Siga a gente
Av. Angélica, 2466 - 17º Andar
Consolação - São Paulo / SP
CEP 01228-200
55 11 3083-7225
cosemssp@cosemssp.org.br
No município de Marília, a permanência de trabalhadores com 60 anos ou mais em atividades laborais, especialmente em ocupações de maior risco físico, tem alterado o perfil epidemiológico dos agravos relacionados ao trabalho no Sistema Único de Saúde (SUS), o que evidencia a necessidade de integrar a Vigilância em Saúde do Trabalhador (VISAT) à agenda do envelhecimento digno. Sob a perspectiva do curso de vida, o envelhecimento é influenciado por trajetórias laborais marcadas por exposições prolongadas, informalidade e baixa proteção social. O trabalho configura-se, portanto, como determinante central do processo de envelhecer. Entre agosto de 2025 e janeiro de 2026, foram notificados 84 acidentes de trabalho envolvendo pessoas com 60 anos ou mais. Diante desse contexto, o CEREST Regional de Marília incorporou o envelhecimento como eixo das ações de VISAT, articulando vigilância, cuidado e proteção social para promover longevidade com dignidade. Destaca-se a importância de olhar o envelhecimento relacionado ao mundo do trabalho, uma vez que isso tende a aumentar, e de forma que haja ações de proteção a essa população considerada vulnerável.
Objetiva-se: •Relatar e analisar o perfil epidemiológico dos acidentes de trabalho em trabalhadores com 60 anos ou mais; •Identificar setores produtivos e contextos laborais associados aos agravos; •Subsidiar ações de prevenção e promoção da saúde voltadas ao envelhecimento saudável no trabalho e •Fortalecer a Vigilância em Saúde do Trabalhador como estratégia de proteção social ao longo do curso de vida laboral.
Trata-se de relato de experiência, de caráter descritivo, com análise crítica dos registros de acidentes de trabalho notificados no SINAN entre agosto de 2025 e janeiro de 2026, referentes a trabalhadores com 60 anos ou mais residentes em Marília. As variáveis analisadas incluíram sexo, raça/cor, escolaridade, ocupação, vínculo empregatício, parte do corpo atingida, emissão de Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT) e evolução do caso. Os dados foram organizados em planilha eletrônica e sistematizados em painel epidemiológico apresentado e discutido pela equipe multiprofissional e interdisciplinar do CEREST, com vistas à definição de estratégias prioritárias, sob a perspectiva da VISAT.
No período analisado, foram notificados 84 acidentes de trabalho em pessoas com 60 anos ou mais, sendo 47,6% com incapacidade temporária. Tal dado revela que o envelhecimento laboral no município está atravessado por exposições cumulativas a riscos ocupacionais. A predominância masculina (88,1%) e a concentração na construção civil, especialmente entre pedreiros/mestres de obras (43%) e serralheiros (21,6%), evidenciam trajetórias marcadas por trabalho braçal e exposição prolongada a riscos físicos. Sob a perspectiva das determinações sociais da saúde, observa-se que baixa escolaridade e inserção majoritária em vínculos autônomos (60,7%) apresentam condições estruturais que ampliam a exposição a ambientes inseguros e reduzem acesso a mecanismos formais de proteção. Por exemplo, a fragilidade na emissão de CAT (apenas 8,3%) explicita barreiras no acesso à proteção previdenciária. A predominância de lesões oculares (46,4%) e em membros superiores indica exposição a riscos evitáveis e possíveis lacunas nas políticas de prevenção e fiscalização. Assim, os dados não representam apenas eventos isolados, mas expressão de um processo social de produção do adoecimento que acompanha esses trabalhadores ao longo da vida laboral. O perfil identificado demonstra que o envelhecimento no trabalho ocorre de maneira desigual, sendo mais vulnerável o trabalhador que permanece em atividade após os 60 anos e o cuja trajetória foi marcada por inserção precoce em ocupações de risco e informalidade
A análise mostra que o envelhecimento digno deve ser entendido associado às condições de trabalho que estruturam a vida dos sujeitos. O acúmulo de exposições ocupacionais, relacionado a desigualdades educacionais e à informalidade, resulta em envelhecer laboral desprotegido, no qual acidentes e incapacidades podem não ser apenas eventos fortuitos, mas desfechos socialmente determinados. A informalização e a frágil emissão de CAT revelam barreiras no acesso a direitos trabalhistas e previdenciários, cenário que impacta o SUS e reforça a VISAT como fundamental. Aqui, compreendemos que as condições de envelhecimento são resultado de trajetórias acumuladas de risco e proteção. Assim, promover o “EnvelheSer” com equidade exige intervenções precoces, intersetoriais e estruturantes, que articulem saúde, trabalho e proteção social. O Painel também evidenciou a necessidade de o CEREST debruçar o olhar para o envelhecimento, reconhecendo o trabalho como determinante central da saúde ao longo da vida. Ao qualificar a produção de evidências, fortalece-se a indução de políticas públicas que promovam ambientes de trabalho mais seguros, ampliem a proteção social e garantam longevidade digna.
Envelhecimento, Trabalho, CEREST, Proteção Social
ROSANE ANDRESSA ROSSINI MARCHIORI, CAMILA COSTA RIBEIRO SIMIONATO