. Após as rodadas, houve uma apresentação da síntese geral das ideias compartilhadas nos subgrupos. Ao final, foi pedida uma breve avaliação relacionada à qualidade da organização e à relevância da realização da oficina. Para analisar o material coletado nas reuniões, usou-se o Discurso do Sujeito Coletivo (DSC), que buscou construir a opinião coletiva, respeitando a condição quali-quantitativa. Esta técnica permitiu extrair as ideias centrais e expressões chave. Com isso, semelhanças encontradas compuseram os discursos-sínteses.
Com base no DSC e nas perguntas de cada mesa, é possível observar palavras e ideias em comum, além de algumas falas que remetessem às sensações e aos sentimentos trazidos pelas médicas e enfermeiras referente à sua ordem de trabalho. Ficou evidenciado a cobrança sentida como excessiva das metas contratuais. Somado a isso, há sobrecarga de trabalho por conta da rotatividade de profissionais e afastamentos por questões de saúde, bem como problemas de infraestrutura na unidade, que prejudicam a integralidade do cuidado. Como proposta, pontuaram a necessidade de melhoria na comunicação, tanto interna na unidade como externa na rede de atenção, educação permanente, apoio da mídia para informações sobre o funcionamento do SUS e fortalecer a intersetorialidade. A quebra da continuidade do cuidado afeta, principalmente, imigrantes e pessoas em situação de refúgio, idosos não-acompanhados, pessoas em situação de rua, pessoas LGBTIA+ e, recentemente, ex-usuários de convênios de saúde. Com isso, há demandas específicas diante dessa multiculturalidade territorial e o perfil transitório da população, que devem ser acolhidas por uma equipe integrada que saiba lidar com esses tipos de vulnerabilidades. Além disso, as fragmentações do processo de trabalho e o excesso de cobranças levam à frustração e ao adoecimento, que impactam na resolutividade dos serviços da saúde, mas que podem ser mitigados através da criação de uma linguagem comum para todos.
No geral, as(os) profissionais se mostraram contentes e satisfeitas(os) com as atividades das oficinas, principalmente por propiciar o cuidado/acolhimento de quem cuida, discussões relevantes e uma visão ampla da educação permanente. Soma-se a isso o espaço livre que puderam compartilhar – através de uma dinâmica que consideraram interessante e efetiva – angústias, frustrações e alegrias que seus trabalhos proporcionam. No entanto, também relataram o receio da gestão e de instâncias superiores não se preocuparem com as demandas levantadas por elas(es). Dessa forma, reforçaram muito a questão de receberem os desdobramentos desse trabalho, além de indicarem a necessidade de realizar as oficinas com outras equipes dos serviços. Os facilitadores dos grupos também manifestaram seu contentamento, pontuando que as perguntas norteadoras contemplaram a discussão do tema para as(os) Médicas(os) e Enfermeiras(os), além do tempo para as discussões ter sido (quase) suficiente. Esta equipe teve um papel imprescindível nas discussões, que compuseram com os profissionais médicos e enfermeiros para promover o cuidado a quem cuida. Experiências de escuta e cuidado de profissionais de saúde são essenciais para melhorar a qualidade dos serviços.
Cuidado, trabalhadores, World Café
Renata Luciana Hasegawa Fregonezi, Salete Monteiro Amador, Paulete Secco Zular, Fabiana da Silva Pires, Christian Hayato Sato, Francisca Maria de Queiroz, Beatriz Damasio Penteado, Marco Broitman, Marina de Fatima Paulavicius, Talmany Zampieri Lima, Marcus Vinícius Camargo Prates, Luciana Carvalho da Silva, Gina Martins Gil, Giuliano Michel Mussi, Marcos Moreira da Costa, Débora Presman, Walquiria Montandon, Selma Silva Melo, Alessandro Rovigatti do Prado, Géssica Cibele Czuy, Carlos Eduardo de Paula, Luciana Santos Mingues Lopes, Paulo César Vieira Machado